Descolonização indígena na Filosofia
Paulo Jorge Barreira Leandro (Swení-Haóótí)
Doutorando em Filosofia na UFC; liderança indígena e responsável pela Pajelança do Povo Tapuia-Guanacé
13/04/2026 • Coluna ANPOF
A atualidade da questão indígena nos meios filosófico-universitários pouco tem contribuído qualitativamente para a vida indígena e suas transformações neste âmbito. Esta realidade se torna evidente a partir de diversos fatores observáveis, alguns dos quais, elencamos a seguir:
1. Ausência considerável de indígenas nos cursos de Filosofia (seja pelas falta das cotas em todas as universidades públicas, seja pelo engano de insistir em contextualizar a questão étnica da pessoa indígena à categoria de racialidade da mesma em parda); soma-se a isso, a ausência de manutenção de estudantes indígenas que entram no curso de Filosofia, principalmente no que tange ao transporte para retornar à aldeia e, pelas questões de falta de entendimento e sensibilidade por parte das estruturas, em especial coordenações de graduação e pós-graduação – sobre – a realidade indígena, sua cultura e tradição. Destaca-se, ainda, a ausência de professores indígenas nos departamentos de Filosofia.
2. Produção de narrativas não indígenas sobre os povos indígenas sem a presença de mesmos, sem nenhum tipo de vínculo e compromisso com a causa indígena. O que gera limitação de entendimento da própria conjuntura e qualidades singulares da questão indígena.
3. Desresponsabilização ética em relação à totalidade da luta social-política-econômica indígena.
Diante disso, sentimos que estas questões são bastante delicadas por circunscreverem nossa experiência de consciência e vida, sem uma experiência total. Mas não pensamos que estas questões sejam, para os não indígenas como o são para nós na medida que são culturas diferentes. O que pensamos na descolonização indígena é a liberação das dominações dos corpos e abertura às retomadas insurgentes com a presença de corpos indígenas em todas as suas linhas selvagens da natureza e não somente conceituais da racionalidade civil-europeia. A realidade é que essas questões passam quase que desapercebidas pela maior parte das pessoas no contexto das universidades. Isto em nada contribui para a nossa existência, para as possíveis resoluções dos problemas que enfrentamos e nem para a nossa permanência nas universidades. Pelo contrário, só pioram nossa situação, tendo em vista que são divulgadas ideias sobre nós que nada tem a ver, realmente, conosco e, sim com uma perspectiva não-indígena, sobre nós. E isso é promovido como se fosse realidade sobre nós. O problema real se instaura quando se reduz a experiência acadêmica separando a experiência da vida indígena.
Excetuam-se raras experiências descoloniais indígenas em contexto filosófico-universitário, junto com pessoas abertas e engajadas, fazendo ressoar as flechas. Algo brota fissurando a dita epistemologia da razão instrumental. Para além das enteogenias e das psicodelias, – nos referimos às experiências próprias das encantarias que atuam descolonizando, pelos meios, pelas bordas, pelas beiras. São estas raras experiências que fazem a transformação do mais-valor-capital em mais valor-de-vida, bem-viver. Assim como nossa encantaria é real, nosso ato de descolonização indígena na pesquisa filosófica também o é sem as reduções do identidarismo ocidental imposto sobre nós; nos expomos no contexto universitário em processos relacionais entendendo que a colonização europeia-brasileira é uma colonização capitalista que continua violentando nossos corpos, direta e indiretamente, tomando quase tudo de nossa vida, não somente na cidade mas invadindo nossas aldeias e territórios desde 1500 às situações de hoje.
Nós não dissociamos estas questões da conjuntura atual da questão indígena nos meios universitários. À cada arco, sete flechas…várias direções! É preciso instaurar nos meios universitários processos múltiplos de descolonização indígena, fazendo atuar nossas encantarias, produzir metamorfoses selvagens (nos modos de viver, sentir, pensar) e agenciamentos ancestrais indígenas, a fim de que também possamos combater nessa selvagem arte do combate e quem sabe criarmos ramas e raízes existenciais propiciadoras de novas formas de reflorestar corpos diante da guerra que nos é imposta e, assim, criar pensamento indígena filosófico sobre nós a partir de nós. Isso não exclui o diálogo com não indígenas e suas produções sobre nós. O que há aqui, nesta descolonização, é a relevância política dos agenciamentos e engajamentos em torno da vida indígena, que precisa ser levado em conta na criação de conceitos-corpos, e não abstrações coloniais.
Nesses enfrentamentos, um duplo movimento: entre aberturas, pode-se fazer descolonizar. Nossa inserção nos cursos de Filosofia e em seus programas pós-graduação vai instaurando o que é de fato e de direito à nós, nossa cultura, nossa tradição, ou seja, nossa existência enquanto movimento selvagem, de várias forças que incidem sobre nós solicitando passagens. Trata-se também de convocar pessoas não indígenas a se tornarem selvagens, ou seja, serem atravessadas por estas forças abissais da natureza e aprenderem uma outra linguagem.
