A filosofia brasileira sob tutela: desconstrução da autonomia intelectual

Fernando Alberto Pozetti Filho

Doutorando em Filosofia da Ciência na UNESP; doutorando em Educação na USP

27/08/2025 • Coluna ANPOF

Quando pensamos no desenvolvimento da filosofia no Brasil, a imagem que nos vem à mente é reconfortante: uma vasta comunidade de autores e docentes, universidades autônomas, carreiras e progressões institucionais consolidadas, liberdade temática nas linhas de pesquisa, expansão dos Departamentos com crescente número de teses defendidas, estudantes explorando as grandes questões do pensamento humano. Essa narrativa, repetida em discursos oficiais e histórias institucionais, oculta uma realidade bem mais complexa e perturbadora. Documentos desclassificados recentemente e declarações de atores revelam que nossa tradição filosófica foi moldada por forças que pouco tinham a ver com a busca desinteressada da verdade.

O tema aqui brevemente ventilado ganha relevância pelos atuais eventos de assédio à soberania nacional em meio à crise diplomática e ideológica entre Brasil e Estados Unidos. Se realizássemos uma genealogia desse entrevero – restringindo-nos ao domínio epistêmico filosófico – poderíamos pontuar que, durante os anos 1950 e 1960, algo aparentemente bizarro acontecia nos laboratórios de pesquisa americanos, cujos resultados posteriormente seriam absorvidos por nossa dependência intelectual. À época, cientistas financiados pelo Departamento de Estado e pela CIA investigavam seriamente habilidades telepáticas e parapsicológicas, almejando utilizá-las como armas de guerra contra os soviéticos. Estes, entre outros fenômenos, foram objetos de aperfeiçoamento e instrução de agentes através de programas como "Pássaro Azul", "Alcachofra" e "MK-Ultra", que instauraram um tipo de obscurantismo e anticientificismo que negligenciava radicalmente os próprios padrões neopositivistas anglo-saxões devido ao caráter fantasioso e esotérico desses projetos. Contudo, em época de conflito pelo domínio geopolítico, qualquer recurso parecia útil, mesmo os mais constrangedores. Assim, além do estratosférico Projeto Manhattan e a construção da maligna bomba atômica, projetos "menores" entraram na ordem do dia da política imperial americana. Alguns projetos buscavam a manipulação de drogas e soro da verdade contra inimigos, além de torturas psíquicas, lobotomias e outras intervenções orgânicas. Um longo protocolo de práticas que nos aproxima de uma desumanização medievalista, verdadeiras masmorras do novo poder que, não obstante, seriam recuperadas após os atentados de 11 de setembro de 2001.

A lógica era simples, mesmo que perversa: se a mente humana possuía capacidades ocultas, a filosofia e suas ciências correlatas deveriam ser capazes de desvendá-las e instrumentalizá-las. Assim, aproximaram perigosamente uma antiga e inapta literatura sobre estas questões filosóficas e o campo de instrumentalização bélica.

Reflexos dessas investidas chegaram a encabeçar indiretamente a própria constituição de pesquisas e literaturas sobre tais disciplinas em diversos países, entre eles o Brasil. Essa influência não se deu por decreto ou uma política direta e republicana, mas pela via das forças armadas e a extensa influência nos rumos políticos do país desde sua remota origem. Foi pela Escola Superior de Guerra a pelo programas do Serviço Nacional de Inteligência pré e pós Golpe Militar de 1964 que se verá moldar a agenda de pesquisa entre a elite empresarial, a classe intelectual e os desgoverno militar brasileiro, fadado e refém à imposição internacional americana.

Absorvemos esse conjunto de conhecimentos sem compreender plenamente suas finalidades. Foi uma forma sutil, mas sistemática de imposturas e agora podemos melhor apreender como interesses geopolíticos se infiltraram em nossas instituições de ensino superior, redefinindo não apenas o que estudávamos, mas como pensávamos sobre o próprio ato de pensar, sobre as ciências da consciência, da cognição, do comportamento e, posteriormente, a medicalização sistêmica de nossas populações.

O que parece ficção científica hoje era levado a sério pelos mais altos escalões do governo americano. Universidades de prestígio receberam milhões de dólares para criar programas de pesquisa em filosofia (analítica) da mente e da cognição, formaram professores especializados e incluíram progressivamente a contribuição acadêmica no currículo de formação dos agentes e espiões. Essa mobilização intelectual tinha um objetivo claro: desenvolver técnicas de controle da mente que informassem novas estratégias de campo para uma Guerra sem contato, para uma guerra travada psicologicamente. Nossa elite intelectual-militar, sedenta por modernização e reconhecimento internacional, assim como o complexo militar-acadêmico nacional, sequer contestaram esses programas obtusos, perpetuando-os até os dias atuais.

Contudo, após décadas de investimentos vultosos, esses programas de pesquisa não cumpriram suas promessas grandiosas: nem conseguiram interceptar os planos do inimigo soviético através da força da mente, nem resolveram cientificamente o problema difícil da consciência. O fracasso empírico, porém, não impediu que a estrutura conceitual e institucional criada para sustentar esses projetos se perpetuasse. Ela migrou dos laboratórios militares para as universidades, moldando gerações de pesquisadores em filosofia. Esse sistema de controle permitiu a implementação de uma política de poder-saber que precisava ser reformulada: privilegiar os estudos da mente e da consciência em detrimento do pensamento crítico. A filosofia da mente oferecia uma vantagem perfeita para o poder imperialista – parecia cientificamente neutra, afastava os estudantes das questões políticas concretas e canalizava suas energias intelectuais para problemas abstratos e aparentemente especializados.

