COP30: o paradoxo ambiental do des-envolvimento frente ao mito da sustentabilidade econômica

Eduardo Borile Júnior

Doutorando em Filosofia na UCS

19/11/2025 • Coluna ANPOF

Imagine um homem, em um barco, furando o próprio convés para alimentar uma fogueira que aquece seu chá. Ele sabe que a água está entrando, mas o seu chá está tão gostoso e a fogueira tão convidativa. Então pensa: “se eu furar mais devagar, ou se eu encontrar um pedaço de madeira um pouco mais resistente, tudo vai ficar bem”. Esta alegoria, um tanto infantil e absurda, é uma imagem fiel que temos do chamado “des-envolvimento” contemporâneo frente à crise ambiental do século XXI.

O termo “des-envolvimento” não é um erro de grafia. É uma provocação filosófica. O que aprendemos a chamar de “desenvolvimento” é, na verdade, um processo de “des-envolver” a natureza, de desembrulhar recursos até a exaustão, deixando para trás um rastro de destruição. Nosso progresso foi construído sobre uma lógica equivocada de extração infinita. E é aqui que entra o paradoxo ambiental: para “sustentar” nosso padrão de vida, precisamos “des-envolver” ainda mais os ecossistemas. Para produzir carros elétricos, devastamos terras raras. Para cultivar biocombustíveis, destruímos biomas. É como tentar curar febre com um cobertor cada vez mais curto e pesado, ignorando a infecção que a causa.

A 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas (ONU) sobre Mudança do Clima, que ocorre até a próxima sexta-feira (21) em Belém do Pará, poderia representar uma oportunidade histórica para o Brasil reafirmar seu papel de liderança nas negociações sobre ambientalismo global, como já o fizera na ECO-92 e na Rio+20. Afinal, desde o último dia 10 recebemos chefes de Estado, ministros, diplomatas, cientistas, líderes empresariais, ONGs e ativistas de 194 países. Nas pautas, esteve o Acordo de Paris, adotado em dezembro de 2015 durante a COP21 que, entre os objetivos, definiu a manutenção do aumento da temperatura global abaixo de 2º C, com esforços para limitá-lo a 1,5º C. Isso nos leva ao mito da sustentabilidade econômica. Essa palavra-talismã tornou-se um feitiço que repetimos para exorcizar nossa culpa e nossa ignorância.

Quando, em março, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, declarou “COP não é Copa”[1] sua fala levou em conta o fato de que, para a maior parte do povo brasileiro, o assunto é desconhecido. É o que revelou a pesquisa “Protagonismo do Brasil na COP30”, realizada pelos Institutos IDEA e LACLIMA, lançada no Brazil Forum, no Reino Unido, em junho[2]. O estudo mostrou, em números, a assustadora desconexão entre a agenda climática internacional e o cotidiano da população nacional. De acordo com a pesquisa, 71% dos brasileiros não sabem o que é a COP30, o que denota a impopularidade do evento. O mesmo estudo, no entanto, traz dados otimistas: ?66% dos entrevistados veem o meio ambiente como prioridade para o futuro, ?68% querem mais investimento em energia limpa e? ?77% preferem comprar de marcas comprometidas com a sustentabilidade.

Sobretudo, os dados da pesquisa brasileira apresentados na Universidade de Oxford revelam contradições: 44% se sentem responsáveis pela proteção do meio ambiente, enquanto 60% creem que as mudanças climáticas são consequências da irresponsabilidade humana. Embora 48% não saibam o significado do termo “mudança climática”, 24% acreditam que o conceito está atrelado às alterações de temperatura e clima no planeta. Ainda conforme o estudo, 57% jamais ouviram falar da expressão “transição energética”, embora 41% acreditem que as energias limpas vão suprir a demanda por petróleo no Brasil. Dos entrevistados, 66% desconhecem a existência de alternativas viáveis ao uso de combustíveis fósseis e 47% jamais ouviram falar de veículos de baixa emissão movidos a hidrogênio. Segundo a pesquisa, apenas 6% admitiram que é motivado a votar em um candidato preocupado com as pautas ambientais, enquanto 67% defendem que países ricos e grandes empresas devam ser mais cobrados do que países pobres sobre os cuidados com o meio ambiente.

Mas afinal, o que a Filosofia tem a ver com isso?

Há séculos, seres humanos são ensinados a serem “possuidores da natureza”, internalizando a ideia de que estamos fora do meio ambiente, como espectadores privilegiados. É necessário, portanto, uma virada copernicana nesse pensamento: não estamos na natureza, nós somos natureza. Quando agredimos o solo, o ar e a água, não estamos danificando uma propriedade externa. Estamos nos automutilando.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou, com base em seis conjuntos de dados internacionais, que 2024 foi o ano mais quente já registrado na História[3]. A temperatura média global da superfície foi 1,55°C acima dos níveis pré-industriais. Isso significa que, no ano passado, vivenciamos o primeiro ano com uma temperatura média global superior ao limite de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris, relativo à média do período de 1850 a 1900. Considerando que os últimos dez anos estiveram, todos, entre os mais quentes da série extraordinária de temperaturas recordes, 2025 tende a se consolidar como o sucessor recordista da lista.

