Especial 8M - Dez anos da Primavera das Filósofas: a indignação é o que nos move
Camila Kulkamp
Doutora em Filosofia pela UFSC
03/04/2026 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofia e Gênero da Anpof
Dez anos se passaram do início da Primavera das Filósofas, e a pergunta “existem mulheres filósofas?” já não circula com a mesma naturalidade. As exclusões explícitas tornaram-se publicamente constrangedoras. Mas não nos enganemos, o problema não foi superado. Se antes a exclusão se manifestava na desqualificação aberta, no deboche e no assédio sexual naturalizado, hoje ela se apresenta de outras maneiras. Há formas de “reconhecimento” que admitem nossa presença, mas tentam regular seu alcance, restringir nossa autoridade e circunscrever o lugar a partir do qual podemos ser tomadas como referência.
Os dados de Carolina Araújo (2015, 2019) são implacáveis. No topo da carreira acadêmica brasileira, onde se concentram prestígio e poder decisório, os homens ocupam a esmagadora maioria das posições. Pesquisa recente mostra que eles orientam 2,5 vezes mais homens do que mulheres (ARAÚJO et al., 2025). São eles que definem linhas de pesquisa, escolhem bibliografias, compõem bancas, decidem financiamentos e autorizam o que conta como referência.
Nesta última década, porém, nossa presença deixou de ser tolerada apenas como professoras ou alunas. Começamos a ser admitidas como autoras de obras filosóficas. Mas até que ponto o aumento da visibilidade da luta das mulheres tem se traduzido em acesso ao topo da carreira? Os dados de Araújo vão até 2017; o que aconteceu depois, durante os anos de maior efervescência da Primavera, ainda não foi mensurado. Mas sabemos que, mesmo quando reconhecida, nossa presença vem acompanhada de cláusulas implícitas. A esse fenômeno proponho chamar de [reconhecimento condicionado], e é sobre ele que quero refletir aqui, como forma de interpretar padrões recorrentes no campo.
A primeira narrativa é a de que “as mulheres já conquistaram seu lugar ao sol”. Parece um elogio, mas é uma armadilha. A frase não descreve apenas uma conquista, mas demarca um território e expressa uma [concessão]. Parte do pressuposto de que o espaço era originariamente de alguém e que recebemos autorização para ocupá-lo. Nossa presença deixa de ser correção de uma injustiça histórica e é interpretada como uma abertura concedida. Nesse enquadramento, somos toleradas, mas não constitutivas da tradição filosófica.
A narrativa ganha ambiguidade quando perguntamos de que mulheres se fala. A pressão organizada das feministas tornou a inclusão de mulheres uma exigência incontornável e constrangeu o campo a responder. Mas o que se vê, muitas vezes, é um deslocamento sutil, em que se reconhece a necessidade de incluir mulheres, sem que isso implique o acolhimento das filosofias feministas que tornaram essa inclusão inevitável. Nossa presença pode ser “celebrada” como indicativo de pluralidade, enquanto as críticas feministas são recebidas como excesso. Essas tensões não se distribuem igualmente entre nós e atingem de forma distinta mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+ e com deficiência.
Essa lógica de concessão pode vir acompanhada de uma segunda tática, a [neutralização do conflito]. Se a primeira diz “permitimos que vocês entrem”, a segunda completa: “agora parem de reclamar”. Repetir que o lugar já foi conquistado tenta desarmar a crítica, insinuando que a desigualdade é coisa do passado. A consequência é perversa, pois a denúncia passa a soar como ressentimento. Já não nos excluem; afirmam que não há mais o que excluir. O conflito foi apenas deslocado, da exclusão para nossa insistência em apontá-la.
Esse padrão também está presente na linguagem da avaliação. É o que se vê na distribuição dos elogios, uma [hierarquização simbólica]. Filósofos são descritos como geniais; a eles, o vocabulário da invenção. Às filósofas atribui-se consistência e dedicação, palavras que situam nosso trabalho no registro do esforço. A diferença pode parecer retórica, mas é essa sutileza, repetida mil vezes, que organiza uma hierarquia persistente.
Quando não há elogio, mas suspeita, entra a [acusação de fragilidade]. Nosso trabalho seria menos robusto, soft, temático demais ou identitário, como se falar de um lugar fosse defeito e não condição de qualquer pensamento. A mensagem é cristalina, há um jeito certo de fazer filosofia, e o nosso não é. Mesmo com trabalhos extraordinários, a pergunta não é “o que essa obra nos ensina?”, mas “isso é filosofia de verdade?”.
Esses mecanismos também se manifestam na [distribuição desigual da responsabilidade]. Quem passa horas identificando passagens misóginas nos clássicos? Quem questiona bancas, currículos? Nós, mulheres feministas. Homens se engajam, mas a exceção não desfaz a regra. O trabalho de problematizar a desigualdade ainda é visto como “interesse particular”. Enquanto somos convocadas a justificar a pauta, outros permanecem na “neutralidade”, beneficiando-se das estruturas sem interrogá-las.
Quando a responsabilidade se concentra em poucas vozes, surgem as [interlocuções assimétricas]. Há dias em que a interlocução simplesmente não acontece, o artigo não é citado, o argumento encontra silêncio e indiferença. Há dias em que a interlocução vem tutelada e nossa fala é acompanhada por correções públicas num gesto paternalista. E há dias em que se torna hostil, com desqualificação explícita.
