Lívio Barreto Xavier e a Enciclopédia: 90 anos da primeira tradução de Hegel em língua portuguesa

Francisco José da Silva

Professor Adjunto do curso de Filosofia e do Mestrado Profissional em Filosofia da Universidade Federal do Cariri (UFCA)

25/02/2026 • Coluna ANPOF

A Enciclopédia das Ciências filosóficas em compêndio (1817-1830) do filósofo alemão G.W.F. Hegel (1770-1831) é uma obra importantíssima da tradição ocidental, pois nela encontramos uma síntese especulativa dos principais temas abordados na monumental produção filosófica do pensador de Stuttgart.

Neste ano de 2026 comemoramos os 90 anos da primeira tradução de Hegel em língua portuguesa, a Enciclopédia das Ciências filosóficas em compêndio, realizada pelo cearense Lívio Barreto Xavier (1900-1988) e publicada em 1936 pela editora Athena. Esse trabalho pioneiro garantiu para nós uma versão completa dos três volumes da Enciclopédia.

Lívio Xavier, sua vida e legado

Lívio Barreto Xavier nasceu em 25 abril de 1900 na cidade de Granja (CE), zona norte cearense. Foi um dos 13 filhos do casal Elisa Barreto Xavier e Ignácio Xavier, conhecido como “coronel”. Granja é a cidade de origem do grande poeta cearense Livio Barreto (1870-1895), considerado o maior poeta simbolista do Ceará, autor do livro Dolentes (1897), o qual ajudou a fundar o importante movimento literário chamado Padaria Espiritual. Livio Xavier foi seu sobrinho.

Lívio aprendeu os primeiros conhecimentos de escrita e leitura por conta própria aos quatro anos. Foi um leitor voraz, ficando conhecido como “o pequeno Rui” devido sua fome de leitura, herdada de sua mãe. Leu na juventude os portugueses Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Júlio Diniz, Camilo Castelo Branco, e, entre os brasileiros, José de Alencar, Manoel Maria de Macedo, Olavo Bilac, Coelho Neto, João do Rio, Júlia Lopes de Almeida e Rocha Pombo.

Após cursar os primeiros estudos em Granja e em Fortaleza, mudou-se para o Rio de Janeiro, lá fez o preparatório para a Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, concluindo em 1924. Em 1927 filia-se ao PCB. No final dos anos 20, correspondendo-se com Mário Pedrosa (que residia na Alemanha), tornou-se o principal interlocutor da oposição de esquerda no Brasil, ao lado de Rodolpho Coutinho. Fundou com outros companheiros os grupos comunistas Lenine e a Liga Comunista Internacionalista, dos quais se afastaria abandonando a militância partidária em 1935. Por decisão pessoal de Trotsky, Lívio Xavier tornou-se responsável pela edição de suas obras no Brasil.

A primeira tradução de Hegel no Brasil

Uma das principais atividades de Livio Xavier foi a tradução. No campo da filosofia destaca-se como o primeiro tradutor de Hegel para a língua portuguesa, vertendo em 1936 os três volumes da Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, publicada pela editora Athena (provavelmente a partir da tradução espanhola de Eduardo Ovejero y Maury de 1918).

A Enciclopédia das Ciências filosóficas em compêndio (1817-1830) é uma obra importantíssima, pois sintetiza de forma densa e concisa todo o sistema maduro do filósofo de Stuttgart, compreendendo a Lógica, a Filosofia da Natureza e a Filosofia do Espírito, cada uma delas em seus meandros e especificidades, ampliando os ganhos especulativos já desenvolvidos na Fenomenologia do Espírito (1807) e na Ciência da Lógica (1812). 

No Prefácio à sua tradução, Lívio reconhece a importância da filosofia de Hegel no âmbito do pensamento moderno “Com o idealismo absoluto de Hegel a filosofia clássica allemã deu o seu produto mais perfeito, a sua última construcção systemática. O systema de Hegel é o mais completamente teleológico que jamais houve (L.Herr) e é ao philosopho somente que é inteligível o espirito mysterioso do mundo – mera transposição da providencia religiosa” (HEGEL, 1936, p.V).

