Como se comportar em um mundo em guerra? Ou, O filósofo como artista marcial
Felipe Araujo Fernandes
Doutor em Filosofia pela UFRJ; professor de Filosofia da Rede Estadual do Rio de Janeiro
11/11/2025 • Coluna ANPOF
Vivemos a maior quantidade de guerras e conflitos armados do mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Esses dados, de 2024, apontam que houve 61 conflitos, envolvendo 35 países. E, ao que tudo indica, os números não vão diminuir.
Em que esses dados dizem respeito a nós, filósofos e filósofas?
Este ensaio parte de alguns pressupostos. O primeiro é o de que as guerras são um elemento inegável da humanidade nos últimos milênios e o qual moldou a nossa estrutura social, e até corporal e mental. O segundo é o de que a “Guerra é a política por outros meios”, como afirma o general prussiano Clausewitz, ou seja, sempre que há um conflito de interesses (em grande escala) e ele não pode ser resolvido de forma diplomática, então, um desdobramento possível é o derramamento de sangue.
O terceiro pressuposto é o de que nossa forma de ver a política é totalmente assentada nessa gramática da guerra; tanto nos debates quanto nos métodos e ações. Não é à toa que, para discutirmos política, usamos expressões como: “ganhar/perder direitos”, “os negros precisam lutar”, “as mulheres precisam resistir”, “o congresso atacou/defendeu tal pauta”, “o partido fez uma manobra”, “essa tática da direita”, “essa estratégia da esquerda”, “o conservadorismo se fortaleceu/enfraqueceu”, “a militância foi às ruas”, “eles deram um golpe”, etc.
Apesar disso, para muitos filósofos modernos e, principalmente, contemporâneos, a guerra é vista apenas como uma metáfora. Muitos se dedicam a pensar as “lutas” sociais, antirracistas, das mulheres, etc., mas, quase sempre, como uma mera alegoria.
Esse ensaio apresenta a hipótese de que, mais do que apenas ver a guerra como uma metáfora, deveríamos pensar a guerra como um advento real, concreto, e mais próximo de nós do que pensamos. De modo que Engels e Marx afirmam que a história da sociedade de classes é a história da guerra entre essas classes.
Existem, neste momento, inúmeras guerras reais e conflitos armados ocorrendo: Ucrânia/Rússia, Israel, Etiópia, Iêmen, Mianmar, Síria, Sudão, Sudão do Sul, Afeganistão, Burkina Faso, Somália, República Democrática do Congo, Haiti e em tantas outras partes. E aqui não estou incluindo o Brasil, que, em 2023, teve 45.747 homicídios, sendo 32.749 por arma de fogo, superando o número de mortos da Rússia em 2024. Adivinhe a cor da pele da maioria desses mortos? Mas, a isso não chamamos de guerra...
A guerra não é um comportamento do passado longínquo, do qual se valiam os “selvagens” sem o dom da retórica e da erística. A guerra é um fenômeno atual, usado pelas nações mais “civilizadas”, “desenvolvidas” e “instruídas”, sempre que elas desejam. Em verdade, como explicam Lênin[1] e Rosa Luxemburgo[2], a fase atual do capitalismo, o Imperialismo, se funda na guerra e no militarismo, e na disputa por acumulação de capital; as elites se expandem no mundo todo para pilhar, explorar e oprimir. Essa é a história da colonização capitalista, seja na África, seja nas Américas. E sempre que há crises, há guerras e revoluções. E o caso das lutas contra a colonização (ou, anti-imperialistas) são ótimos exemplos de como nós, oprimidos, não devemos ver as guerras apenas como coisas distantes. Gostemos ou não, desse fato.
Para ficar em poucos exemplos, podemos citar a luta de independência da Argélia, da qual participou ativamente Fanon, ou a Revolução Russa, da qual participou Trotsky, ou ainda as organizações que denunciam o capitalismo e o racismo, como o Partido Pantera Negra em Autodefesa, nos EUA. Em todos esses casos, o arcabouço filosófico sobre como devemos nos comportar diante das guerras estava presente. Havendo inúmeras respostas e táticas, desde as mais pacifistas até as mais “radicais”, por assim dizer. Mas, em todos esses casos, o debate sobre a guerra estava colocado, inclusive sobre como se defender e como atacar. E aqui, novamente, não estou falando metaforicamente.
Mas, nosso passado de ditadura militar e constantes opressões faz com que, ao falarmos abertamente sobre guerra, sejamos enquadrados em estereótipos problemáticos: do “machão” ou de alguém alinhado à direita. Este enquadramento é mais do que uma mera simplificação; é um problema estratégico. Ele engessa a discussão e entrega, de bandeja, todo o léxico da estratégia, da tática e da autodefesa justamente àqueles que historicamente o utilizaram para oprimir. A proposta aqui é o exato oposto: resgatar o pensamento sobre a guerra e a luta a partir da perspectiva dos oprimidos, não para glorificar a violência, mas para compreendê-la e forjar ferramentas para a nossa própria defesa e libertação.
Não faço aqui uma apologia à guerra. Muito pelo contrário. A minha posição é justamente a de que essas guerras atuais são todas fundadas em interesses capitalistas, mas quem serve de “bucha de canhão” somos nós, os oprimidos, os explorados.