O pessimismo transforma-se em realismo, quando consideramos que, recentemente, a Empresa de Planejamento Energético (EPE) e a Petrobras estimaram que a extração na margem equatorial da Amazônia, com previsão para começar em 2030, atingirá o pico de 300 mil barris diários de petróleo 14 anos depois. Ou seja, próximo da década de 2050, na qual as emissões de carbono teriam de ser eliminadas por completo para atingir o objetivo de Paris, o Brasil vislumbra explorar recursos em prol da sustentabilidade financeira.

Qual é a chance de um país inebriado com a perspectiva de integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tomar a dianteira da transição energética global na COP30 de Belém, em um movimento que seria considerado revolucionário na economia mundial? Recordamos que, em outubro, a Opep manteve a estimativa para o crescimento da demanda global por petróleo em 1,3 milhão de barris por dia em 2025[4]. Para o ano que vem, a Organização estima o aumento do consumo para 1,4 milhão. Ou seja, segundo o cartel, a demanda nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) deve crescer em torno de 100 mil barris por dia entre 2025 e 2026.

O convite, portanto, é para uma nova ética planetária. Na alegoria inicial, é necessário apagar a fogueira no convés e encontrar outra forma de esquentar o chá. É entender que o “des-envolvimento” precisa dar lugar a um “re-envolvimento”, seja com os ciclos naturais, seja com a comunidade da vida, seja com a noção de que “prosperidade” não é sinônimo de acumulação, mas de plenitude dentro dos limites da preservação.

Em compasso com a urgente mudança paradigmática da relação humana com a natureza, recordamos a reflexão proposta pelo ativista indígena Ailton Krenak[5], que se insere como voz ativa no contexto da crise climática tão discutida na COP30. Lembremos que os conflitos em torno da demarcação territorial, tal como as políticas públicas de assimilação, como a recente discussão sobre o marco temporal das Terras Indígenas (TIs), miram o esvaziamento identitário dos povos ancestrais. Como consequência, a sociedade brasileira desvela as cicatrizes da discriminação e do preconceito entranhados no senso comum.

Entender que a natureza precisa ser respeitada e, acima de tudo, preservada, é admitir que não podemos mais seguir com o pensamento que vê o cosmos como um grande almoxarifado. Tal ancestralidade acompanha o raciocínio desenvolvido desde os primórdios da Filosofia na região da Antiga Jônia, no século VII a.C., inicialmente, por Tales. Assim como o pensador de Mileto, Krenak lembra que “sempre estivemos perto da água, mas parece que aprendemos muito pouco com a fala dos rios”. (KRENAK, 2022, p. 12).

Nesse contexto, olhar para a natureza e para os ensinamentos dos povos originários pode ajudar a ressignificar esse mundo que confunde sustentabilidade e inovação com responsabilidade e preservação. Ademais, é preciso repensar um sistema educacional que possa refletir sobre o meio ambiente sem formatar novos seres humanos apenas para seguirem fórmulas pré-fabricadas. Uma criança já surge como repetição e reprodução dos que aqui estão, limitando, de partida, a capacidade do novo.

As tragédias climáticas denunciam o entendimento limitado do nosso lugar no cosmos. Lugar esse tão cerceado quanto a famigerada busca de acumulação de dinheiro e lixo. Tudo em detrimento de uma vida desconectada do natural, onde a terra é vista como sinônimo de sujeira. “Temos que reflorestar o nosso imaginário e, assim, quem sabe, a gente consiga se reaproximar de uma poética de urbanidade que devolva a potência da vida, em vez de ficarmos repetindo os gregos e os romanos”. (KRENAK, 2022, p. 70-71).

Os primeiros passos na possibilidade de construir novos horizontes dependem deste entendimento acerca do des-envolvimento distópico instaurado no capitalismo do século XXI. Enquanto ainda há tempo, é preciso advertir que a COP30 não será lembrada se, ao final, apenas criar novos mercados de carbono ou reduzir metas de emissões que apenas adiam o colapso. A COP30 será lembrada se, pela primeira vez, colocar no centro do palco a pergunta que assombra a alegoria iniciada neste texto: o que vale mais, o chá quente de hoje, ou o barco que nos levará para o amanhã?


Notas

[1] “COP30 não é festa, não é Copa do Mundo”, reforça novamente Marina. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/politica/cop30-nao-e-festa-nao-e-copa-do-mundo-reforca-novamente-marina/>. Acesso em: 13 out. 2025.

[2] Divulgada a pesquisa “Protagonismo do Brasil na COP 30”. Disponível em: <https://www.laclima.org/noticias/divulgada-a-pesquisa-%E2%80%9Cprotagonismo-do-brasil-na-cop-30%E2%80%9D>. Acesso em: 13 out. 2025.

[3] ONU confirma 2024 como o ano mais quente já registrado, com cerca de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/287173-onu-confirma-2024-como-o-ano-mais-quente-j%C3%A1-registrado-com-cerca-de-155%C2%B0c-acima-dos-n%C3%ADveis>. Acesso em: 13 out. 2025.

[4] Opep reafirma previsões para avanço da demanda global por petróleo em 2025. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/economia/opep-reafirma-previsoes-para-avanco-da-demanda-global-por-petroleo-em-2025-e-2026/>. Acesso em: 13 out. 2025.

[5] KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. Companhia das Letras: São Paulo, 2022.


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