Na mesma tempestade, mas não no mesmo barco: Às vésperas da COP 30, o desafio da justiça climática a partir de Hans Jonas

Jelson Oliveira

Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

29/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof

Aqueles que são mais responsáveis por danificar
a atmosfera enfrentam riscos muito menores, enquanto
os maiores perigos recaem sobre aqueles que são
menos responsáveis. Esta é a injustiça das mudanças climáticas.

(Williams, 2021, p. 11).

Embora Hans Jonas nunca tenha utilizado o termo “justiça climática” em sua obra, nossa convicção é que suas teorias podem ser úteis para a abordagem desse “conceito”. A justificativa para tal afirmação pode ser encontrada, por exemplo, em uma entrevista bastante valiosa dada por Jonas em 1992, às vésperas da conferência da ONU, realizada no Rio de Janeiro entre os dias 3 e 14 de junho de 1992. Perguntado pelos entrevistadores do jornal alemão Der Spiegel, Jonas deixa transparecer algumas preocupações que se articulam com o que nós chamamos hoje de Justiça Climática. A leitura dessa entrevista, no contexto do que viria a ser aquele evento marcante no que diz respeito à luta pela preservação das condições de vida no planeta, comprova que Jonas tinha ciência e estava preocupado com as consequências efetivas da sua tese de 1979. Questionado sobre o fato de que, apesar das evidências crescentes da crise climática, a humanidade ainda não tenha promovido “uma revisão verdadeira da maneira de viver” e se isso poderia interferir nos resultados da Eco 92, Jonas se mostra bastante cético. Para ele, “quem não se encontra ameaçado diretamente não luta por uma revisão verdadeira da maneira de viver” (1992, p. 36). Essa observação revela uma das tensões centrais dos debates sobre justiça climática:  em que medida as vítimas da emergência climática estão sendo envolvidas no debate? É preciso, assim, segundo o autor, incluir no debate aqueles que vivem de perto a crise e são os primeiros a vivenciarem os seus danos.

Esse diagnóstico está diretamente ligado ao paradoxo das democracias contemporâneas. Para Jonas, os regimes democráticos estão assentados em desigualdades que produzem disparidades de responsabilidade, tanto no sentido de imputação pelos danos causados quanto na falta de disposição de governos e corporações em assumir as devidas responsabilidades. A urgência é evidente: a postergação de decisões empurra a humanidade para cenários indesejados, como o sacrifício da liberdade em nome de uma “ditadura ecológica” (1992, p. 40), governada por uma “elite desinteressada” que tomaria no futuro as decisões que os sistemas democráticos se mostraram incapazes de assumir no presente; ou, em alternativa negativa, para a eclosão de um estado de barbárie, marcado pela “irrupção de terríveis circunstâncias”, que forçaria acordos e compromissos entre os detentores de poder político e econômico. Para Jonas, a prova da ineficácia democrática é justamente a indiferença diante da gravidade já comprovada do problema, o que o leva a considerar “evidente” que apenas uma “renúncia à liberdade individual” poderia dar resposta à crise ambiental, antes que seja necessária uma renúncia à liberdade coletiva como resposta frente à calamidade total.

Essa posição aproxima-se de uma concepção processual da justiça climática, que defende a criação de novos mecanismos de deliberação, capazes de incluir ativamente os grupos mais vulneráveis nas tomadas de decisão e assegurar que os benefícios dessas escolhas sejam partilhados de modo equitativo. Como observa Tokar (2019, p. 21), as políticas formuladas para atender interesses corporativos e elites econômicas têm se mostrado ineficazes, o que torna necessária uma abordagem “de baixo para cima”, fundada na justiça epistêmica, ou seja, no reconhecimento das diferentes vozes (especialmente as mais afetadas). Nesse sentido, a justiça climática se converte em bandeira central dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil, que reivindicam voz nos processos decisórios, lembrando que os efeitos da crise recaem de maneira desigual sobre diferentes populações, muitas vezes silenciadas ou desvalorizadas em seus saberes (Souza; Oliveira; Bugalski; Vasconcelos, 2025).

Dar voz às vítimas e às populações mais vulneráveis é assumir que eles foram menos responsáveis pela geração dessa crise, mas, ao mesmo tempo, detêm saberes e práticas que podem contribuir para o seu enfrentamento. É necessário, assim, em nome da justiça, evidenciar os rostos de quem está e quem não está nessa canoa. A filósofa britância Elisabeth Cripps, por exemplo, chama atenção para o fato de que mulheres negras estão entre as mais atingidas pela emergência climática, mas elas ficam, geralmente, fora dos barcos que podem nos salvar, na medida em que suas vozes permanecem marginalizadas (2022, p. 50). É por isso que, entre tantos outros, ressalta a verdade contida nesse silêncio: “as mudanças climáticas são sobre privilégio”. Na mesma linha, Williams sustenta que compreender a crise climática exige reconhecer seu caráter racial: os maiores beneficiários da história de degradação da natureza são majoritariamente brancos e ricos. O autor denomina essa situação como “injustiça racial das mudanças climáticas” (Williams, 2021, p. 14), fruto de um racismo estrutural que remonta ao colonialismo. Trata-se de um “racismo climático” (Williams, 2021), na medida em que os grupos historicamente subalternizados são os que mais sofrem com essas situações.

