Desobedecer para filosofar: uma metodologia para pluriversar o ensino de Filosofia
Marinês Barbosa de Oliveira
Professora (CEFET/MG) e Doutoranda do PPGFil (UFABC)
02/09/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof | Minicursos
Metodologia da Desobediência Epistêmica no currículo de Filosofia: fundamentos, métodos e práticas
O que acontece quando uma aula de Filosofia ensina, ainda que de forma silenciosa, que o pensamento nasceu em um único lugar, percorreu uma única trajetória e possui um conjunto quase imutável de protagonistas e problemas clássicos? A questão não diz respeito apenas à ausência de autoras e autores africanos, afrodiaspóricos, indígenas ou latino-americanos nos currículos escolares, tampouco ao silêncio diante de questões que atravessam e marcam a constituição de subjetividades e hierarquias sociais. Ela alcança algo mais profundo: os critérios epistemológicos e ontológicos pelos quais certos conhecimentos são reconhecidos como filosóficos, enquanto outros são classificados como cultura, crença, tradição ou simples objeto de estudo; e determinados sujeitos têm sua humanidade plenamente reconhecida, enquanto outros são inferiorizados, desumanizados ou situados às margens do humano.
É desse problema que parte o minicurso sobre a Metodologia da Desobediência Epistêmica Pluriversal, a ser ministrado durante o XXI Encontro da ANPOF. A proposta nasceu no interior de uma pesquisa de doutorado sobre os impactos filosófico-pedagógicos do conjunto normativo inaugurado pela Lei nº 10.639/2003 no campo do ensino de Filosofia no Brasil. Mais do que determinar a inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no currículo, esse conjunto normativo provoca o campo filosófico a examinar suas próprias escolhas: quem aparece como produtor de conceitos? Quais experiências podem dar origem a problemas filosóficos? Que concepção de humanidade sustenta aquilo que ensinamos como universal? Essas perguntas mostram por que acrescentar alguns conteúdos a um currículo que permanece organizado segundo as mesmas hierarquias epistêmicas não é suficiente para produzir mudanças na formação dos estudantes, no que se refere à reeducação das relações étnico-raciais. Uma unidade sobre filosofias africanas, colocada ao final de um longo percurso exclusivamente europeu, pode ampliar o repertório e, ainda assim, conservar a Europa como medida a partir da qual todas as demais tradições são avaliadas. As colonialidades do saber, do ser e do poder, embora constituam dimensões distintas e articuladas da matriz colonial e da racialidade se manifestam também na narrativa histórica adotada, nas perguntas consideradas relevantes, nos modos de validar argumentos, nas atividades propostas, nas práticas de avaliação, nas concepções de humanidade mobilizadas e na posição reservada aos estudantes no processo de produção de conhecimento.
A Metodologia da Desobediência Epistêmica Pluriversal procura traduzir essa crítica em prática pedagógica. Desobedecer, aqui, não significa recusar a Filosofia ocidental, abandonar o estudo rigoroso dos clássicos ou substituir um cânone por outro. Significa reconhecer que todo conhecimento possui história, lugar de enunciação e relações de poder — inclusive aquele que se apresenta como neutro e universal — e retirar uma única tradição da posição de medida de toda racionalidade, colocando-a em interlocução crítica com outras formas, histórica e culturalmente situadas, de elaboração filosófica das experiências humanas. Pluriversar o ensino de Filosofia consiste, portanto, em deslocar sua organização em torno de um único centro epistemológico, criando condições para que diferentes tradições, racionalidades e lugares de enunciação participem da formulação dos problemas e da produção do pensamento filosófico.
A metodologia proposta organiza-se como um circuito de sete movimentos interdependentes. Não são etapas rígidas nem uma receita aplicável de modo idêntico a qualquer contexto educativo. Elas podem ser retomadas, combinadas e aprofundadas conforme o problema filosófico, o contexto escolar e os sujeitos envolvidos.
O primeiro movimento é a situação-problema e a enunciação situada. Em lugar de iniciar sempre por uma definição abstrata já consagrada, a aula pode partir de experiências, conflitos, imagens, notícias, músicas, relatos ou acontecimentos históricos. Uma discussão sobre dignidade humana, por exemplo, pode começar pela análise de processos concretos de desumanização racial. Isso não significa que o vivido substitua a elaboração conceitual. Ao contrário, a experiência concreta torna-se matéria para formular perguntas filosoficamente consistentes.
O segundo movimento é a desestabilização crítica do cânone. Os estudantes são convidados a perceber que currículos, livros didáticos e histórias da Filosofia resultam de escolhas. Eles são levados a comparar narrativas sobre a origem do pensamento filosófico e diferentes concepções de ética, investigar ausências em um sumário ou identificar categorias racializadas em autores modernos. Essas práticas permitem perguntar: por que aprendemos Filosofia a partir dessas narrativas, categorias e perspectivas? O objetivo não é promover um julgamento apressado da tradição, mas historicizar seus pressupostos e tornar visíveis seus silenciamentos.