As consequências dessa reorientação são visíveis até hoje. Pesquisas filosóficas passaram a ter como objetivo final a interpretação de autores canônicos ou a análise de problemas conceituais abstratos. Essa abordagem exegética, aparentemente inofensiva, cumpria uma função política precisa: manter os filósofos afastados das ciências empíricas e, principalmente, das questões sociais urgentes. Um exemplo deste movimento foi em relação à teoria psicanalítica que se tornou vítima colateral dessa operação: enquanto os estudos da mente promovidos pela influência americana focavam no controle dos processos mentais, a psicanálise oferecia uma abordagem crítica que desvelava os mecanismos inconscientes de dominação. Por isso foi estrategicamente confinada aos departamentos de psicologia, onde poderia ser domesticada através de abordagens clínicas mais próximas à missão de adaptação das psicoterapias, perdendo seu vigor filosófico e político. De certo que no Brasil alguns Programas de Pós-Graduação em filosofia puderam inaugurar linhas de pesquisa em psicanálise, mas isso ocorrerá sobremaneira a partir dos anos 1980. Ainda assim, essa marginalização coincidiu com a ascensão de modelos cognitivos mais facilmente instrumentalizáveis, que prometiam a adaptação do indivíduo em vez da crítica às estruturas que o oprimem.

A pergunta que se coloca é: como essa história oculta continua influenciando nossa produção filosófica? Em um momento em que inteligência artificial e neurociência estão transformando nossa compreensão da mente, é essencial questionarmos quais interesses podem estar novamente moldando as direções da pesquisa por meio do interesse alheio. As grandes corporações tecnológicas investem bilhões em pesquisa sobre cognição, enquanto agências militares desenvolvem novos sistemas autônomos de combate. A semelhança com os programas da Guerra Fria não é coincidência – trata-se da continuação do mesmo projeto sob novas formas. As big techs representam uma nova versão do mesmo projeto de controle da subjetividade. Utilizando algoritmos de machine learning e técnicas de neurociência cognitiva, essas empresas mapeiam, preveem e modificam comportamentos humanos em escala planetária. Esse projeto persistiu sob novas formas. O que antes era projeto militar de controle mental agora se materializa através de plataformas digitais que capturam nossa atenção, modulam nossos desejos e direcionam nossas escolhas. O projeto agora, finalmente, encontrou sua aplicabilidade tecnocientífica, e a dita filosofia (analítica) da mente, outrora cooptada para fins bélicos, hoje fornece o arcabouço conceitual para a engenharia comportamental das corporações tecnológicas. O projeto de domínio do psiquismo encontrou sua forma mais sofisticada através da força irrestrita dos meios digitais, através da modulação sutil de nossas capacidades cognitivas e emocionais. A resposta da comunidade filosófica deste campo tem sido insuficiente, frequentemente limitada a perspectivas desatualizadas e desconectadas das questões sociais contemporâneas.

Um aspecto particularmente revelador dessa tutela epistêmica é como ela conseguiu moldar não apenas o que pesquisamos, mas também o que deixamos de pesquisar. A marginalização sistemática de disciplinas e autores mais combativos dentro do currículo filosófico brasileiro ilustra perfeitamente esse mecanismo. Enquanto departamentos de filosofia com orientação analítica proliferavam com financiamento abundante, as abordagens críticas e/ou psicanalíticas – com seu potencial para desvelar estruturas de poder e dominação – foram progressivamente excluídas dos programas de pós-graduação em filosofia.

Reconhecer essa história não significa cair em teorias conspiratórias, mas compreender como o conhecimento se desenvolve na interseção entre interesses intelectuais e forças sociais previamente delineadas. A dependência de trajetória criada por essas políticas continua moldando nossa produção intelectual: uma vez institucionalizadas através de departamentos, revistas e associações profissionais, certas abordagens tendem a se perpetuar, criando uma inércia que favorece a manutenção do status quo. O desafio para a filosofia brasileira contemporânea é duplo: desconstruir criticamente as estruturas de dependência intelectual consolidadas e construir alternativas rigorosas e socialmente relevantes. Isso implica abandonar a concepção de que a filosofia é apenas investigação a priori de conceitos, abraçando uma abordagem que mantenha o diálogo com as ciências empíricas sem cair no cientificismo. Significa, fundamentalmente, recuperar a vocação crítica e emancipatória da filosofia, rompendo com a herança obtusa das políticas de espionagem que transformaram os estudos da mente em instrumentos de controle social. Quais problemas filosóficos estamos escolhendo ignorar? Como nossas pesquisas podem, em vez de fornecer o arcabouço conceitual para a próxima geração de algoritmos de controle, forjar ferramentas para a emancipação digital e a autonomia subjetiva? Somente assim poderemos construir uma filosofia verdadeiramente autônoma, capaz de enfrentar os desafios contemporâneos sem reproduzir, inadvertidamente, os mecanismos de dominação que moldaram parte de nossa tradição intelectual.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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