Especial 8M - Susan Stebbing e as possibilidades para o ensino de Lógica
Yasmim de Queiroz Silveira
Mestranda em Filosofia na UFRJ; pesquisadora da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres na Filosofia, Ciências e Cultura
25/03/2026 • Coluna ANPOF
Em parceria com GT Mulheres na História da Filosofia da Anpof
Podemos falar em uma “mãe”[1] da filosofia analítica? Usualmente, os manuais de reconstrução destacam as grandes descobertas e feitos de autores homens como Frege, Russell, Wittgenstein e Whitehead enquanto as mulheres, por muitas vezes, são colocadas em notas de rodapé. Nesse contexto de apagamento e redescobertas, podemos citar a autora Susan Stebbing e suas contribuições tanto para o que conhecemos atualmente como Filosofia Analítica quanto para a Lógica.
Stebbing foi uma figura relevante no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Um de seus trabalhos mais significativos foi A Modern Introduction to Logic (1930), no qual apresenta aos leitores o desenvolvimento da Lógica. Sua concepção de Lógica era a de que o pensamento lógico tem como objetivo responder a uma pergunta ou resolver um problema. Para isso, seria necessário identificar e articular as premissas de modo que, por meio de uma argumentação válida, fosse possível chegar a conclusões relevantes. Assim, pode-se perceber que o raciocínio opera de acordo com princípios lógicos e apresenta determinadas formas de inferência. Desse modo, um dos objetivos da Lógica é articular e explicitar essas formas de inferência.
De acordo com Michael Beaney e Siobhan Chapman (2026), o trabalho de Stebbing pode ser compreendido como o desenvolvimento de uma filosofia pública, pois ela se dedicou a mostrar que os princípios da Lógica poderiam ser aplicados a problemas e questões da vida cotidiana. Desse modo, a autora apresentava textos e os analisava a fim de identificar possíveis falhas de raciocínio. Em outras obras, como Logic in Practice (1934) e Thinking to Some Purpose (1939), utiliza exemplos tanto de campanhas políticas quanto de notícias de jornais para evidenciar argumentos confusos e mostrar como a propaganda é frequentemente empregada como instrumento de persuasão.
O apagamento ao qual Susan Stebbing foi submetida é um pouco diferente de tantos outros apagamentos que já aconteceram no decorrer da história, porque o seu trabalho foi reconhecido durante a sua vida. Segundo Coliva e Douglas (2026), a autora passou por um processo de marginalização historiográfica no qual seus trabalhos foram deixando de ser mencionados nos livros de Filosofia Analítica. Os autores atribuem o apagamento a fatores tanto filosóficos quanto sociais. Entre os fatores filosóficos, destacam que o declínio da análise como campo de interesse para os filósofos analíticos após 1930 provavelmente diminuiu a atenção dedicada ao trabalho da autora, uma vez que ela tratava justamente da natureza e do papel da análise.
Além disso, por ser mulher, teve acesso limitado à educação. Na época, mulheres não podiam colar grau em Cambridge nem lecionar na instituição, o que fez com que precisasse buscar outros lugares para concluir seus estudos e exercer a docência. Isso pode ter contribuído para que não exercesse tanta influência quanto alguns de seus colegas, já que Cambridge era um importante centro da Filosofia naquele período. Neste breve texto, não queremos destacar as suas contribuições na Filosofia Analítica, e sim no ensino de Lógica. A ideia é explorar como seu livro pode ter um impacto positivo no ensino de Lógica na educação básica.
Em várias partes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018), podemos encontrar a menção ao exercício pleno da cidadania por parte dos educandos. Embora não seja tão explorado o que significa ser um cidadão, isso não nos impede de pensar sobre o que constitui um cidadão numa sociedade considerada democrática. Talvez uma primeira resposta seja a possibilidade de pensar de maneira efetiva para a tomada de uma decisão. Mas, não podemos ser ingênuos e acreditar que pensar com um propósito é uma atividade simples e sem armadilhas. Nesse contexto, o livro Thinking to some purpose escrito em 1934 ainda tem muito a dizer sobre os obstáculos que se apresentam no nosso dia a dia.
Quando consideramos as competências gerais da BNCC, percebemos que todas as disciplinas têm como propósito não só contribuir para o desenvolvimento pleno da cidadania, mas também contribuir com algumas habilidades como o exercício da curiosidade intelectual, a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação, a criatividade e a argumentação com base em dados. No entanto, podemos considerar, como menciona a autora bell hooks (2010), que somos ensinados que a educação é um dos caminhos para a liberdade, mas que, ao longo do caminho, a paixão das crianças pelo pensar acaba sendo sufocada por um mundo que as ensina para a conformidade e para a obediência.
Dessa maneira, pensamos ser relevante explorar o manual de Susan Stebbing, porque a autora se preocupa com o nosso fracasso em pensar, que pode ser consequência de vários fatores; além disso, a autora cita alguns obstáculos que nos impedem de pensar de maneira efetiva e com um propósito em mente. Não é possível agir prudentemente sem antes parar e pensar sobre como agir e nem porque se deve agir de determinada maneira. Mas o processo de pensar é complicado e estamos sempre rodeados de muitas informações fáceis de serem digeridas sem grandes questionamentos. O manual não tem por objetivo oferecer uma solução universal sobre como pensar, mas nos oferece possibilidades para pensar o ensino por meio da Lógica.
