Cohabitar a terra: método de fabulação especulativa (SF) de Donna Haraway e os parentescos estranhos multiespécies
Susana de Castro
Professora do Departamento de Filosofia e do Programa em Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ; Integrante do GT Filosofia e Gênero da Anpof.
Ana Paula Lourenço da Silva
Doutoranda em Filosofia (PPGF-UFRJ)
15/09/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos
Cohabitar a terra: método de fabulação especulativa (SF) de Donna Haraway e os parentescos estranhos multiespécies
A partir de todo seu arcabouço na área da biologia, da filosofia, da teoria literária e dos estudos de ciência e tecnologia, Donna Haraway evidencia que o único modo de pensar a sobrevivência em face a catástrofe climática que já estamos adentrando é se envolvendo em projetos situados de regeneração para a sobrevivência mútua. Haraway posiciona sua teoria como uma ferramenta, um aparato de visualização, um dispositivo capacitador para orientar o percurso, oferecendo um “esboço rudimentar”, para a construção de uma política regenerativa. As práticas SF são precisamente as ferramentas extremamente poderosas e potentes na tarefa de experimentar as possibilidades de invenção de mundos, a quem eles servem e como podem ser reconfigurados. É preciso destacar que essas ferramentas operam como um “modo de atenção, uma teoria da história e uma prática de mundificação [worlding]” (HARAWAY, 2023a, p. 217).
A filósofa da ciência e ativista feminista explica que na sua história com o termo FC, as ciborgues foram sua primeira intervenção no quadro de visualização, levando em consideração questões sérias como a divisão internacional do trabalho e as produções transnacionais de culturas baseadas em ciência. A ciborgue harawayana foi escrita a partir da ficção científica feminista em um argumento contra os discursos totalizantes da teoria crítica progressista, ela é criada para minar as teorias da essência natural e as epistemologias absolutistas. Sua imagem era a construção de uma utopia de emancipação através de um engajamento responsável e qualificado com a ciência e a tecnologia. A ciborgue harawayana emerge como uma possibilidade de reconfigurar os aparatos da tecnociência. Seu uso, aplicação, e projetos, pelo e para os quais as tecnologias e pesquisas são desenvolvidas, envolvem agentes implicados no desenvolvimento, produção e difusão de cada uma delas. Ciborgues não são simplesmente seres humanos aprimorados pela técnica no sentido pós-humanista; elas desafiam as fronteiras que compõem discursos binários e as noções de origem e destino de todos os tipos.
É para nos fazer pensar e agir de modo a regenerar a vida na Terra que Haraway conta suas histórias através de personagens (figuras) tão controversas e infames como as ciborgues – “estas zonas fronteiriças sugerem uma topografia rica de possibilidades combinatórias. Essa possibilidade chama-se Terra, aqui, agora, neste outro lugar, onde o espaço real, exterior, interior e virtual implodem” (2004, p.110, tradução nossa).
Em 1985, quando publicou o seu aclamado “Manifesto para Ciborgues”, Haraway se direciona à complexidade híbrida, engendrada, perigosa e potente dos mundos ciborgues. No entanto, já em “De ciborgues a simbiontes” (2021a), de 1991, Haraway indica seu redirecionamento do “ponto de vista ciborgue”, para o “ponto de vista simbiogenético”, que passa pela noção das espécies companheiras e, mais recentemente, figura como método da simpoiese. Quando, 10 anos depois, na introdução do Manual para Ciborgues, esmiúça melhor seus problemas, já começa a indicar uma alteração na sua escolha das figuras de sua história da ciência e da consciência. A mudança está explicita no próprio título. Argumenta que a figura da ciborgue já não é mais potente para realizar o trabalho necessário, pois foi cooptada pelo discurso da exploração: “resumindo grosseiramente, todos objetos de conhecimento possíveis se tornam objetos do conhecimento da Guerra Fria em um sentido profundo” (1994, p.243, tradução nossa).
Ao longo das últimas cinco décadas, Haraway não apenas denunciou o construcionismo por trás dos conceitos binários que fundamentam a tecnociência ocidental, mas também se empenhou em construir um lugar outro [elsewhere] que, hoje, chama de Chthuluceno.
A filósofa faz questão de frisar que o signo espécies companheiras [companion species] oferece uma abordagem específica para explorar alternativas ao pós-humanismo. Haraway deixa explicito que está propondo uma teoria e um método, uma vez que quer “aprender como narrar essa co-história e como herdar as consequências da coevolução na natureza-cultura” (2021b, p.20). Naquele momento, no início da década de 2000, reformula a descrição de teoria dos “conhecimentos situados” de 1988, convocando agora os cachorros para ocupar o papel anteriormente desempenhado pelos ciborgues na narrativa da promoção das condições de habitabilidade da Terra. Esse paradigma reconhece as intricadas interdependências entre humanos, animais, máquinas e o meio ambiente, transcendendo as hierarquias tradicionais e abraçando uma ética de conversa, responsabilidade e florescimento mútuo.