O terceiro é o deslocamento epistêmico: filosofias africanas, afrodiaspóricas, indígenas e outras tradições historicamente marginalizadas entram na aula não como curiosidades ou anexos multiculturais, mas como produtoras de conceitos e argumentos. Em vez de apenas adicionar nomes, reorganizam-se os problemas. Humanidade, comunidade, justiça, natureza, conhecimento e ética podem ser examinados a partir de diferentes loci de enunciação.
O quarto movimento, confronto de racionalidades, evita que a pluralidade se transforme em uma exposição de perspectivas isoladas. Colocar tradições em interlocução exige comparação conceitual, análise de argumentos e atenção às condições históricas de cada pensamento. Não se trata de declarar que todas as respostas são equivalentes, mas de impedir que uma delas ingresse no debate previamente autorizada como universalmente válida, enquanto as demais precisam justificar continuamente sua legitimidade filosófica.
O quinto movimento é a elaboração conceitual autônoma. Depois de problematizar, desestabilizar, deslocar e confrontar, os estudantes precisam construir interpretações próprias. Essa autoria não se confunde com opinião espontânea. Filosofar requer clareza conceitual, coerência, fundamentação, escuta e disposição para rever posições. A metodologia, portanto, não opõe ensinar Filosofia a ensinar a filosofar, dicotomia amplamente problematizada pelas pesquisas do campo. O que se busca é articular o estudo de problemas, teorias e argumentos à capacidade de mobilizá-los criticamente.
O sexto movimento é a prática da desobediência epistêmica propriamente dita. Nele, a turma interroga os critérios de legitimação do conhecimento: quem decide o que conta como Filosofia? Por que determinadas tradições aparecem como centro e outras como periferia? Que relações existem entre saber, poder, raça e colonialidade? A análise de currículos, linhas do tempo e materiais didáticos pode resultar na elaboração de contranarrativas capazes de reorganizar percursos filosóficos sem apenas inverter exclusões.
O sétimo movimento é a produção filosófica situada. O percurso culmina quando os estudantes produzem ensaios, podcasts argumentativos, mapas conceituais, exposições, materiais didáticos alternativos ou intervenções no espaço escolar. O formato pode variar, mas o critério permanece filosófico: formular problemas relevantes, elaborar conceitos, construir argumentos e dialogar criticamente com diferentes perspectivas. O estudante deixa de ocupar somente o lugar de quem recebe a tradição e passa a reconhecer-se como sujeito epistemicamente capaz de interpretar o mundo.
Tomados em conjunto, esses movimentos dão à metodologia um horizonte pluriversal. Pluriversalidade, portanto, não significa reunir muitas vozes sob uma aparência harmoniosa, como se entre elas não houvesse divergências. Significa reconhecer a possibilidade do dissenso, da controvérsia e da multiplicidade de tradições sem manter uma única experiência histórica como tribunal de todas as outras. Por isso, o diálogo proposto não apaga diferenças nem dispensa critérios. Ele pergunta como esses critérios foram construídos e cria condições para que sejam debatidos por interlocutores antes excluídos da própria cena filosófica. Essa mudança também alcança a avaliação. Se o objetivo é formar sujeitos capazes de problematizar hierarquias do saber, não basta verificar memorização de doutrinas, tampouco considerar qualquer manifestação pessoal como filosoficamente válida. A avaliação precisa acompanhar o percurso: a qualidade das perguntas formuladas, a compreensão dos conceitos, a análise dos argumentos, a identificação de pressupostos, a capacidade de interlocução e a elaboração autoral fundamentada.
No minicurso, esses movimentos serão discutidos a partir de situações concretas do ensino de Filosofia e de possibilidades de aplicação em temas como ética, dignidade humana, conhecimento, racismo epistêmico, política e colonialidade. A intenção não é entregar um protocolo fechado, mas compartilhar um horizonte de trabalho que possa ser apropriado, criticado e transformado por docentes e estudantes em seus diferentes contextos. A desobediência epistêmica torna-se, assim, uma prática de reaprendizagem do próprio filosofar. Ela nos convida a perguntar não apenas quais conteúdos faltam no currículo, mas que estruturas fazem certas ausências parecerem naturais. A pluralidade não ameaça a Filosofia nem dispensa o rigor; ao contrário, amplia sua capacidade de interrogar o mundo e a si mesma. Talvez uma tarefa decisiva do ensino filosófico no presente seja justamente esta: criar condições para que aquilo que durante muito tempo foi produzido como silêncio possa ser escutado, confrontado e reconhecido como pensamento.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.