Amor de 'mulher-homem': a malandra Diadorim e a poesia do afeto

Sophia Senra

Doutoranda em Filosofia na UERJ

08/09/2026 • Coluna ANPOF

Este ensaio propõe uma leitura singular de Grande sertão: veredas, deslocando o foco da narrativa épica dos jagunços para a dimensão afetiva que atravessa toda a trajetória de Riobaldo e Diadorim. Mais do que examinar um romance sobre o sertão brasileiro, busco compreender como Guimarães Rosa transforma a experiência amorosa em uma reflexão sobre identidade, liberdade e resistência. Nesse percurso, a linguagem poética da obra não funciona apenas como recurso estético, mas como instrumento capaz de revelar zonas profundas da subjetividade humana. A narrativa de Riobaldo conduz o leitor para um universo em que as emoções se impõem às classificações rígidas da razão. Seu discurso, marcado pela oralidade e pela constante reflexão sobre a própria experiência, faz do amor por Diadorim um sentimento simultaneamente vivido e investigado. Desde o primeiro encontro entre os dois, ainda na infância, estabelece-se uma ligação que ultrapassa a amizade comum. Riobaldo percebe no companheiro uma presença capaz de despertar fascínio, admiração e desejo de proximidade, sentimentos que se fortalecem ao longo da narrativa e passam a desafiar as normas sociais que organizam sua compreensão do mundo.

É justamente nessa tensão entre afeto e convenção que encontro um dos principais eixos interpretativos para este ensaio. Riobaldo ama Diadorim, mas não dispõe das ferramentas simbólicas necessárias para compreender plenamente esse amor. A impossibilidade de conciliar desejo e norma produz um conflito que acompanha toda a narrativa e que permanece atual em uma sociedade ainda marcada por expectativas rígidas sobre gênero e sexualidade. A experiência dos personagens sugere que os afetos raramente obedecem às fronteiras estabelecidas pela cultura, revelando a insuficiência de categorias fixas para abarcar a complexidade das relações humanas. A figura de Diadorim amplia ainda mais essa reflexão. Ao assumir uma identidade masculina em um universo dominado por homens, a personagem rompe expectativas sociais e transforma sua própria existência em um exercício permanente de resistência. Sua trajetória evidencia que a identidade não é um dado imutável, mas uma construção atravessada pelas circunstâncias históricas, pelos desejos e pelas estratégias de sobrevivência. Diadorim reúne delicadeza e força, sensibilidade e combatividade, recusando-se a caber em modelos pré-estabelecidos. Dessa forma, sua presença na obra convida o leitor contemporâneo a reconsiderar visões simplificadoras sobre o feminino, o masculino e as múltiplas possibilidades de expressão do sujeito.

A partir desse prisma, desenvolvi uma interpretação original – e talvez ousada – ao aproximar Diadorim da figura de Maria Navalha, entidade associada à malandragem na Umbanda. A “correlação” não pretende igualar personagens de naturezas distintas, mas evidenciar um princípio comum: a capacidade de transformar vulnerabilidade em potência. Tanto Diadorim quanto Maria Navalha representam formas de existência construídas em contextos de marginalização e enfrentamento, nos quais a sobrevivência exige criatividade, inteligência e reinvenção constante. A aproximação entre literatura e religiosidade popular permite compreender a resistência não apenas como enfrentamento da violência, mas também como elaboração simbólica da dor e produção de novos modos de viver. Essa leitura conduz à noção de “sabedoria afetiva”, conceito central mobilizado por este ensaio, mas inspirado pela experiência filosófica da vida em comunidade, da vida em constante aprendizado. O amor deixa de ser entendido como posse, dependência ou realização idealizada para assumir um caráter transformador. Alexandre Marques Cabral – filósofo idealizador desta noção – nos ensina que amar passa a significar reconhecer limites, elaborar sofrimentos e criar possibilidades de liberdade mesmo em contextos adversos. Nesse sentido, Diadorim encarna uma forma de afeto que não se reduz ao desejo de ser correspondido, mas que se manifesta também na coragem de preservar a existência do outro. A experiência amorosa converte-se, assim, em aprendizado ético e existencial, capaz de produzir autoconhecimento e ampliar a compreensão da condição humana. A simbologia da navalha reforça essa perspectiva. Longe de representar apenas agressividade, ela aparece como metáfora de proteção, discernimento e capacidade de romper com estruturas opressivas. Seu significado está associado à necessidade de estabelecer limites, cortar vínculos destrutivos e afirmar a própria dignidade diante das adversidades, como explica Zeca Ligiéro, professor e pesquisador. A navalha torna-se, portanto, imagem de uma resistência que não se fundamenta na dominação, mas na preservação da autonomia e do amor-próprio.

O desfecho da narrativa concentra toda a força emocional dessas reflexões. Apenas diante da morte de Diadorim é que Riobaldo consegue reconhecer abertamente a dimensão de seu amor. A revelação final expõe o caráter profundamente trágico de uma existência marcada por impedimentos sociais e silêncios afetivos, mas também sugere uma forma de libertação. O sentimento que durante toda a vida permaneceu reprimido encontra, enfim, possibilidade de expressão. Nesse momento, o romance evidencia o custo humano das normas que restringem a experiência amorosa e reafirma a potência dos afetos como elemento que resiste ao tempo, ao medo e à própria morte. Ao reler Diadorim à luz da resistência feminina, da malandragem simbólica e da sabedoria afetiva, busco oferecer uma contribuição relevante para os debates contemporâneos sobre identidade, diversidade e liberdade. Sua principal força está em demonstrar que o amor não constitui apenas um tema literário, mas uma experiência capaz de desafiar hierarquias, transformar subjetividades e abrir novos horizontes de compreensão sobre o outro. Nesse sentido, a trajetória de Riobaldo e Diadorim permanece atual porque nos convida a reconhecer a pluralidade das formas de existir e a construir relações menos orientadas pelo controle e mais guiadas pelo acolhimento, pela escuta e pela liberdade.


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