Apesar deste reconhecimento e elogio, Lívio replica a crítica marxista ao filósofo da Enciclopédia, ao considerar que seu sistema mistifica a dialética e inverte a ordem das razões. Para ele, Hegel tem uma importância fundamental, mas precisa ser corrigido no modo como entendeu a relação entre racional e real. Como enfatiza: “Apesar da mystificação que sofreu a dialectica nas mãos de Hegel, é necessário notar que é ele o primeiro que lhe expoz as formas geraes de desenvolvimento de um modo completo e consciente. Em Hegel a dialectica está colocada de cabeça para baixo: é preciso invertel-a para descobrir-se o núcleo racional sob as roupagens mysticas (HEGEL, 1936, p.V)

Livio traduziu ainda O Príncipe e Escritos Políticos de Maquiavel, sua tradução de O Príncipe é uma das mais usadas em inúmeras e sucessivas reedições[1], além disso traduziu a Ética de Espinosa (Athena), Minha Vida de Trotsky (Paz e Terra, 1978) e muitos outros.

Mestre da crítica literária no jornalismo, publicou os livros Infância na Granja (obra autobiográfica), Dez Poemas (poesias), o Elmo de Mambrino (coletânea de críticas, que lhe fez ganhar o prêmio jabuti de 1976, na categoria de estudos literários) e Tempestade sobre a Ásia (abordando problemas da revolução nos países asiáticos) publicada em 1934 (sob o pseudônimo de L. Mantsô).

Lívio Xavier faleceu em 1988 (aos 88 anos) em São Paulo, deixando um importante e profundo legado para o pensamento marxista, para a crítica literária e contribuindo com suas traduções para o conhecimento de autores fundamentais da Filosofia, como foi o caso de sua tradução pioneira da Enciclopédia de Hegel.

Na final do século XX, outros dois cearenses, os jesuítas Paulo Meneses e José Machado, empreenderam uma nova tradução da Enciclopédia em três volumes (desta vez diretamente do original em alemão), facilitando assim o acesso a obra hegeliana e aprofundando ainda mais as pesquisas da filosofia hegeliana no Brasil.


Referências

BAVARESCO, Agemir e KONZEN, Paulo Roberto. Panorama Histórico da Recepção de Hegel no Brasil. In: UTZ. K. Sujeito e Liberdade: Investigações a partir do Idealismo Alemão. Porto Alegre, Edipurcs, 2012.

CHACON, V. A recepção de Hegel em Portugal e no Brasil. In: ROSENFIELD, D. Hegel, a moralidade e a religião. RJ, Jorge Zahar, 2002 (Filosofia Política, série III, n.3).

HARDEN, T. Filosofia e tradução: o caso especial do alemão. In: Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 2, p. 16-31, mai-ago, 2018.

HEGEL, GWF. Wissenchaft der Logik I (Werke 5). Frankfurt am Main, STW, 1986.

____ Enciclopedia de las ciencias filosóficas (3 vols). Traduccion Eduardo Ovejero e Maury, Madrid, Librería General de Victoriano Suárez, 1917-1918.

____ Enciclopédia das Ciências filosóficas. Tradução Lívio Xavier, RJ, Athena, 1936.

____ Enciclopédia de ciências filosóficas em compêndio (1830) – Ciência da Lógica. Traduzido por Paulo Meneses com a colaboração de José Machado, SP, Loyola, 1995.

____ Enciclopédia de ciências filosóficas em compêndio (1830) – Filosofia da Natureza. Traduzido por José Machado com a colaboração de Paulo Meneses, SP, Loyola, 1997.

____ Enciclopédia de ciências filosóficas em compêndio (1830) – Filosofia do Espírito. Traduzido por Paulo Meneses com a colaboração de José Machado, SP, Loyola, 1995.

____ Enciclopédia das ciências filosóficas em epitome, 3 vols. Tradução Artur Mourão, Lisboa, Edições 70.

MENEZES. D. Textos Dialéticos. RJ, Zahar, 1969.

UTZ, K; SOARES, Marly C; BAVARESCO, A. A Noiva do Espírito: A Natureza em Hegel (V Congresso da Sociedade Hegel Brasileira). RS, Edipucrs, 2010

VAZ, H.C Lima. A formação do pensamento de Hegel. SP, Loyola, 2014.


Nota

[1] Publicada por 11 editoras ou selos editoriais diferentes, tais como: Abril cultural, Agir, Atena, Ediouro, Edipro, Escala, Fundação para a leitura do cego, Nova cultural até 1999, Pocket ouro, Prestígio e Tecnoprint.


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