GAZA SOMOS NÓS!
Marcelo Martins Barreira
Professor do Departamento de Filosofia da Ufes
12/08/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofia da Religião da Anpof
Sob o impacto de mais um ataque terrorista da máquina de guerra do Estado sionista de Israel, o título desse texto evoca uma necessária luta universal contra o colonialismo. Aparentemente, juntar as ideias de “universalidade” e “pós-colonialismo” numa única afirmação seria logicamente contraditória, pois tais ideias evocariam significados antitéticos entre si. A universalidade em sentido muscular e metafísico é colonialista e violenta. Vemos isso na hegemonia midiática dos lobbies sionistas no mundo inteiro. Eles participam de uma universalização exclusivista do discurso sionista acerca da legitimidade e “factualidade” de suas guerras.
Discurso assimilado convenientemente por setores rentistas e cristãos fundamentalistas de ultradireita como forma de se perpetuarem e avançarem o atual domínio político-ideológico, cujo horizonte é o neofascismo; crescente em vários países, em especial, nos Estados Unidos, o maior aliado de Israel. Constatou-se essa assimilação discursiva na comitiva brasileira de gestores municipais que foram, do dia 17 ao 19 de junho de 2025, à Feira de Inovação e Tecnologia Urbana Expo Muni 2025, uma feira da indústria israelense de tecnologia de vigilância. Uma “viagem de estudos” para não só reproduzirem a mesma lógica genocida na segurança pública no combate à nossa “Gaza” e aos nossos “palestinos” que vivem nas periferias das grandes cidades, mas também para propagandearem a ideologia sionista em nosso país.
Nossa posição, contudo, contrapõe-se à violência de um conceito metafísico de universalidade. A universalidade é aqui entendida no horizonte semântico de uma hospitalidade linguística e intercultural, como referência ricoeuriana de hospitalidade interconfessional. Tal hospitalidade linguística traz uma dimensão utópica ante o que seria a capacidade infinita, horizontal e dinâmica de um acolhimento plural de culturas e religiões, a exemplo de uma imaginável tradutibilidade entre as diversas línguas na capacidade de cada uma delas em traduzir qualquer outra numa recriação enriquecedora de suas significações desde um pressuposto valorativo da igual potência expressiva de cada língua em sua diferença; numa utopia contrária à aposta de empobrecimento na produção de traições semânticas entre elas. Tal universalidade parte, porém, de um contexto e de uma história, exatamente como oportunidade de sua tradução/recriação universais. Assim, o título não é retórico. Nossa universalidade parte do significado histórico de Gaza para nós e nosso mundo ocidental, particularmente no tocante à nossa herança cristã.
Embora seja uma região com habitantes desde o século XV a.C., passando pela dominação de egípcios, filisteus e romanos, houve uma cristianização que se encerrou em 635, quando Gaza se tornar a primeira cidade palestina conquistada pelo exército do Califado Ortodoxo. De qualquer modo, frisemos esse cristianismo originário aí como berço de uma cultura monástica nascida no deserto da Palestina. Cultura que teve, como alguns de seus expoentes, Isaías de Gaza (370-491), que escreveu a obra "Ditos dos Pais do Deserto" sob a influência dos monges egípcios; Barsanúfio (?-c. 540), que se correspondeu majoritariamente com João de Gaza, abade do mosteiro em Merosala e cristão sofista, além de professor de Doroteu de Gaza (505-565), que escreveu o livro "Instruções sobre o treinamento espiritual".
Há, portanto, uma tradição monástica que, ao longo dos anos, plasma a herança espiritual católica e ortodoxa. Herança que, por exemplo, chega ao Mosteiro de Optina Pustyn, frequentado por Fiodor Dostoievsky. Autor que se inspirou em seus anciãos espirituais para criar alguns de seus personagens, como o Padre Zósima de Os Irmãos Karamazov e o Príncipe Míchkin de O Idiota. Esse último personagem, por sinal, influenciou o louco do anúncio paradoxal da morte de Deus no aforismo 125 de A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche. Em grandes linhas, o anúncio da morte do Deus violento das estruturas fortes da metafísica representa a decadência da cultura hegeliano-luterana, enquanto um tipo de Cristandade, na Alemanha do século XIX. Por sinal, talvez por influência dessa leitura esvaziante do ser divino, o perspectivismo nietzschiano se tornaria, para Gianni Vattimo, referência conceitual para a guinada hermenêutica contemporânea; afinal, num fragmento de 1886/87, Nietzsche escreve que “fatos” são interpretações; não só: mesmo esse diagnóstico seria uma construção interpretativa.
