21/05/2026
Chamada para submissões: Guillaume Dustan: Bareback, Pornografia, Soroserção e Texto-terrorismo
Revista Das Questões (UnB)
“You know, nobody uses condoms anymore, not even the Americans, everybody's HIV-positive now, I don't know anyone who is negative (…)”
— Guillaume Dustan, Dans ma chambre (1995)
“Un premier choix de slogans (à tester) : « Nokpote = Pouvoir » ; « Sperme = Vie » ; « J’ai envie que tu gicles » ; « Sida = Virus » ; « Latex = Mort » ; « Fiers de ne pas nous soumettre », « Bareback Forever », et, bien sûr : « Baiser sans capote, ça nous fait jouir ». Merci ! C’était le 1er décembre 2000. À vous les studios…”
— Guillaume Dustan, Génie Divin (2001)
Guillaume Dustan (1965-2005) foi um autopornografo, escritor e militante bicha. Nascido William Baranès, levou uma vida relativamente tranquila – “burguesa” como definiria mais tarde – cursando a École Nationale d’Administration (ENA), destinada a formação dos altos funcionários do Estado francês, formando-se em Ciência Política, até descobrir-se soropositivo no início dos anos 90, iniciando quase concomitantemente sua carreira de escritor. Seus primeiros três livros – a chamada Trilogia Autopornográfica: Dans ma chambre (1995), Je sors ce soir (1997) e Plus fort que moi (1998) – apresentam um retrato cru, pornô e visceral do gueto homossexual de sua época. Suas próximas obras – Nicolas Pages (1999), Génie Divin (2001) e LXiR ou Dédramatison La Vi Cotidièn (2002) – irão assumir um tom cada vez mais experimental e ensaistico, sem perder a veia autopornográfica que lhe fez ao mesmo tempo popular e marginal entre o gueto e a intelectualidade francesa. Dustan aparece em programas de TV, escreve para o Libération, um dos maiores jornais da França, onde discute abertamente sua defesa do Bareback[1] e da Soroserção[2] em contraposição às campanhas de perseguição e culpabilização do ACT-UP[3] de Paris, que alça o Bareback à categoria de ideologia e põe Dustan (junto a outros escritores soropositivos como Érik Rémès) na condição de agitadores, provocadores e criminosos. Contra a união entre biossegurança e sexo, hedonista autoproclamado e critico do conservadorismo (de esquerda e de direita), Guillaume Dustan firmou-se enquanto um dos escritores mais radicais de seu tempo, localizado por Paul Preciado em Testo-Junkie: Sexo, Drogas e Biopolitica na Era Farmacopornográfica (2008) como representante máximo de uma “insurreição sexual escrita”, Dustan representa uma politica queer que “morreu com aqueles que a iniciaram e sucumbiram ao retrovírus”[4].
Esta chamada da Revista Das Questões suscita, no aniversário de 61 anos de sua vida e 21 anos de sua morte, uma revisitação à obra e ao legado de Guillaume Dustan. Aceitamos artigos, ensaios, entrevistas, traduções e demais formas de mídia que dialoguem de alguma forma com sua obra, que trabalhem a herança Dustaniana à literatura, à teoria e ativismo queer etc.
As avaliações serão conduzidas pelos organizadores.
[1]Sexo gay sem uso de preservativo.
[2]Sexo sem uso de preservativo entre corpos soroconcordantes
[3] AIDS Coalition to Unleash Power (ACT UP) é uma organização internacional de combate ao HIV. Entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000, sua seção parisiense se envolveu em uma polêmica com Guillaume Dustan, Érik Rémes e Paul Preciado em torno da questão do Bareback.
[4]PRECIADO, Paul B. Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. São Paulo: N-1 Edições, 2018. 435p. ISBN 978-85-66943-53-5.