A tecnologia como dado antropológico
Helen Karen Gomes Rizzi
Mestranda em Filosofia pela UFMT
14/07/2026 • Coluna ANPOF
No artigo “Cultura e Técnica”, de 1965, Gilbert Simondon relaciona os aspectos conceituais e semânticos dos termos ‘cultura’, ‘cultivo’ e ‘criação’, de modo a suscitar reflexão sobre a relação do homem com a natureza para a configuração de seu ambiente em atendimento às suas necessidades – nomeadamente, a técnica. Esclarece que, tanto no cultivo de plantas quanto na criação de animais, ocorre uma adaptação das referidas espécies ao ambiente onde se desenvolvem. No entanto, quando o humano passa a interferir na relação desses seres vivos com o ambiente por meio de ‘técnicas de cultivo’ ou ‘técnicas de criação’, eles são submetidos a uma “segunda adaptação”, a partir da qual tanto o cultivo de plantas quanto a criação de animais não apenas se dão ‘pelo’ humano, como antes, ‘para’ o humano.
Sob essa perspectiva, é possível compreender como a relação entre o humano e a natureza, a partir da técnica, de teleológica passa a ser também axiológica, à medida que à finalidade de subsistência acrescentam-se os valores de utilidade e produtividade, segundo os quais as espécies se transformam, visando ao que se denomina “melhoramento”, como a engorda do boi, a seleção de vacas leiteiras, o transplante e enxerto de roseiras, a domesticação de animais etc (SIMONDON, 2014, p. 19-20).
Estes são alguns exemplos de técnicas que possibilitam coisas que são caras às sociedades contemporâneas e que, por isso mesmo, integram a cultura, como a produção em grande escala, a padronização da qualidade de produtos comercializáveis, a manipulação de recursos naturais com finalidade estética, a diversificação das relações afetivas entre humanos e animais etc. Não obstante, quando se compreende que tais técnicas, à medida que servem ao humano – modificando o meio de vida ou exercendo uma ação direta sobre o ser vivente –, muitas vezes degradam as espécies às quais se referem, tornando-as dependentes da intervenção humana para sua subsistência, torna-se inevitável questionar: O que se considera “melhoramento” é o “melhor” para quem? Por quanto tempo? E a qual custo?
Tem-se aqui uma discussão necessária, sem dúvidas. Mas o pensamento antropocêntrico humanista de Simondon (2014, p. 23) convida a ir um pouco além dela. Em sua elaboração, o homem cria cultura a partir do conjunto de técnicas desenvolvidas pela espécie humana a fim de perpetuar-se. E, através de suas lentes, esse fato não deve ser visto como um fator de alienação, mas de evolução – a depender da posição em que a cultura se estabeleça em relação a ele.
Ocorre que, com o passar do tempo e, sobretudo, com a apropriação da capacidade técnica por parte do humano, o sentido da técnica, em termos oferecidos pela cultura, se expandiu para muito além da utilidade de solucionar problemas cotidianos de subsistência intragrupal. A técnica humana chegara ao que Simondon denomina “gesto técnico maior” (2014, p. 24-26): um ato técnico que não se esgota ao constituir um meio de solucionar determinado problema, mas que, a partir de um resultado imediato, inicia uma transformação no meio e, por conseguinte, nos seres que nele vivem. Refere-se às grandes obras humanas que se constituíram de modo a imprimir em sua forma material o mais alto nível de esforço e pensamento humanos possíveis em um dado momento; obras que se destacam pela perfeição e que possuem valor autojustificável; que desempenham papéis importantes, mas cuja construção fora pensada para muito além de sua utilidade.
Quando consciente, voluntário e intencional, esse processo que configura o ‘gesto técnico maior’ implica uma evolução, à medida que coloca o humano diante de um risco de desadaptação, seguido de uma nova adaptação – movimento que estimula possibilidades de progresso.