Nomeados esses “gestos de exclusão” (concessão, neutralização, hierarquização, suspeita, responsabilidade desigual, interlocução assimétrica), é possível perceber que eles não dizem respeito apenas à distribuição de prestígio no campo filosófico, mas à própria definição do que conta como filosofia e como a excelência filosófica é constituída.
Aqui, a análise de Janyne Sattler torna-se indispensável. Em Emaranhados de exclusões (2024), Sattler mostra como o cânone justifica sua autoridade apelando a um método que define a filosofia como exercício de argumentação racional. A argumentação vira filtro de legitimação. O problema não é a argumentação em si, mas a forma estreita como foi compreendida, e o fato de que essa racionalidade foi historicamente construída como masculina, apresentando-se, no entanto, como universal. A própria prática filosófica, marcada pelo embate, pelo “digladiar-se por um argumento”, carrega as marcas desse ideal generificado.
Essa discussão permite distinguir dois planos. De um lado, os critérios de legitimação, que definem se um trabalho pertence ao campo filosófico. De outro, parâmetros de centralidade que organizam o que será considerado referência de uma área. Uma coisa é ter legitimidade para existir; outra é alcançar centralidade, quando uma obra passa a orientar problemas e leituras no campo.
É nesse segundo plano que se situam os [critérios implícitos de excelência], responsáveis por distinguir o que passa a contar como “grande filosofia”. Aqui, não se trata de rejeitar a excelência, mas de interrogar os critérios implícitos que a definem e estabelecem hierarquias entre formas de filosofar. Esses critérios têm história. Não são expressão natural de uma qualidade intrínseca, mas se formam em processos coletivos de reconhecimento, sustentados por narrativas historiográficas, currículos, tradições interpretativas e apoio institucional. Uma obra se torna central não apenas pelo que diz, mas pelas redes de legitimação que a envolvem. Isso ajuda a compreender por que a presença de mulheres não se traduz automaticamente em acesso às condições de centralidade no campo filosófico. Por que, então, a filosofia parece incapaz de sustentar uma pluralidade maior de formas de pensamento filosófico sem interpretá-las como perda de excelência?
A Primavera das Filósofas tem favorecido ganhos no âmbito da legitimidade, na medida em que textos escritos por mulheres passam cada vez mais a ser reconhecidos como filosóficos, e também no plano da autoridade, com a ampliação, ainda que desigual, da presença de filósofas como interlocutoras. Esse movimento, no entanto, tem encontrado resistência quando se trata de incorporar amplamente as críticas feministas que o tornaram possível. Sem dados atualizados que permitam avaliar se esses ganhos se converteram em maior presença nos espaços de poder, o que se pode afirmar é que alguns dos avanços já visíveis estão marcados por gestos de exclusão. A dissociação entre incluir mulheres e incorporar críticas feministas ajuda a compreender por que tais gestos persistem. A questão da centralidade, por sua vez, não é nova e tem sido objeto de reflexão da revisão feminista da história da filosofia, dentre outros projetos críticos. Ela aponta para um problema fundamental, que é o de interrogar quais formas de filosofar podem reorganizar o próprio campo filosófico.
Essa Primavera foi uma inflexão histórica. O desafio agora é impedir que esse movimento seja neutralizado, domesticado e convertido em capítulo encerrado. A continuidade da transformação depende de manter o conflito visível, sustentar a crítica e recusar a narrativa confortável de que já chegamos lá.
Celebremos estes dez anos. Mas que a celebração não seja confundida com encerramento. Sustentar a Primavera é reconhecer que a tarefa coletiva permanece em aberto. E que nossa indignação, longe de ser excesso, continua sendo uma das forças que movem essa transformação.
Referências
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ARAÚJO, Carolina. Mulheres na Pós-Graduação em Filosofia no Brasil – 2015. São Paulo: ANPOF, 2016. Disponível em:<https://anpof.org.br/forum/mulheres-na-pos-graduacao-em-filosofia-no-brasil/mulheres-na-pos-graduacao-em-filosofia-no-brasil>. Acesso em 01 Março 2026.
ARAÚJO, Carolina. Quatorze anos de desigualdade: mulheres na carreira acadêmica de Filosofia no Brasil entre 2004 e 2017. Cadernos De Filosofia Alemã: Crítica E Modernidade, 24 (1), 13-33, 2019.
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RODRIGUES, Carla. A filosofia (brasileira) não é feita só por homens. COLUNA ANPOF, 2016. Disponível em: < https://www.anpof.org/comunicacoes/coluna-anpof/a-filosofia-brasileira-nao-e-feita-so-por-homens2> . Acesso em 01 Março 2026.
SATTLER, Janyne. Emaranhado de exclusões: o cânone, o argumento e a disputa – notas para um entendimento. In: PUGLIESE, Nastassja; SECCO, Gisele; OLIVEIRA, Bernardo. Vozes: Mulheres na história da filosofia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2024.
WILKE, Valéria Cristina Lopes. Quantas somos? Onde estamos? – Um olhar lançado sobre a evolução da formação de filósofas graduadas, entre 2000 e 2016, no Brasil. Problemata: Revista Internacional de Filosofia, João Pessoa, v. 11, n. 3, p. 233-257, 2020.
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