Especial 8M - Considerações sobre a autonomia intelectual no ensino de filosofia

Sarah Paiva da Silva Schmitz

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

30/03/2026 • Coluna ANPOF

Em parceria com GT Mulheres na História da Filosofia da Anpof

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Médio estabelece que estudantes brasileiros devem ser capazes de fazer escolhas e agir pessoal e coletivamente com autonomia (BRASIL, 2018. P. 10). O termo “autonomia” surge diversas vezes ao longo do documento, relacionado a pensamento crítico, construção do conhecimento, curiosidade intelectual e noções de política. A importância da autonomia é frisada em passagens como a que segue:

[...] cabe às escolas de Ensino Médio contribuir para a formação de jovens críticos e autônomos, entendendo a crítica como a compreensão informada dos fenômenos naturais e culturais, e a autonomia como a capacidade de tomar decisões fundamentadas e responsáveis (BRASIL, 2018. p. 465, friso meu.)

Embora aponte uma direção louvável, a noção de autonomia proposta pela BNCC não compreende todas as suas nuances. É essa falta de precisão para o termo autonomia e, mais precisamente, para a noção de autonomia intelectual no contexto de ensino de filosofia, o que motiva a escrita deste texto. Assim, lanço a questão: qual o melhor caminho para desenvolver a virtude da autonomia intelectual? Para responder a essa pergunta, precisamos debruçar-nos sobre o que seja autonomia intelectual e acercar-nos de suas relações com outras virtudes intelectuais. Farei, portanto, uma breve introdução ao tema.

A autonomia individual pode ser compreendida de distintas maneiras, inclusive subdividindo-se em diferentes tipos de autonomia. Um tipo particular de autonomia cuja discussão vem crescendo na última década é a autonomia intelectual, tradicionalmente investigada pela epistemologia das virtudes. Segundo a epistemologia das virtudes, nossa busca por bens epistêmicos, tais como conhecimento, verdade e entendimento, pode ser facilitada se possuirmos virtudes intelectuais ou dificultada se possuirmos vícios intelectuais; a corrente responsabilista da epistemologia das virtudes compreende, ainda, virtudes e vícios intelectuais como traços do caráter intelectual de alguém. A construção e manutenção do caráter intelectual são realizadas através de hábitos intelectuais visando à aquisição de virtudes e mitigação de vícios. O desenvolvimento da autonomia discente enquanto virtude intelectual, portanto, é um processo que demanda esforço e dedicação de todas as partes envolvidas, especialmente de docentes. Dessa maneira, elencarei alguns pontos acerca da autonomia intelectual, oferecendo parâmetros a serem cumpridos por uma docência que vise o desenvolvimento dessa virtude. Para isso, lançarei mão dos ensinamentos de estudiosas da autonomia intelectual (Battaly 2021, Zagzebski 2013) que indicam que essa não é uma virtude isolada das demais e que não é isenta de versões viciosas. Iniciarei pela proposta de Zagzebski, por questão cronológica.

Para Linda Zagzebski, a autonomia intelectual consiste no “direito ou o ideal de autodeterminação na aquisição e manutenção de crenças” (ZAGZEBSKI, 2013. P. 259, tradução minha) e dela depende a autonomia da vontade, no sentido de que as condições mentais nas quais nos fiamos para tomar uma decisão devem ser autônomas. A definição direta dada por ela parece vaga, e certamente carece de algum refinamento (acrescentado mais tarde por Battaly (2021), Matheson (2021) e outros), entretanto nesse mesmo texto a autora realiza apontamentos bastante certeiros, influenciando fortemente os trabalhos posteriores. Ela afirma que a autonomia intelectual enquanto virtude deve ser motivada pela busca e valorização de bens epistêmicos tais como a verdade, o conhecimento, o aprendizado, o entendimento e a compreensão; a autonomia intelectual, portanto, relaciona-se com a virtude do amor ao conhecimento. Além disso, Zagzebski defende que essa virtude depende necessária e criticamente da autoconfiança do agente nos próprios poderes “perceptuais, epistêmicos, afetivos e conativos” (ZAGZEBSKI, 2013. P. 259, tradução minha). Tal autoconfiança seria fruto da autorreflexão, condição para que o agente não se limite à situação da heteronomia e parte fundamental do processo de combate à dissonância cognitiva.  Por fim, Zagzebski aponta para o perigo do egoísmo epistêmico enquanto um vício advindo do excesso de autonomia intelectual. Assim, da leitura de Zagzebski apreende-se que a autonomia intelectual i. precede a autonomia moral; ii. é motivada pelo amor ao conhecimento; iii. depende da autoconfiança do agente em seus próprios “poderes”; e que, além disso; iv a autorreflexão é a base necessária para iii; e v. o egoísmo epistêmico é o vício que espreita a autonomia intelectual.