Uma maneira de exemplificar essa concepção de evolução pode ser encontrada no pensamento de Hans Jonas (2010, p. 15-17), segundo o qual a ordem é provisória, conquistada e está sempre exposta ao caos, do qual decorre a evolução. Sob essa perspectiva, evoluir é o processo de sobreviver ao caos e, a partir dele, criar uma nova ordem. Em outras palavras, desordenar-se e reordenar-se, ou desadaptar-se e readaptar-se. Movimento observável que, na análise de Jonas, o cosmos faz de maneira autônoma e, na de Simondon, o homem faz por meio da técnica.
Esse movimento dialético de desadaptação e readaptação pode tomar diferentes proporções e gerar diversas consequências. Não obstante, ao mesmo tempo em que admite que a técnica pode, em certo sentido, implicar a degradação da espécie sobre a qual atua diretamente, Simondon afirma que a cultura que deixa de evoluir para evitar a técnica, não só está sob o mesmo risco, como fadada a degradar-se. Para ele, o problema não é a técnica funcionar como meio, mas a cultura funcionar como um sistema de fins. É a “cultura de finalidades” que empobrece e limita o sentido da técnica:
La cultura se insulariza cuando un grupo humano se aísla; le asegura una estabilidad que le permite sobrevivir; pero si se queda sin vínculo con el medio, si excluye las técnicas, si no las comprende, entonces la cultura estará en la base de un proceso de degradación cuya salida puede ser fatal. [...] Buscar limitar el gesto técnico según las normas culturales es querer detener la evolución posible considerando que el estado ya alcanzado nos permite definir un reino de las finalidades, un código último de valores. (SIMONDON, 2014, p. 25; 27)
Quando despida da noção utilitária de finalidade, contudo, a técnica se “purifica” e se eleva ao “gesto técnico maior”. Essa “purificação” consiste em libertar o objeto (e o ato) técnico da condição de venalidade e dos fatores psicossociais que lhe associam prestígio ou sonho, e integrá-lo ao significado que possa ter para a vida humana coletiva de modo geral, e não apenas em uma cultura fechada, a fim de que se possa, culturalmente, pensar a tecnicidade como “redes técnicas vinculadas com o mundo”:
Cuando el automóvil deja de ser un objeto hecho para ser visto frente a una casa, comienza a convertirse en aquello que adapta el hombre al mundo bajo la forma de una red de caminos, bajo la forma de un espacio que tiene una configuración definida a través de la cual la acción se traza caminos modificando este mundo. A cada tipo de vehículo corresponde una reticulación determinada de un universo colectivo. La tecnicidad del automóvil no reside por completo en el objeto automóvil; consiste en la correspondencia adaptativa del automóvil con el medio recorrido a través de ese intermediario que es una red de caminhos [...]. (SIMONDON, 2014, p. 30)
Significa pensar uma maior integração entre o humano e a tecnologia, no sentido de que o primeiro se aproprie da segunda para além de sua utilidade prática e a entenda como um modo de autoconhecimento, reconhecendo o que os produtos da tecnologia imprimem em si a respeito do humano, ou seja, pensar a tecnologia e seus produtos como um dado antropológico, acrescentando ao dado da capacidade técnica o da capacidade de reflexão: refletir sobre os feitos realizados, seus meios de produção, seu impacto ambiental e seu potencial de transformação – do mundo, pelas mãos do humano, e do humano com as transformações do mundo.
Este pode ser um caminho para que o ser humano assuma o governo da tecnologia, em vez de uma posição de alienação em relação a ela. Compreendendo, com Simondon, que “o gesto técnico maior é um ato de cultura no verdadeiro sentido do termo” (p. 25), uma forma de expressão da vida e do potencial de evolução da espécie humana; a necessidade de conhecimento e reflexão sobre o que se entende por tecnologia, hoje, se mostra tão importante quanto a necessidade de conhecimento do cosmos, do humano e da natureza tem sido, desde antes da Antiguidade.
Referências
SIMONDON, Gilbert. Cultura y técnica. Tradução de Margarita Martínez. In: SIMONDON, Gilbert. Sur la technique (1953-1983). Paris: Presses Universitaires de France, 2014, p. 19–33.
JONAS, Hans. Matéria, espírito e criação: dados cosmológicos e conjecturas cosmogônicas. Petrópolis: Vozes, 2010.
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