Do bode expiatório à realidade: 'A Máquina do Ódio e a Construção dos Falsos Problemas na Esfera Pública'

Manuel Cochole Paulo Gomane

Doutorando em Filosofia UFBA e Professor Substituto no Instituto Federal Baiano

25/09/2025 • Coluna ANPOF

E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só veem o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos
(...)
Porque nem tudo que eles dizem é verdade (é verdade)
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade (é verdade)
Eles fazem te pensar que tu sabes (mas não sabes)
Cuidado com as mentiras da verdade (é verdade)
(...) Eles fazem te pensar que tu sabes (mas não sabes)
Cuidado com as mentiras da verdade (é verdade)
Se eu te dissesse
Que a historia que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas.

“As Mentiras da Verdade” / Azagaia (2007)

A Palavra de um político sempre suscitou dúvida na sociedade, qualquer que ela seja. A falsidade, inverdade ou Fake News, no sentido de mentiras disseminadas dentro do debate na esfera pública, a chamada “máquina política da mentira”, sintetizada no ataque aos falsos problemas políticos, é o que torna a democracia contemporânea intratável; e, quase sem nenhuma dimensão axiológica.

Desde tempos antigos, sociedades em crise recorrem ao mecanismo do bode expiatório, como mostra René Girard (2004), ao demostrar os processos pelos quais as comunidades, ao criarem certos totens e tabus, projetam tensões e conflito individuais e grupais, transformando-os em falsos problemas dos quais extraem dividendos (estou falando de políticos, religiosos ou e até influenciadores digitais).  Hodiernamente, no que diz respeitos aos reis problemas sociopolíticos, em vez de confrontar as causas reais de sua desordem, os políticos profissionais elegem inimigos provisórios, sobre os quais depositam culpas e ressentimento. Normalizando a morte da moral pública.

O Brasil e Moçambique, países em que a presente reflexão tem como objeto, enfrentam momentos de crise prolongada nas suas democracias. Estas crises são resultado do que podemos denominar por “conflito pós-eleitoral”.   A vida democrática de Moçambique e do Brasil se situa neste momento numa crise da democracia que é global, não há como escapar desse expediente que se situa entre os extremos da “direita” e da “esquerda”.  Contudo, estes países têm os seus problemas contextuais (específicos), a presente reflexão tem como mote a realidade destes dois países. Pois, em meio à polarização política e ao esgarçamento do tecido social, notamos que cada dia vivemos dentro das nossas “crenças doxásticas”, do ponto de vista epistêmico. Proliferam os falsos problemas da luta pelo poder por parte das elites políticas em detrimento dos reais, por exemplo: (i) Degradação da comunicação pública (Palavra do Outro munido de uma dimensão não axiológica), (ii) discursos que desviam o olhar coletivo (ubuntu) daquilo que, de fato, é a gênese da nossa crise institucional.

Entre tantos desafios, dois se mostram centrais. O primeiro e a degradação da comunicação pública. A palavra que deveria ser mediação e espaço de reconhecimento mútuo torna-se arma de destruição simbólica com o contributo das mídias periféricas (o algoritmo). A retórica do ódio e da intolerância transfigura a linguagem em instrumento de exclusão, gerando aquilo que Boaventura de Sousa Santos chamaria de uma “sociologia das ausências” (2002): silencia-se o outro, torna-se invisível o dissenso legítimo, produz-se um deserto comunicacional onde a escuta da “Palavra do Outro” é impossível.  Estamos vivendo, politicamente, o Brutalismo descrito por Achille Mbembe (2021). 

O segundo problema é mais profundo, é estrutural e secular: a desigualdade social. No Brasil, tal como em Moçambique, ela não é apenas um dado econômico, mas uma gramática e fotografia da exclusão que organiza todas as relações sociais. Aqui, o conceito de aporofobia, desenvolvido por Adela Cortina (2020), é iluminador. A aversão ao pobre não é apenas um preconceito: é o medo difuso da presença daqueles que, por sua vulnerabilidade, revelam a falência das promessas da igualdade ou “justiça como equidade” Rawls (2013) por parte do capitalismo e das democracias contemporâneas (estou falando da responsabilidade dos profissionais da política).

Os profissionais da política ativa são responsáveis pelo mal-estar diante da alteridade despojada de poder, que se traduz em rejeição sistemática ao pobre como sujeito de direitos e deveres. Por analogia retomamos o período áureo da escravidão, quando o negro era um sujeito de deveres e não de direitos. Por exemplo: “o negro é na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa, e o espírito, em mercadoria - a cripta viva do capitalismo” (Mbembe, 2015).

Podemos dizer que no Brasil e em Moçambique a aporofobia, medo do espaço público verdadeiramente e eticamente compartilhado, assume também a forma de “necropolítica e de necropoder”, como afirma Mbembe (2018). As elites econômicas e políticas resistem a reconhecer a possibilidade de um poder verdadeiramente popular, o povo como coabitante legitima o “contrato cultural”, descrito nas “cartas constitucionais”, preferindo manter a segregação político-social, a morte social pelo embrutecimento coletivo ou “inimigos cívicos”, Brennan (2020).

Enquanto isso, seguimos cegos aos falsos problemas, demonizam-se minorias, transforma-se a corrupção em mal absoluto (como se fossem atributos exclusivos de determinados partidos), questiona-se a própria democracia e não os agentes e agências disseminadoras da má postura democrática (informações classificadas falsamente). Tudo isso cobre o ônus do problema, a chaga central: a desigualdade sociopolítica e o desgaste do tecido social moralmente construído, o falso problema político reinventa e se reproduz, em nível global, como fundamento silencioso de todas as crises.

Nesse processo, instaura-se uma democracia do ódio e um debate em torno de falsos problemas político-sociais na esfera pública, que funcionam como um “bode expiatório” dos reais problemas da sociedade: a necessidade da renovação do contrato cultural e o resgate de uma dimensão axiológica da democracia.

É urgente resgatar o sentido primário da palavra como lugar de encontro, de diálogo e de reconhecimento mútuo. O presente texto apresenta-se como uma proposta de reflexão sobre devolver ao espaço público a “Palavra do Outro”, na sua dimensão axiológica, e restituir-lhe a função originária em uma esfera pública que, muitas vezes, se converte em palco de exclusões e silenciamentos marcados pela intolerância.  

Enquanto o diálogo e o reconhecimento mútuo não ocorrerem, permaneceremos em um teatro de sobras, combatendo fantasmas enquanto a chaga real corrói silenciosamente as nossas democracias. Isto é, habitando politicamente entre as “mentiras da verdade” (Azagaia, 2007).


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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