Seja como for, em oposição a um cristianismo originário, o cristianismo muscular da Cristandade se tornou referência para o espírito da cruzada fundamentalista contra os ditos “infiéis”. Assim, ao se referenciar em Gaza para compreendermos nosso “futuro ancestral”, de acordo com a célebre expressão de Ailton Krenak, temos como escopo questionarmos a lógica colonialista e pró-sionista subjacente ao maior evento popular evangélico no mundo, a chamada 32ª. Marcha para Jesus na cidade de São Paulo e ocorrida em 30 de maio de 2025, cuja perspectiva muscular se expressou no tema dessa sua edição: “Jesus, Deus Forte”.
De maneira explícita, a metafisica religiosa de um Deus da guerra à la Donald Trump e Benjamin Netanyahu, idolatrada na marcha, contrasta o ethos de uma universalidade hermenêutica do cristianismo palestino. Detalhe, exatamente por isso nos cabe o cuidado de se abrir o seguinte parênteses: dizer que Gaza é nosso futuro ancestral não significa sublinhar essa sua herança cristã; ao inverso disso, frise-se uma abordagem dialogante e deflacionada de um estreito vínculo histórico do Ocidente desde a sua raiz oriental. Daí o equívoco histórico, no tocante a esse cristianismo frágil e precário, de uma manifestação da força fundamentalista evangélica de defesa do colonialismo sionista de Israel. Daí que Gaza simboliza paradigmática e universalmente uma luta pós-colonial, que em nosso país significa discordar do sionismo e sua aliança sagrada com o cristofascismo, ambos islamofóbicos e destrutivos diante das conquistas advindas pela tradição dos direitos humanos, influenciada pelo cristianismo em suas origens contratualistas.
Ressalte-se, ainda, que, embora a religião islâmica seja universal, ela adquire inevitavelmente, como outras religiões universais, contornos étnicos e político-institucionais. A orientação sunita da religião islâmica em Gaza comprova isso com um agravante: o papel do Hamas. “Hamas” significa “resistência islâmica” e se configura numa organização político-militar que governa, como partido único e fundamentalista, a Faixa de Gaza desde a vitória eleitoral de 2006 e a posterior guerra civil com o Fatah em 2007. Logo, o fundamentalismo islâmico do Hamas não é exemplo para o que propomos como universalidade hermenêutica, ao inverso do povo palestino na Faixa de Gaza. O ponto central dessa nossa pensata é apenas o de compreender o extermínio desse povo por Israel como um grito e apelo universalizante de combate ao colonialismo em prol de uma radicalização democratizante; tecnicamente, leia-se filosoficamente essa defesa como uma chamada à abertura hermenêutica do processo histórico e religioso.
O colonialismo é o novo nome da interseccionalidade de gênero, classe e raça, envolvendo e sintetizando o conjunto de lutas contra as injustiças socioambientais e demais opressões. A luta política pós-colonial nos exige mobilizarmos afetiva e efetivamente ante a demanda universal por solidariedade do povo palestino em Gaza. Nesse sentido, os palestinos de Gaza materializam o não-lugar antagônico à ordem burguesa. Eles são o outro-selvagem. Os palestinos de Gaza são como “animais humanos” para o sionista Yoav Gallant, ministro da Defesa de Tel Aviv. Logo, ao ser um outro universal, Gaza é o nosso Zeitgeist enquanto sinal, resto e traço internacional de solidariedade perante os crescentes discursos de ódio, frequentemente de vieses religiosos. Portanto, para se combater o colonialismo sionista e todos os fundamentalismos, é imperativo hermeneuticamente que também nós ocidentais nos vejamos desde Gaza.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.