Da Unio Mystica ou do não-racional
Bruno Martinez Tessele
Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
08/09/2025 • Coluna ANPOF
Um dos maiores paradoxos para o espírito é entender o começo daquilo que se convencionou chamar de filosofia: o momento, o instante primeiro em que o espírito intuiu algo diverso — ou aparentemente diverso. Tal momento é, paradoxalmente, o fundador de toda grande filosofia. Da antiga cultura indiana, perpassando a civilização grega na sua busca pela arché da Natureza, até os modernos e contemporâneos, o ato fundante do filosofar conservou-se. De modo que lhe podemos denominar "espanto", "intuição mística", "noesis", "apercepção transcendental" dentre outras designações cuja variedade se dá mais por vocabulário e arbitrariedade do que por seu conteúdo. Esta é justamente a fonte da perene incógnita da filosofia, a questão filosófica última, a saber: o quê é? O “quê” designa a pergunta pelos pragmata; o “é”, a misteriosa cópula entre linguagem, pensamento e ser. Qual é o sentido dessa problemática?
Diversos filósofos, místicos e teólogos buscaram tematizar essa problemática ao longo da história. Todos experienciaram o sentimento originário de espanto, no qual oposições, mediações e racionalizações são dissipadas em prol de uma claríssima e obscura visão do espírito: claríssima, pois o seu clarão é indubitável; e obscura porque a sua luz de tão forte inebria o espírito. Nela, sujeito e objeto, pensamento e pensado, são dissolvidos e se tornam um, quando antes eram aparentemente distintos um do outro. Corresponde, para usar exemplos da cultura grega, ao prisioneiro que quase fica cego sentindo a luz do Sol, contemplando a Verdade ao sair da caverna. Platão ecoa aí sem dúvida a tradição da filosofia mística de Parmênides, que é justamente o pai do racionalismo ocidental. A sua intuição primordial a respeito da identidade entre Ser e Pensamento, apoiada sob os três princípios da lógica igualmente intuídos, é uma manifestação helenizada de uma experiência comum a vários outros povos: a da Unio Mystica[1].
Essa experiência originária consiste na intuição, impenetrável pela razão discursiva, da unidade de todas as coisas, que pode ser expressa no filosofema “tudo é um”. Do médio-platonismo ao idealismo alemão, esse pressuposto foi mantido — ora de forma explícita, ora velada — como núcleo duro da filosofia. Afinal, o que é o Ser parmenídico, o Bem platônico, o Uno plotiniano, a coincidentia oppositorum de Nicolau de Cusa, o cogito cartesiano, a apercepção transcendental kantiana senão variações dessa mesma Unio Mystica universal, dessa mesma experiência originária? Embora tenham objetivos diferentes, essas variações operam num único e mesmo fundo: o do absoluto, em que ser e nada coincidem.
Identificar a constância da Unio Mystica ao longo de uma determinada tradição filosófica e/ou religiosa em especial não é enclausurá-la na mesma. Tampouco à sua efetivação é inerente uma revelação divina na esteira de um teísmo clássico — haja vista o contraste entre místicas orientais, presentes no budismo e no taoísmo, e ocidentais, conforme se encontra em alguns místicos cristãos da antiguidade e do medievo. Nos primeiros, o objeto místico, na falta de uma expressão melhor, é o vazio; nos últimos, a deidade.[2] A estrutura dessa experiência, todavia, é idêntica. Os termos cumprem a mesma função: o vazio é a negatividade máxima assim como a deidade é a máxima positividade ou, para usar termos plotinianos, a superabundância de ser ou o além do ser.[3]
A pergunta que Tugendhat levanta sobre uma possível intencionalidade — e, por conseguinte, sobre a existência de um objeto intencional — na experiência mística expressa a tendência da razão discursiva de tratar todo conteúdo de forma objetal.[4] Tentá-lo é um movimento genuíno, que, entretanto, parece fadado ao fracasso. Pois a Unio Mystica é realmente o momento em que o eu é dissolvido, eliminando qualquer grau de mediação conceitual e de relação entre sujeito e objeto.
Se assim o for, o que resta dessa dissolução total? Ao que tudo indica, um absoluto nada, ou, se quiser, algo completamente inapreensível pela linguagem e pelo pensamento. Não se pode discursar sobre algo que é, por natureza, místico, uma vez que as próprias proposições a seu respeito, sejam elas negativas ou afirmativas, pretendem descrever um conteúdo cujo sentido é considerado por elas mesmas indescritível. Desse modo, qualquer discurso sobre o espanto místico e o início originário da filosofia é um peritrope.
Ao aceitar-se essa consequência, outra se segue: a de que todos os discursos feitos sobre a experiência mística ou o que seja a Unio Mystica, esse âmbito do inefável, é autocontraditório ou no mínimo um paradoxo. Inclusive, dizer que é um paradoxo do espírito, como foi dito acima, também o é! De modo que este texto, ao tentar discursar sobre a Unio Mystica, torna-se igualmente paradoxal. Eis então o paradoxo do filosofar: o paradoxo de um paradoxo — o de pensar a mística.
Referências
ALBERT, karl. Platonismo: Caminho e essência do filosofar ocidental. Edições Loyola, 2011.
TUGENDHAT, Ernst. Sobre mística. Estudios de Filosofía, n. 34, p. 269-278, 2006.
Notas
[1] ALBERT (2011) corrobora com essa genealogia da tradição ocidental, atribuindo-lhe a paternidade a Parmênides. A leitura mística do poema de Parmênides por parte do médio-platonismo parece confirmá-la. Plotino, para dar um exemplo, é um dos principais defensores dessa interpretação se apoiando no diálogo platônico Parmênides, o que faz jus à sua filosofia místico-religiosa.
[2] Distinção que TUGENDHAT (2006, p. 270) propõe.
[3] O conceito de máximo que Nicolau de Cusa desenvolve na sua Douta Ignorância é um dos mais interessantes para lidar com essa obscuridade inebriante da literatura mística.
[4] Ibid., p. 272.
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