Heather Battaly também tece conexões entre a autonomia intelectual e outras virtudes intelectuais. Embora não afirme que o desenvolvimento da autonomia intelectual ocorra em decorrência da posse de outras virtudes ou mesmo do desenvolvimento dessas, Battaly deixa claro que é improvável que um agente desprovido do que ela chama de interdependência intelectual possua, apesar disso, autonomia intelectual. Segundo ela, agentes autônomos intelectualmente têm uma disposição comportamental para pensar de forma independente - a pensar por si próprios e tomar suas próprias decisões - e que o fazem por possuírem uma disposição motivacional a comportar-se dessa maneira porque “se importam com bens epistêmicos” (BATTALY, 2021. p. 166). Ainda, de acordo com a autora, agentes que possuem o traço da interdependência intelectual são aqueles que estão dispostos a pensar de forma interdependente - a pensar com e consultar outros agentes e fontes; Battaly estrutura a interdependência intelectual nos mesmos moldes da autonomia intelectual. A autora acrescenta, ainda, que tanto autonomia quanto interdependência intelectuais são virtudes que podem ser desenvolvidas em níveis adequados ou inadequados (por excesso ou por falta). O friso de Battaly na necessidade da autonomia intelectual manifestar-se em um nível adequado deve-se ao risco dessa virtude escorregar para o vício do egoísmo epistêmico; que seria, então, seu excesso. Um agente que peca por egoísmo epistêmico falha em confiar no julgamento de outrem ou no conhecimento oferecido por seus pares, mesmo que ele mesmo não tenha expertise no tema (BATTALY, 2021. P 156). Dessa maneira, Battaly estabelece que a autonomia intelectual: i. não depende, mas relaciona-se com a virtude da interdependência intelectual; ii. pode escorregar para o vício do egoísmo epistêmico; e iii. é motivada pelo apreço do agente em relação a bens epistêmicos.

Os apontamentos de Battaly e Zagzebski provêm, já, uma lista interessante de condições e cuidados necessários na elaboração de um caminho cujo objetivo principal é o fomento à autonomia intelectual; entretanto, cabe, ainda, algumas considerações inspiradas por Jason Baehr. Baehr escreveu extensivamente acerca de virtudes intelectuais e suas aplicações na educação, tendo uma de suas obras recentemente traduzida para o português. O primeiro ponto notável é a relação entre a posse da autonomia intelectual e a aprendizagem ativa, que, segundo Baehr, requer uma escolha - justamente por isso, demanda autonomia intelectual. A seguir, elencando as nove principais virtudes intelectuais a serem trabalhadas com os discentes, Baehr declara que “a humildade intelectual completa a virtude da autonomia intelectual” (Baehr, 2025, p. 61); pois a humildade intelectual seria o antídoto natural contra o vício do egoísmo epistêmico. Baehr indica em dois capítulos inteiros (capítulos IX, “Servir de modelo”; V, “Linguagem”), também, a importância do exemplo dado pela professora e do uso da linguagem das virtudes para, respectivamente, que os estudantes inspirem-se pelo ideal das virtudes, e visando evitar incorrer em uma perda de compreensão e engajamento discentes. Por fim, Baehr assenta a autonomia e humildades intelectuais sobre uma mesma base, a autorreflexão. Conforme o autor, o desenvolvimento de um “modelo mental preciso de nós mesmos enquanto aprendizes” (BAEHR, 2025. P. 147) através da autorreflexão dá-nos uma noção mais clara e honesta de nossas fraquezas, limitações, pontos fortes e habilidades, pois ter ciência desses fatores cria um solo mais estável e fértil para as virtudes da autonomia e humildade intelectuais. Resumidos, os ensinamentos de Baehr mostram que: i. a autonomia intelectual relaciona-se diretamente com a humildade intelectual; ii. ambas essas virtudes fundamentam-se sobre a autorreflexão; iii. o ensino de virtudes intelectuais requer (a) exemplo e (b) uso da linguagem das virtudes intelectuais; e iv. a autonomia intelectual frutifica em abordagens envolvendo engajamento ativo dos estudantes.

Fica evidente que os direcionamentos oferecidos pela BNCC quanto ao desenvolvimento da autonomia não são suficientes para a reflexão necessária à construção de bons caminhos de fomento a essa virtude. Assim, tendo em conta as considerações dos autores supracitados, podemos pensar alguns pontos a serem considerados por professoras e professores que desejam tomar a autonomia intelectual como um ideal de ensino. Portanto, se o nosso objetivo é que os estudantes consigam desenvolver a  autonomia intelectual em um nível adequado, além de atentar-nos à importância de servirmos de modelo, podemos considerar que um bom caminho para o ensino de filosofia nas escolas deve: a) dar voz e oportunidades para que os estudantes exerçam sua autonomia intelectual; b) oferecer recursos e ambiente propício para o desenvolvimento da interdependência intelectual; c) estimular a autorreflexão; d) encorajar a humildade intelectual; e) dar espaço para que os estudantes desenvolvam autoconfiança intelectual; f) valorizar bens epistêmicos; g) incluir o vocabulário de virtudes intelectuais.

Os requisitos são muitos; e o trabalho obviamente demanda bastante esforço da comunidade escolar como um todo. Entretanto, como destaca Baehr, tais condições não precisam ser seguidas à risca ou tomadas categoricamente, podendo ser aplicadas em menor ou menor grau, dentro das possibilidades da realidade de cada sala de aula. No fim do dia, a busca pelo ideal na educação vale cada pequena vitória.


Referências

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