Especial 8M - Não queremos mais esperar: pensando um futuro ecofeminista com Françoise d'Eaubonne
Tânia Kuhnen
Professora de Filosofia da UFOB
Daniela Rosendo
Professora Substituta no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
27/03/2026 • Coluna ANPOF
Em parceria com GT Filosofia e Gênero da Anpof
Passado mais um 8M e engajadas com um movimento que vem se consolidando no Brasil e conta com várias iniciativas acadêmicas de valorização do pensamento de mulheres na Filosofia, gostaríamos de propor algumas reflexões a partir das contribuições de uma das pensadoras pioneiras dos ecofeminismos, a francesa Françoise d’Eaubonne. Seu livro Feminismo ou morte (Bazar do Tempo, 2025), publicado originalmente na França em 1974 e amplamente citado na literatura ecofeminista como tendo dado origem ao termo ecofeminismo, recebeu tradução recente para o português.
Françoise d’Eaubonne, anarquista e co-fundadora da Frente Homossexual de Ação Revolucionária, foi uma intelectual precursora ao compreender o feminismo como um movimento contra o sistema de poder patriarcal cujos efeitos atingem não apenas a vida das mulheres, mas também outros grupos sociais minoritários politicamente. Ao discutir o conceito de minorias sujeitas à opressão do patriarcado, D’Eaubonne entendeu que diversos grupos humanos são afetados pela desigualdade de poder – como os dissidentes da heterossexualidade (homossexuais, no termo que ela emprega), negros e não-europeus. O opressor cria e controla o discurso da separação do outro, atribuindo a si características vantajosas sob o manto da neutralidade, enquanto ao outro resta “a ‘diferença’ [...] sempre em detrimento do diferenciado” (D’Eaubonne, 2025, p. 24). Esse sistema perpassa as diferentes estruturas da sociedade para assegurar o bem-estar material e mental de quem, na verdade, é uma minoria de homens.
Diante dos problemas ambientais que passaram a ganhar atenção nos anos 1970, como a poluição, a degradação ambiental, o crescimento populacional e a concentração de pessoas nas cidades, D’Eaubonne compreendeu também que a questão ambiental deve ser uma preocupação do movimento feminista, e que seria necessária uma transformação da sociedade no sentido de desmantelar o poder dos homens patriarcais. O feminismo, afirma a autora, “é a humanidade inteira em crise, é a mudança de pele da espécie; é verdadeiramente o mundo que vai mudar de pele” (D’Eaubonne, 2025, p. 10). Por isso, o feminismo deve extrapolar as questões humanas e se tornar um ecofeminismo, isto é, uma revolução que exige uma mutação na sociedade não apenas para favorecer todas as mulheres, mas para garantir um futuro para o planeta: “não se trata mais de bem-estar, mas de necessidade; não de uma vida melhor, mas de escapar à morte; e não de um ‘futuro mais justo’, mas da única possibilidade, para a espécie inteira, de AINDA TER UM FUTURO” (D’Eaubonne, 2025, p. 171, destaque do original).
Apesar de, desde os anos 70, d’Eaubonne ter reivindicado que não há futuro possível que não seja ecofeminista, ainda querem nos convencer de que temos de esperar para que certas pautas sejam priorizadas coletivamente. A autora já diagnosticava esse problema nos movimentos sociais de esquerda daquele período, quando se tentava convencer as mulheres de que haveria uma “luta principal” (a de classes) a ser colocada em primeiro lugar e que, por isso, as questões feministas eram uma “luta secundária” (a dos sexos, que se desvia do objetivo principal) (D’Eaubonne, 2025, p. 114). Naquele contexto, os temas da exploração das mulheres no trabalho reprodutivo gratuito, da dupla jornada de trabalho, da desigualdade salarial, da desvalorização das funções produtivas já executadas por mulheres, da violência contra as mulheres, da falta de liberdade e de autonomia reprodutiva eram, para os movimentos revolucionários, pautas secundárias. Mas, de fato, ainda não estamos esperando que essas pautas se tornem centrais nas lutas democráticas até hoje?
