As vozes de um novo mundo: o imperativo ético do bem viver e a necessária conversão ecológica
Renato Almeida de Oliveira
Professor de Filosofia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)
15/10/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Ética e Cidadania da Anpof
O presente texto busca levantar reflexões mais do que apresentar respostas, instigando-nos a pensar alternativas ao paradigma da racionalidade técnico-científica e da lógica capitalista neoliberal. A crise climática e humanitária que atravessamos não pode ser compreendida sem analisar os elementos estruturais da ordem social vigente. A vida humana, individual e coletiva, está submetida ao modo de organização do Capital, que molda relações sociais, econômicas e políticas, produzindo condições que ameaçam a vida como um todo.
Entre as condições fundamentais do capitalismo, o conceito de estranhamento ocupa lugar central. Conforme Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), o trabalho humano, submetido à lógica do capital, torna-se estranhado: o produto se separa do trabalhador, a atividade se converte em sacrifício e o próprio ato produtivo gera desumanização. Astrada (1968) descreve esse processo como uma categoria histórica, em que forças sociais passam a dominar o homem, sufocando sua humanidade essencial. Diante disso, surge a questão: como um ser humano estranhado pode assumir um imperativo ético de cuidado com um mundo que lhe é hostil? A luta contra a crise climática exige, portanto, um debate antropológico sobre a condição contemporânea da existência humana, seu modo de vida e a forma sistêmica de organização da existência.
Além disso é necessário problematizarmos nossa forma de racionalidade. O homem moderno tornou-se inseparável dos avanços da ciência e da técnica, que desde a modernidade se apresentam como fontes de sentido e de domínio sobre a natureza. Ciência e tecnologia são, em princípio, expressões da liberdade humana. Contudo, instrumentalizadas pelo mercado, converteram-se em forças de exploração e destruição. Marcuse (1973) apontou esse paradoxo ao chamar nossa sociedade de “irracional”, embora fundada no racionalismo. A produtividade atual gera manipulação das necessidades humanas, paz sustentada pela ameaça constante de guerra e crescimento baseado na acumulação.
A racionalidade técnico-científica favoreceu a acumulação do capital, desregulando mercados, ampliando desigualdades e tornando precárias as condições de trabalho. Hoje, em vez de libertar, muitas vezes aprisiona o ser humano. A nossa forma de racionalidade vive, assim, uma crise profunda: temos tecnologias impressionantes, mas vinculadas a uma forma de vida capitalista que multiplica a pobreza, os refugiados e os desastres ambientais. A ciência, por sua vez, ampliou o poder de manipular processos naturais, mas os critérios éticos não acompanharam esse avanço. O resultado é uma crise civilizatória, ética e humanitária, que exige repensar nosso modo de vida, consumo e relação com o planeta.
As vozes de uma nova civilização
Não existe uma fórmula pronta para solucionar o caos contemporâneo. É preciso pensar em diversas alternativas à crise. No entanto, é preciso saber de onde partir. Como superar o estranhamento humano? A resposta é: superando o sistema que produz esse estranhamento, ou seja, superando a lógica do Capital. Tarefa gigantesca, que, ao longo da história, foram dadas diversas propostas para tal superação: revolução proletária, reformas sistemáticas, economias híbridas, capitalismo verde, capitalismo humanista etc. Mas nenhuma delas foi efetiva. Por isso nos perguntamos: é possível superar a lógica do Capital e suas determinações na vida humana? Não tenho resposta para isso. Todavia, não podemos ficar de braços cruzados esperando que o capitalismo se autodestrua e destrua toda forma de vida. Por isso precisamos dar voz àqueles que buscam, mesmo que em pequenas doses, salvar a vida no planeta e construir espaços, mesmos que pequenos, de solidariedade, de harmonia, de paz e de segurança.
Os eventos climáticos extremos — enchentes, secas, epidemias — mostram que a Terra reage. Por isso, soluções não podem se restringir a novas tecnologias, mas devem questionar a lógica de lucro, consumo e acumulação. O imperativo ético formulado por Hans Jonas resume o desafio: “Age de tal forma que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica sobre a terra” (Jonas, 2006, p. 40).
Uma nova postura filosófica precisa partir do reconhecimento de que cada ser possui uma constituição própria, e que o pensamento deve respeitar e considerar essa singularidade. Isso implica adotar uma visão segundo a qual toda realidade compartilha uma estrutura fundamental, tornando possível superar a dicotomia rígida entre ser humano e natureza. Em vez de compreendermos a natureza como algo separado ou subordinado ao homem, devemos reconhecer uma afinidade estrutural que nos coloca em unidade com ela. A partir desse reconhecimento, torna-se viável fundamentar uma nova ética, capaz de orientar a construção de um horizonte normativo para enfrentar o grande desafio do nosso tempo: criar um mundo onde a convivência pacífica entre todos os seres seja possível. Assim, a tarefa fundamental de nossa época consiste em restabelecer os vínculos rompidos pela lógica técnico-científica moderna, que reduziu a natureza a mero objeto de exploração e manipulação. Contudo, a natureza não é simples matéria disponível à intervenção humana; ela possui uma densidade ontológica que exige respeito. Reconhecer essa especificidade implica lutar por relações simétricas entre todos os seres, baseadas não na dominação, mas na reciprocidade e no cuidado.