Em termos globais e políticos, o problema climático tem duas faces: os países do chamado Norte global (os países ricos e industrializados) que têm, historicamente, fabricado essa crise, na medida em que seu modelo de desenvolvimento foi erguido segundo a lógica colonialista da exploração da natureza e da emissão de gases de efeito estufa; e os países do Sul global, que têm sido tratados como colônia para exploração da natureza, com populações em situação de pobreza e a natureza degradada. Isso foi acentuado por Hickel, no seu artigo para o Livro do clima, organizado por Greta Thunberg, para quem “essa crise se deve sobretudo aos países abastados do Norte global” porque “o Norte global é responsável por 92% de todas as emissões que superam os limites do planeta, definidos pelos cientistas como 350ppm de concentração de CO2 na atmosfera – nível ultrapassado em 1988” (2023, p. 310). O autor lembra ainda que os países do chamado Sul global não apenas estão dentro de seus limites de emissões, não tendo contribuído “em nada para a crise”, como também são os que registram “a imensa maioria dos danos, incluindo de 82% a 92% dos custos econômicos do colapso do clima, e de 98% a 99% das mortes associadas às mudanças climáticas”. Williams (2021, p. 25) apontou ainda que “apenas 100 empresas são responsáveis por 71% do CO? (Relatório Carbon Majors, 2017); 20 empresas estão por trás de um terço das emissões globais (The Guardian, 2019); quase dois terços do aquecimento global desde 1888 foram causados por 90 empresas (Mudança Climática, 2017)”. O perigo que nos une é o mesmo que nos separa!

Ainda na entrevista ao Der Spiegel, Jonas é interrogado sobre quais seriam as responsabilidades específicas dos países ricos do Norte Global e aquelas próprias dos países do Sul Global. Para ele, “se o tema é a modéstia e a renúncia, nos países ocidentais industrializados temos uma grande margem de manobra, inclusive um decrescimento considerável nos deixaria em um nível bastante elevado” (Jonas, 1992, p. 44), ou seja, se é preciso renunciar a esse modelo desastroso, com uma mea culpa dos países do Norte global. Jonas tem consciência de que – conforme sugere seu entrevistador - “as economias competitivas estão fundadas no crescimento” e que qualquer “crescimento do produto interno bruto significa, no geral, mais destruição e exploração da natureza” (1992, p. 44), não restando nenhuma alternativa, portanto, senão a imposição de limites ao progresso[1]. Lançando mão dos argumentos que ligam o tema da justiça climática ao decrescimento, Jonas pergunta: “Por que não é possível uma determinada estabilização da economia? Por que o produto nacional deve crescer sempre ininterruptamente?” (1992, p. 44). Para Jonas: “Não se pode ir aos necessitados e famintos desta terra com não importa qual pretensão exagerada e dizer-lhes que devem renunciar” (1992, p. 44). Para ele, dos países pobres do Sul se espera muito menos do que dos países ricos do Norte global.

Jonas reconhece que é preciso garantir às populações mais vulneráveis, condições mínimas de vida digna e isso só poderia ser alcançado com o sacrifício e o esforço das populações mais abastadas. Por isso, para Jonas, “nosso apetite pelo consumo não deve mais crescer constantemente, como tem acontecido até agora. Precisamos adotar um modo de vida mais moderado. Se não estivermos prontos para o sacrifício, haverá pouca esperança”, ele insiste (Jonas, 1988, p. 151). Isso tudo está ligado, afinal, aos limites dos recursos naturais disponíveis para patrocinar a expansão ilimitada do crescimento econômico: “a questão a ser feita aqui não é o quanto o homem ainda é capaz de fazer – nesse ponto, pode-se estar otimista com o potencial prometeico − mas o quanto a natureza pode suportar” (Jonas, 1981, p. 440). Às vésperas da COP 30, isso tudo se mostra ainda mais urgente.


Referências

Cripps, E. What Climate Justice Means and Why We Should Care. London; Dublin: Bloomsbury Continuum, 2022.

Hickel, J. Decrescimento. In: THUNBERG, G. O livro do clima. Tradução de Claudio Alves Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2023, p. 310-312.

Jonas, H. Dem bösen Ende näher. Gespra?ch mit M. Matussek und W. Kaden. Der Spiegel, 11/05/92.

Jonas, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2006.

Jonas, H. Entrevista concedida a Christine Claussen e Heinrich Jaenecke, da Revista Stern, 23 de junho de 1988.

Souza, G.; Oliveira, J.; Bugalski, L. M.; Vasconcelos, T. Frágil equilíbrio: justiça climática e responsabilidade. Caxias do Sul: EDUCS, 2025.

Williams, J. Climate change is racist: race, privilege and the struggle for climate justice. Londres: Icon Books, 2021.


Nota

[1] Sobre a crítica de Hans Jonas à ilusão do progresso, ver nosso trabalho Moeda sem efígie: a crítica de Hans Jonas à ilusão do progresso, 2023.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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