Entre a filosofia e a diversidade: caminhos para uma docência viva

Adriana Fidelis

Mestranda em Filosofia no PROF-FILO/UNIRIO

16/10/2025 • Coluna ANPOF

A escola que queremos precisa se abrir à vida. A docência, para ser viva, precisa se reinventar - e essa reinvenção passa pela autoatualização e pela intelectopluralidade. O termo autoatualização, usado por bell hooks, propõe mais do que o aprimoramento profissional, trata-se de um processo integral de desenvolvimento do ser, que envolve corpo, mente e espírito. Essa ideia rompe com a figura do educador severo e exausto e sugere uma prática que nasce do cuidado e do prazer de ensinar. Quando o educador se autoatualiza, o trabalho se torna leve e consciente, e o aprendizado dos estudantes ganha potência emancipatória. Já o conceito de intelectopluralidade, citado por Bárbara Carine em Como ser um educador antirracista, amplia o olhar sobre o conhecimento, afirmando que pensar e ensinar exigem compreender a diversidade como fonte de saber. Ser intelectoplural é reconhecer que o pensamento nasce da convivência com diferentes corpos, histórias e culturas, e que o ato de educar é também um ato político de valorização da diferença.

Autoatualização e intelectopluralidade se articulam na intenção de transformar a escola em um espaço de libertação e diálogo. inspiradas aqui em obras que percorrem a filosofia, a literatura e a experiência cotidiana, apresentando caminhos que guiam, de forma prática, o ensino. Apresenta-se então autoras e autores que farão do ensino de Filosofia uma porta de entrada profunda a qual se abre para o potencial filosófico.

As ideias de autoatualização e intelectopluralidade encontram eco em diversas obras que ampliam nossa compreensão sobre identidade, corpo, diversidade e pluralidade cultural: Judith Butler, em Problemas de gênero, nos faz pensar a identidade como construção social; Paul B. Preciado, em Testo Yonqui, questiona a naturalização dos corpos e a heteronormatividade; Guimarães Rosa, com sua escrita de fronteiras, nos convida a perceber a fluidez da identidade; Adolfo Caminha, em O Bom Crioulo, abre um marco na literatura brasileira ao tratar da homossexualidade com humanidade; Chimamanda Ngozi Adichie, com O perigo da história única, nos alerta sobre os riscos de enxergar o mundo a partir de uma só perspectiva; Pirula & Reinaldo Lopes, em Darwin sem frescura, explicam a evolução e a ciência de forma acessível e crítica, facilitando a autoatualização de professores e estudantes. Essas leituras se unem às reflexões de bell hooks que, em Ensinando a transgredir, nos recorda que ensinar é um ato de liberdade. A docência, assim compreendida, não é apenas um ofício, mas um compromisso com o bem-estar e com a justiça. O mesmo compromisso se encontra na obra de Bárbara Carine, que nos desafia a enfrentar as estruturas racistas e a educar para a igualdade e a pluralidade.

A proposta deste guia é, portanto, oferecer caminhos para uma educação mais equânime e sensível à diversidade. Uma educação que reconhece a urgência de repensar práticas e currículos, rompendo com modelos opressores e abrindo espaço para novas formas de existir na escola. Assumir a autoatualização e a intelectopluralidade como fundamentos da docência é afirmar que o conhecimento não se constrói isoladamente, mas na relação com o outro. É fazer da sala de aula um território de trocas, de escuta e de esperança, possíveis e reais, onde ensinar e aprender se tornam gestos de liberdade e humanidade.


Referências

Butler, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

Carine, Bárbara. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Autêntica, 2020.

Caminha, Adolfo. O Bom Crioulo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1895.

hooks, bell. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. Preciado, Paul B. Testo Yonqui. São Paulo: N-1 Edições, 2017.

Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

Adichie, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2017. Pirula & Reinaldo Lopes. Darwin sem frescura: Uma visão irreverente sobre evolução e ciência. São Paulo: Globo, 2018.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.