Isso porque, segundo Velasco (2010): “O ensino da Lógica pode propiciar ao educando a descoberta da possibilidade de pensar sobre o próprio pensar de forma organizada e encadeada – sistematizando as explicações, opiniões, crenças”. (Velasco, 2010, p. 151). Embora Stebbing não considere que o estudo de Lógica seja o suficiente para nos capacitar para raciocinar corretamente e nem pensar claramente sobre nossas crenças mais queridas, a autora destaca existir algo como o hábito do raciocínio correto que pode ser aprendido por meio da utilização dos princípios lógicos do raciocínio válido, de modo a testar a validade de um argumento.
Entre os diversos obstáculos mencionados, destacamos principalmente propaganda, falácias e verificação de informações confiáveis, pois vivemos em um momento em que o avanço da inteligência artificial e o aumento de notícias falsas propagadas nas redes sociais fazem com que a linha entre o real e o irreal pareça obscurecida. Por isso, é importante ao menos debater com os alunos como verificar se um argumento é válido, como reconhecer falácias e de que maneira as propagandas funcionam como ferramentas de persuasão que não necessariamente se preocupam com a veracidade das informações que compartilham nas redes.
Conforme ouvimos ou vemos frequentemente, certas palavras que expressam uma afirmação, podemos aceitá-la como verdadeira sem pensar muito a respeito. De acordo com Stebbing, os publicitários se aproveitam dessa tendência comportamental e exploram o poder de repetir afirmações de modo a influenciar o comportamento e propagar crenças. E em relação às propagandas que aparecem nos jornais, a pergunta que fica é até que ponto podem nos ajudar realmente a formar opiniões bem fundamentadas. Stebbing considera que a maior parte dos jornais não procura educar as pessoas que consomem as notícias. Se considerarmos os jornais mais populares, toda a estrutura da notícia, os apelos às emoções, sensacionalismos e repetições de afirmações parecem ter o propósito de alcançar uma resposta específica dos leitores.
A possibilidade de pensar sobre o próprio pensar, sistematizar crenças e pensar de maneira efetiva com propósito podem contribuir para que todos reflitam sobre as notícias que são transmitidas por meio de algumas perguntas como: quais são as informações que estão sendo omitidas? E quais são os meios que estão sendo utilizados para que os consumidores tenham uma visão distorcida dos fatos? Para enfrentar os obstáculos que surgem, é necessário revisar mentalmente nossos hábitos de pensamento, bem como buscar razões que sustentem nossas crenças e submeter nossas suposições a um exame crítico rigoroso. Pensar de modo efetivo é sempre pensar com e para um propósito, o que envolve formular perguntas e procurar respostas para elas. Como ressalta a autora, uma questão, quando elaborada de maneira genuína, requer uma resposta. Estar pensando sobre algo implica estar em um estado mental questionador, sendo uma condição necessária e suficiente para isso sentir-se intrigado em relação a algo ou a determinado tema.
O cenário retratado pela autora indica que frequentemente as pessoas se mostram impacientes diante da simples sugestão de que suas crenças podem ser insustentáveis. Diante disso, ela propõe que se questione o processo pelo qual se chegou a determinada crença. Como pensamos com toda a nossa personalidade, emoções intensas, como amor, ódio e lealdade, podem obscurecer nosso julgamento; por isso, é necessário dedicar um momento de pausa para refletir sobre essas crenças. Uma forma produtiva de fazê-lo é compará-las com as posições de quem discorda delas. Ao examinar uma crença, é importante avaliar se ela realmente se sustenta, e o ato de formular perguntas pode ajudar a esclarecer a mente, afastando distorções causadas por emoções, preconceitos, ignorância e persuasão.
Por fim, a visão que a autora tinha sobre o papel dos professores era de que tinham de transmitir conhecimento e criar hábitos que permitissem aos seus estudantes procurar conhecimento por conta própria e conseguir formar seu próprio julgamento baseado em fundamentos racionais. Sabemos não existir um consenso sobre o lugar da Lógica na sala de aula, de todo modo, como professores e futuros professores, é importante discutir formas de contribuir para o exercício da cidadania dos nossos estudantes educando-os para que sejam capazes de se proteger de todas as armadilhas que possam obstruir o pensar efetivo deles.
Referências
Beaney, Michael, and Siobhan Chapman. 2026 “Susan Stebbing.” In Edward N. Zalta, ed., The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2026 Edition). https:// plato.stanf ord.edu/archi ves/ spr2026/ entries/stebbing/
BRASIL. 2018. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC.
COLIVA, A. et al. 2025. Susan Stebbing: Analysis, Common Sense, and Public Philosophy. New York: Oxford University Press.
HOOKS, Bell. 2010. Teaching Critical Thinking. New York: Routledge Taylor & Francis Group.
STEBBING, L. S. 1934. Logic in Practice. London: Methuen.
STEBBING, L. S. 1939. Thinking to Some Purpose. Harmondsworth: Penguin.
VELASCO, Patrícia Del Nero. 2010. Educando para a Argumentação: contribuições do ensino da lógica. Belo Horizonte: Autêntica Editora.
Nota
[1] É comum encontrarmos a expressão founding fathers para se refererir aos percursores e pioneiros da área, mas o mesmo não ocorre com a expressão founding mothers.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.