Se em 1985 ela defendia “Ciborgues para a sobrevivência terrestre!”, neste momento pós-virada do milênio, ela está enfática em seu interesse pela eficácia do “Cale a boca e treine!”, e “espécies companheiras do mundo, uni-vos!” – todos conhecimentos adquiridos no corpo a corpo factual do agility, uma técnica de jogo multiespécies. O que vemos neste momento é o exercício de redesenhar os contornos e redefinir as fronteiras das figuras que ela elenca nas estórias que conta, a fim de enfrentar a árdua tarefa de lidar com a destruição das condições de habitabilidade do planeta, de modo que a maior quantidade possível de espécies consiga realizar seus próprios trabalhos de regeneração e seguir evoluindo em relação ao ambiente.
Já em “Ficar com o Problema: fazer parentescos estranhos no Chthuluceno” (2023a), publicado em 2016, Haraway entrelaça essas dimensões em seu método FC, argumentando que estas práticas são a única forma de viver e morrer bem, e não apenas sobreviver, em nosso planeta degradado. Isso é especialmente relevante diante da transição para uma nova era geológica, com o término do Holoceno e o início da sexta extinção em massa na história do planeta Terra. Diante da complexidade da vida, Haraway é sempre propositiva e instiga: “A missão é formar parentescos em linhas de conexão inventivas como uma prática para aprender a viver e morrer bem uns com os outros em um presente espesso. Nossa tarefa é criar problema, suscitar respostas potentes a eventos devastadores, e também acalmar águas turbulentas e reconstruir lugares tranquilos” (2023a, p.13)
É para realizar essa tarefa que propõe o modelo da simpoiese atravessado pela ideia de simbiogênese, em direção à poíesis como técnica-brincadeira de gerar o novo. A simpoiese, realizada através de práticas SF nos permite escapar do fechamento individualizante como premissa ontológica e nos ajuda a propor outros vínculos teóricos e afetivos para reformularmos a diversidade biológica-cultural-política-tecnológica. Apenas a partir desta reformulação da agência humana, seremos capazes de pensar, desenvolver e performar as ações antrópicas que promovem a regeneração das condições para a abundância da variedade da vida em face aos desastres ambientais e sociais que se anunciam no horizonte próximo sob o termo Antropoceno.
A transição necessária para enfrentar as crises contemporâneas exige um deslocamento fundamental da nossa subjetividade humana: a retirada do entendimento de nós mesmos a partir do “ego” excepcionalista para a recolocação da humanidade em suas muitas formas de viver no “eco”. A simpoiese de Haraway nos convida a aceitar que somos húmus, composto, e que nossa tarefa não é dominar a natureza com tecnologias de isolamento, mas construir novas parcerias, protocolos de conversas e transações que garantam a sociobiodiversidade.
Haraway leva a sério que nada se faz sozinho no mundo biológico, o que há é uma “indução recíproca” dentro das “criaturas sempre-em-processo” recebendo e entregando padrões, como as nossas heranças coletivas e individuais, nosso passado, as distintas e variadas tradições, as diversas culturas e os infinitos comuns. A simpoiese coloca a questão de delimitar quais serão as figuras e as histórias que são ferramentas para tornar uns aos outros capazes daquilo que nós éramos antes do encontro, de forma que todos cheguemos até o fim do dia e nos juntemos à mesa para comer juntos. A alimentação, ou o “processo de captura dos fluxos de energia”, atravessa e determina as vidas de maneira desigual em lugares, momentos e posições que precisam ser historicizados e situados.
O anúncio do fim do Holoceno traz para discussão urgente o maior problema a ser enfrentado agora: a velocidade com que as mudanças estão se desenvolvendo, o tempo. Tudo muda no planeta, nada é eterno, mas o tempo da mudança das condições do ambiente tem acontecido em um ritmo que é muito mais acelerado do que o tempo da mudança das simbioses que mantém nossa vida, nossa evolução enquanto espécie das outras espécies. Assumir um posicionamento contra as mudanças parece uma atitude infantil e improdutiva. O desafio da nossa década envolve encontrar, desenvolver, criar maneiras de ressincronizar o tempo das mudanças.
O mais importante a notar é que o Chthuluceno é um horizonte a ser construído como uma saída boa o suficiente para chegarmos ao fim do dia, uma resposta aos efeitos devastadores das mudanças climáticas que adentramos com o fim do Holoceno. A possibilidade do horizonte do Chthuluceno depende do trabalho e da brincadeira da simpoiese: a renovação das potências biodiversas da Terra, a começar pela capacidade de imaginar juntos a mundificação.
Referências:
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