O problema ético central, nesse sentido, é o problema da nossa responsabilidade coletiva diante dos desafios de uma civilização que está destruindo tudo, violentando tanto a natureza quanto os seres humanos, uma violência natural e social. Quais são os critérios a partir de onde nós podemos construir um novo mundo? Para responder tal questão é preciso, em primeiro lugar, resgatar formas de racionalidades menosprezadas e, em segundo lugar, a constituição de uma ética profundamente diferente das éticas tradicionais. Princípios éticos que devem reger a constituição da vida humana, de modo a permitir a sobrevivência da raça humana e de toda a vida num planeta habitável, no contexto de uma sociedade mundial onde os seres humanos possam ser reconhecidos em sua dignidade fundamental, e não vistos apenas como consumidores ou objetos consumíveis. Portanto, trata-se de legitimar os fundamentos normativos básicos para as estruturas necessárias de uma civilização nova. É nesse contexto que emerge a proposta do Bem Viver e da conversão ecológica.
O Bem Viver é inspirado na cosmologia ameríndia, especialmente no conceito kichwa de Sumak Kawsay (“vida plena e bela”). Diferente da “boa vida” burguesa, baseada em posse e consumo, o Bem Viver promove reciprocidade, amizade fraterna, respeito à Terra e harmonia com todos os seres. Os povos indígenas nos ensinam que a Terra é mãe e sagrada, devendo ser respeitada em sua dignidade própria. O cultivo orgânico, em equilíbrio com os ciclos naturais, exemplifica esse modo de vida que rejeita o produtivismo capitalista e valoriza a totalidade interconectada da existência.
O Bem Viver, por conseguinte, não é mero resgate romântico da tradição, mas um projeto universal que combate desigualdades e defende a justiça socioambiental. Ele nos convida a superar a lógica de acumulação que transforma tudo em mercadoria e a reconstruir a vida a partir da convivência harmônica.
Por fim, tem nos chamado a atenção como setores do cristianismo têm se posicionado com relação à emergência climática e humanitária global e consideramos que é uma voz que merece ser destacada. A questão que nos põe, por exemplo, as Encíclicas sociais do Papa Francisco nos fazem pensar: sobre que alicerces estamos construindo nossa casa comum? Sobre a rocha ou sobre a areia? Parece ser uma casa construída sobre a areia, porque colocou o mercado acima de tudo, onde o dinheiro tem prioridade com relação às pessoas. A partir dessa reflexão, Francisco denuncia a “cultura do descarte”, que gera poluição, mudanças climáticas e destruição ambiental. Para ele, não basta conservar espécies por utilidade, mas por sua dignidade e beleza próprias. Além disso, ele alerta que os pobres e vulneráveis são os que mais sofrem com a degradação ambiental, mostrando que a crise ecológica é também social. Daí a necessidade de uma conversão ecológica, que una cuidado com o planeta e justiça social. Trata-se de um novo estilo de vida simples e responsável, acompanhado por uma educação integral nas famílias, escolas, igrejas e sociedade. Essa conversão exige não apenas mudar a mentalidade, mas sobretudo as atitudes cotidianas, consumir menos, preservar recursos, respeitar os limites do planeta.
Portanto, ante a crise que o mundo contemporâneo atravessa, uma crise civilizatória sem precedentes, marcada pelo estranhamento humano, pela irracionalidade capitalista e pela degradação ambiental, surgem vozes que apontam para uma nova civilização: o imperativo ético do cuidado com a vida, a proposta do Bem Viver, a sabedoria ancestral indígena e o chamado a uma conversão ecológica. Essas vozes não oferecem soluções prontas, mas orientam a reconstrução de vínculos com a natureza, a solidariedade entre os povos e o reconhecimento da dignidade de todos os seres. A tarefa que nos cabe é restabelecer a centralidade da vida em nossa organização social. O desafio é enorme, mas necessário, se quisermos garantir um futuro habitável para as próximas gerações.
Referências
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, Elefante, 2016.
ASTRADA, Carlos. Trabalho e alienação na “Fenomenologia” e nos “Manuscritos”. Tradução de Cid Silvera. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1968.
FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si. São Paulo: Paulinas, 2015.
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para uma civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006.
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Tradução de Giasone Rebuá. 4 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.
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