Entre o Cânone e a Decolonialidade: Notas sobre uma Tensão Formativa na filosofia feita no Brasil

Pol Iryo

Mestrando em Filosofia na USP

14/11/2025 • Coluna ANPOF

A dilatação do campo filosófico é necessária, mas sua implementação na academia muitas vezes negligencia o diálogo com a História da Filosofia, criando riscos que convém ponderar. Este texto emerge de um incômodo que acompanha minha formação em filosofia e a de colegas em diversas universidades do Brasil, em especial no Sudeste — mas não apenas. Trata-se da percepção de que, ao abrirmos as portas para novos autores e temáticas urgentes, estamos, em alguns casos, negligenciando o diálogo com a História da Filosofia. Como equilibrar a necessária expansão do campo com a tradição que lhe confere profundidade?

O objetivo aqui é fazer uma breve reflexão acerca do “recente” fenômeno da dilatação do campo filosófico brasileiro, que sofreu uma mutação a fim de abarcar novas temáticas e autores. O que eu acho ótimo, ora, sem esse acontecimento dificilmente eu estaria estudando a filósofa que é norte na minha pesquisa de pós-graduação.

Com “dilatação do campo” me refiro à ampliação curricular e bibliográfica que traz novos corpos, temáticas e metodologias na formação em filosofia e na difusão de textos. Como a inclusão de mulheres como Simone de Beauvoir ou Christine de Pizan, de saberes originários como Nêgo Bispo e Ailton Krenak, do movimento negro com autores como Frantz Fanon e Sueli Carneiro, de corpos sexo-gênero-dissidentes como Paul B. Preciado.

Mas percebo que, com essa abertura filosófica, que expandiu o interesse para autories que até então não eram contemplades nos currículos das universidades e raramente nas bibliotecas ou escritos dos intelectuais que habitam a academia, aconteceu uma espécie de abandono da tradicional História da Filosofia por parte de alguns acadêmicos, o que impacta diretamente a formação de estudantes. Como se tivéssemos corrido atrás das lacunas deixadas pelo “cânone”, e investido demasiada força e atenção para que novos corpos e saberes adentrassem a academia, sem pensar em “como” e com que ferramentas isso seria feito, contribuindo para que pesquisadores tenham falta de ferramentas conceituais, leituras sem historicidade, e até um risco de criar um “novo cânone”, como apontarei a seguir.

Uma das coisas que defendo, enquanto pesquisador que está em formação para se tornar um possível filósofo, é que não podemos abandonar a história da filosofia, os ditos clássicos. Afinal, é importante que eles sejam estudados para que a crítica ou reflexão seja bem feita.

Não estou querendo dizer que houve um completo abandono de autores tradicionais nas formações; estou ciente que há um currículo base. Mas noto que muitos autories e movimentos estão sendo deixados de lado com essa “revolução” que vem sendo feita no campo filosófico.

A filosofia é uma das áreas mais antigas que temos. O déficit que percebo em muitos pesquisadores da área quanto ao passado é algo que me preocupa. Sem contar que, às vezes, essa História da Filosofia é vista com desprezo por parte de alguns estudantes – o que me faz refletir se não estaríamos acabando por criar um novo “cânone decolonial”, o que por si só já é contraditório.  Quando buscamos nos opor a uma rigidez de um cânone, não deveríamos fazer o movimento de criar um novo paradigma segregatório, igualmente excludente em relação a outras perspectivas de pensamento. Corremos o risco de trocar uma hegemonia por outra, perdendo de vista o caráter pluralista e crítico que deveria acompanhar a filosofia. Celebro a polifonia que irrompe no campo filosófico brasileiro. É nesse espírito de um diálogo amplo e crítico que a citação de Walter Benjamin se torna tão crucial.

Lembremos de sua VI Tese, “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”, ou seja, é importante que nos lembremos, para que possamos lidar de maneira mais responsável e consciente com o presente.

Sem dúvida, não podemos dar conta de tudo, e nem é isso o que estou propondo aqui. Mas pesquisas ou aulas que focam apenas em temas que vêm emergindo mais recentemente, como estudos de gênero, decolonialidade, raça, sexualidade, capacitismo… deixam de lado, muitas vezes, a historicidade. Esses temas tão importantes não podem ser tidos como um apêndice da filosofia, como se fossem uma área à parte da filosofia, como se não a pertencesse. Construir linhas ou departamentos especializados nesses recortes pode levar ao risco da segregação.

Não pretendo dar soluções definitivas, ou fazer julgamentos rasos e apressados; esse texto é limitado demais para que uma extensa e rigorosa análise do acontecimento seja feita.

Mas proponho um convite à reflexão para que repensemos o modo pelo qual estamos lidando com a História da Filosofia e a emergência dessas “novas” temáticas. Como contemplar essas urgências e essa prolífica seara de obras que vêm emergindo no campo? Como podemos contemplar as urgências desse presente fértil e diverso sem perder de vista — e, mais importante, sem deixar de dialogar com — a longa conversação filosófica que se estende por milênios?


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.