Françoise d’Eaubonne destaca, assim, a resistência, nas sociedades patriarcais, à verdadeira libertação das mulheres – envolvendo liberdade sexual e reprodutiva, de escolha profissional, entre outros aspectos – da condição de termos nossas vidas e interesses subordinados a outras questões que seriam prioritárias. Como analisou a autora, os países que passaram pelo socialismo “ou mantiveram o sexismo, ou reduziram uma parte dele sem o reconsiderar” (D’Eaubonne, 2025, p. 115). Ora, já não esperamos o suficiente? No entanto, esses discursos ainda se fazem presentes hoje, nas tentativas de rotular os feminismos como movimentos identitários que supostamente desestabilizariam lutas que requerem uma união atrelada à hierarquização de pautas. Ainda vamos pedir que as mulheres esperem enquanto continuam a ser vítimas de estupros coletivos?
Há uma promessa de liberdade, autonomia e igualdade que nunca chega. É a espera que já se impõe às mulheres há muito tempo. Se espera sempre sua contribuição, à medida que espaços pontuais vão sendo alcançados aqui e ali, enquanto as mudanças estruturais necessárias à plena existência de mulheres e de outras minorias sociais e políticas ainda permanecem em segundo plano. Nesta lógica patriarcal de hierarquização das lutas, podemos nos perguntar quem sempre se beneficia mais por estar no topo das hierarquias. Quem tem o poder de organizar as lutas de maneira hierárquica, definir quem fica em primeiro plano e quem em último lugar? Nessa lógica, em que posição se encontram os iminentes desastres climáticos que afetam desproporcionalmente crianças e mulheres negras? Como a intensificação dos efeitos da crise climática está sendo abordada na esfera pública? É essa perspectiva de hierarquização das lutas que o ecofeminismo interseccional confronta. Não há tempo para secundarizar as lutas contra a transfobia, o racismo, o capacitismo, o especismo, o naturismo – para citar alguns dos ‘ismos’ de dominação apontados pela filósofa ecofeminista Karen Warren (2000) como parte de uma mesma lógica da dominação que nos trouxe até aqui.
Enquanto lutas pelas condições de igualdade forem consideradas de maneira hierárquica e separada, fornecemos as bases para a distração, que nos afasta da derrocada da lógica da dominação capitalista, desenvolvimentista e colonialista, que tem cada vez mais empurrado para a morte humanos e não humanos. Lançado em 2023, o Relatório Síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (The Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC) aponta que, em certos ecossistemas, há perdas substanciais em curso, praticamente irreversíveis, com mortalidade em massa, na terra e no oceano, de espécies por extremos de calor. Já extrapolamos o tempo de olhar para as questões ambientais e para a vida de outros seres vivos, de forma secundária.
Em vez de estruturar as lutas de maneira hierárquica, é preciso pensar em estratégias de construção de alianças e de formação de movimentos de coalizão para a resistência e resiliência climáticas. D’Eaubonne também já apontava para a importância de construir alianças tendo em vista a formação de plataformas de luta de libertação. O feminismo decolonial de Maria Lugones propõe a formação de coalizões para uma práxis libertadora das relações de opressão dualistas constituídas no seio da colonização: “É o movimento rumo à coalizão o que nos impulsa a conhecer uma à outra como entes que são densos, relacionais, em socialidades alternativas e alicerçadas nos lugares tensos e criativos da diferença colonial”. (Lugones, 2014, p. 942). Malcom Ferdinand, ao delinear os contornos da ecologia decolonial, também aponta para a importância de promover políticas de encontro com o outro para construir um ‘navio-mundo’ ecológico em que todos possam habitar juntos em condição de igualdade. Esse encontro é uma abertura para o outro e para suas vivências, reconhecendo-o como um companheiro de bordo, cujo horizonte é construir um mundo em comum. Nesse contexto, o autor destaca a relevância das ‘alianças interespécies’, “que contribuam para fazer da causa animal, das lutas antirracistas, anticoloniais e feministas um problema comum a todos” (Ferdinand, 2022, p. 238).
O ecofeminismo, como um movimento de enfrentamento aos dualismos hierárquicos de valor e à lógica da dominação, representa essa abertura para a aprendizagem relacional, colocando a interdependência entre as formas de vida humanas e não humanas e uma ética do cuidado no centro da compreensão do outro e de sua realidade complexa. Com isso, é possível ampliar nossa sensibilidade e entendimento para juntar-nos ao(a) outro(a) na luta, que também é de cada um(a).
Referências
D’EAUBONNE, Françoise. Feminismo ou morte. Trad. Anna Bracher. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2025.
FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Trad. Letícia Mei. São Paulo: Ubu, 2022.
LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, p.935-952, set./-dez., 2014.
WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy: A Western Perspective on What It Is and Why It Matters. Lanham: Rowman & Littlefield, 2000.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.