Como diz Jerá Guarani: Vou chamar mais pessoas para também se tornarem selvagens. Tenho falado para os Juruá (“homem branco”) que a “Civilização” está destruindo nosso planeta.
Daí a devida importância dos vínculos relacionais entre nós e pessoas não indígenas em contexto universitário, levando-se em conta a diversidade de experiências dos territórios indígenas nos planos do pensamento.
Nesse processo relacional, é fundamental que não sejamos obrigados a pesquisar em nossos TCCs, Dissertações e Teses, a pesquisar exclusivamente autores ocidentais. Que isso ocorra quando for sentido pelo corpo do indígena, caso este perceba como relevante à sua produção de pensamento e ao seu povo. Nós também aprendemos com não indígenas – e, isso é fato –, mas como efeito de relação e conexão de potência, não de imposição institucional. Por isso é imprescindível que nossos saberes não sejam silenciados.
Que nossos trabalhos acadêmico-filosóficos sejam vistos a partir de nossas epistemologias descoloniais; que nossas línguas sejam instauradas como processos legítimos de criação de pensamento filosófico; e que nossas vivências sejam reconhecidas por si próprias, atos políticos e éticos de sociabilidade indígena relevante para a sustentação de nossas próprias ideias filosóficas em contexto acadêmico. Isso se torna possível por meio das transformações de postura social e metamorfoses selvagens intempestivas do desejo nas próprias estruturas dos programas e das subjetividades neles implicadas. Isto é descolonização indígena.
O que queremos – de modo diferente do que já fizeram e ainda fazem de nós – é instaurar novos modos de viver a partir de nosso próprio olhar, de nossa própria perspectiva e que esta seja literalmente levada em conta, a fim de modificar o que se tem feito conosco atualmente, nas universidades, em especial nos cursos de Filosofia.
Lembro-me do parente Iaru (Felipe Coelho) do povo Takariju. Filósofo formado pela UECE, que teve muitos desafios em seu TCC. Aqui, o pensamento indígena, venceu. Esse marco, para nós, no Ceará, abriu um precedente para que tantos outros parentes pudessem expressar a filosofia de seus povos. Hoje, na realidade dos cursos de Filosofia da UECE e da UFC, algo – já se avançou. Algo ainda raro mas potencialmente aberto às dilatações e transformações do pensamento indígena, com a presença de corpos indígenas em aliança com não indígenas.
Nessas linhas, quero me referir às ações como as do prof. Luiz Emanuel da UFCA (Universidade Federal do Cariri) que sempre está acompanhando os trabalhos vinculados ao território. Aqui, nos campos de Fortaleza, da UFC, alianças nos grupos, eventos e diálogos, com as professoras Regiane Colares e Ada Kroff – que, sintonizadas às conexões das diferenças, têm feito passagens às variações existenciais indígenas. Também cito, o grupo "Cine-laboratório de tecelagens do espaço-tempo", em parceria com o Centro Acadêmico de Filosofia Manfredo Oliveira da UFC, pelo Projeto de Extensão sobre filosofia e relações étnico-raciais sob orientação da professora Francisca Galiléia. No curso de filosofia da UECE, destaco parentas indígenas: Naza Potyguara, Daniela Cumaruh, Victória Anacé. Também com o prof. Emiliano Aquino, nos estudos da língua indígena e Grupo de Estudos Coloniais Críticos, da UECE. Com o parente e estudante Rafael Mesquita, atravessando, via pensamento de Ailton Krenak, a questão indígena e étnica, no mapa racial.
A descolonização Indígena na filosofia é o que abre novos modos de se relacionar, instaura e firma, entre as ramas e raízes, de cada povo em situação nesses contextos, uma mudança de conjuntura sobre a situação de pessoas indígenas nos cursos de Filosofia. Trata-se de uma transformação diretamente ligada a uma questão ética, política e social acerca da existência dos povos indígenas no Brasil, em suas realidades singulares.
Nosso Povo Tapuia-Guanacé, pelo nosso território, da Aldeia dos Encantados, Itapajé-Ceará, também se expressa nessas linhas descoloniais. Juntamente com nosso Cacique Jauro Guanacé e honrando também a ancestralidade indígena Ka’apor/MA. Realizamos a pesquisa de doutoramento em Filosofia - Kaxê, Indjá-puxat: mística e política na retomada indígena do povo Tapuia-Guanacé / Ceará - pela Universidade Federal do Ceará – UFC, com orientação de Rejane Collares, somando forças na luta e no combate para melhores vivencialidades indígenas, transformações efetivas e mudanças qualitativas na universidade pública dentro dos cursos de Filosofia.
Iandeará, Namanô-Poitxatxô!
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.