Estamos lutando guerras que não são nossas, enquanto quem mais está morrendo nelas é “dos nossos”, logo, devemos saber como nos colocar diante desse cenário. Não estamos fadados a viver em guerra para sempre, como se fosse algo essencial à humanidade, mas é algo com que lidamos há muitas gerações e devemos eleger conscientemente como enfrentá-la. Como diria o filósofo: “Nem rir, nem chorar, nem odiar, mas compreender”.
O primeiro passo é não ignorar a guerra como um fenômeno concreto e reduzi-las a metáforas. Nem cair em dualismos esquemáticos, seja defendendo uma posição guerrilheira inconsequente e muito menos uma posição pacifista, como na linha de Kant e sua ilusão da “Paz Perpétua”, ou na visão fatalista como presente no famoso diálogo entre Freud e Einstein[3].
Se para alguns de nós é importante lutar contra as injustiças, opressões e violências do mundo imperialista, por que não devemos abraçar de fato essa concepção de luta e aprender a lutar? E não só no campo do discurso. Ou seja, a tarefa é menos a de meramente interpretar o mundo e mais de intervir nele. E intervir num mundo que está em clima de guerra exige que aprendamos a nos comportar nesse cenário, nesse teatro de operações.
Assim, devemos recorrer aos filósofos que trataram desse tema antes de nós; e eles são muitos. Contudo, mais do que apenas teorias sobre a guerra, é preciso que aprendamos a lutar, ou seja, precisamos desenvolver nossa marcialidade, nossa capacidade de filósofo-guerreiro[4]. Nesse sentido, precisamos mergulhar nos conhecimentos que foram construídos pelos sábios dessa área do conhecimento: estrategistas, generais, artistas marciais, mestres. E eles estão no mundo inteiro e nas mais diversas épocas. Inclusive no Brasil.
Temos aqui um tesouro conceitual, que é a Capoeira. Ela é um sofisticado Sistema Artístico-Marcial, uma tecnologia de guerra que foi forjada em séculos de luta contra a colonização, o racismo e a escravização. De modo que, se quisermos entender como lutar contra as opressões que sentimos na pele hoje, precisamos escutar os mestres e mestras dessa arte e aprender com eles como nos defender. Está mais que provado que eles souberam fazer isso muito bem, foram forjados no calor do fogo, não é à toa que até hoje estamos aqui, vivos, apesar de todas as investidas contra nós. Se quisermos entender a luta contra o racismo no Brasil, precisamos mergulhar profundamente no estudo da capoeira e seus conceitos. Estudar, no caso, quer dizer praticar com a mente e com o corpo.
Essa tecnologia ancestral, com sua pedagogia, ensinou seus praticantes a protegerem seus corpos dos ataques do colonizador e, assim, conseguiram proteger suas memórias e saberes. E, ao protegerem esses saberes de luta, se tornavam mais aptos a protegerem o corpo dos seus praticantes. Arte e artista se misturam, corpo e mente, teoria e prática, um zelando pelo outro e transmitindo às gerações futuras.
Com malícia, malandragem, mandinga, esquiva, rabo de arraia, volta ao mundo, chamadas, negaças e tantos outros conceitos e ferramentas de combate, ela foi se construindo como a arte da guerra que é. Sendo, ao mesmo tempo, luta, arte, jogo, ritual.
A ginga é uma afronta à lógica dogmática que quer controlar e enrijecer nosso corpo. A vadiação é um enfrentamento ao tempo do relógio capitalista, da exploração do nosso trabalho. A capoeira é movimento perpétuo que recusa ao oponente ser um alvo estático, preferindo drible, floreio, flexibilidade, jogo de cintura, molejo. É a recusa em ser capturado, definido e imobilizado pelo sistema do capital.
A Capoeira não é a única arte da guerra e nem a melhor do mundo. Mas, é uma que é “nossa” e que está à nossa disposição. Assim como os homens de negócios tomam como best-seller A Arte da Guerra do chinês Sun Tzu, poderíamos aprender muito com os mestres e mestras da capoeira.
Minha provocação é a de pensar os filósofos não como homens que vivem no mundo da lua, prestes a cair em buracos. Mas como aqueles que estão enraizados na terra, que a tocam com os pés descalços, com as mãos calejadas, com a cabeça no chão. A provocação é pensar o filósofo como um artista marcial[5], nessa dupla natureza: criar conceitos, tomá-los como armas e, com eles, travar nossas lutas. Não apenas como metáfora, mas, como guerra real, afinal, “Toda revolução parece impossível até que se torne inevitável”.
Notas
[1] Indico a obra Imperialismo, fase superior do capitalismo.
[2] Indico a obra A acumulação do Capital: Estudo sobre a interpretação econômica do imperialismo. Principalmente o capítulo O militarismo como campo de acumulação do capital.
[3] Conferir as cartas que Freud e Einstein trocaram sobre o tema da Paz, no âmbito do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, em 1932. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/05620.pdf.
[4] Cf. artigo de minha autoria: https://faje.edu.br/periodicos/index.php/annales/article/download/6144/5471/19860.
[5] Cf. em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Itaca/article/view/28182/18355
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.