Nomear a esquerda, praticar a esquerda: um diálogo com Vladimir Safatle
Laurenio Sombra
Professor Pleno de Filosofia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
17/11/2025 • Coluna ANPOF
Na véspera das eleições de 2022, publiquei na Coluna ANPOF[1] um texto que tentava definir a prática de esquerda e apontava para o seu “desafio ontológico”. Em resumo, defendia que a esquerda se caracteriza por uma prática (mais do que por um princípio ou um ideário) de combate à desigualdade e que essa prática enfrenta, via de regra, “mundos” (redes de sentidos) consolidados que buscam manter opressões consolidadas, e é isso que suscita os enfrentamentos, muitas vezes violentos, que marcam as lutas direita-esquerda.
Por sua vez, Vladimir Safatle reformulou um livro que havia escrito originalmente em 2013, A esquerda que não teme dizer seu nome[2]. Nele, faz a sua própria definição de esquerda e, a partir dela, um diagnóstico da nossa condição atual. Tentarei elencar as principais proposições apresentadas, com as quais quero dialogar.
1) A característica mais decisiva do pensamento de esquerda é a defesa radical do igualitarismo, somada à defesa da soberania popular.
2) “Igualdade” significa ausência de hierarquia, ausência de sujeição. Quando a hierarquia impera, as diferenças só podem ser vividas como desigualdades. Nesse caso, há dominação, em que a vontade é submetida ao outro, como mando e vigilância.
3) O conceito de “liberdade individual” é uma criação espúria do liberalismo. Toda luta pela igualdade é coletiva, a luta pela igualdade é sempre a mesma luta pela liberdade.
4) Os princípios da esquerda (igualdade radical e soberania popular) devem ser inegociáveis.
5) A esquerda “morreu” porque ela não se estabelece mais nesse horizonte de radicalidade. Ela negocia demais, ela aceita administrar o capitalismo como está apenas para minorar os seus efeitos. Ela abdica de um horizonte mais amplo.
Em relação à proposta de Safatle, convergimos em um aspecto fundamental: de fato, a esquerda deve partir de um horizonte. Se ela se propõe, como defendo, a combater a desigualdade acima de tudo, esse horizonte tem de estar colocado a todo momento em sua luta política. A perda do horizonte ou a timidez em relação a ele já põe os agentes de esquerda em uma posição de retração antes que qualquer luta tenha se estabelecido.
Mas como se estabelece esse horizonte? Safatle defende a “defesa radical do igualitarismo” (p. 29) como um princípio inegociável. Mas que critério podemos evocar para essa defesa? Onde começa e onde termina o “igualitarismo” defendido por Safatle? A resposta pode parecer frustrante: não existe um princípio pronto e acabado. A história da esquerda é cheia de contradições sobre isso: lutas a favor de determinados grupos sociais que não incluem outros, lutas “universais” que não consideram a natureza etc.
Diante dessa indefinição, é fundamental que se compreenda que esse é um aprendizado histórico e contingente. Em meio a ele, sempre identificamos esquerda e direita por “semelhança de família” e por contraposição, embora sempre tenha havido zonas cinzas. Sabemos quem são os que lutam contra determinadas opressões, sabemos quem são os que desqualificam essas lutas ou, no limite, se esforçam para que essas opressões sejam mantidas ou mesmo exacerbadas. Se Marx dizia, nas Teses sobre Feuerbach, que “é na prática que o homem tem de provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a terrenalidade do seu pensamento”[3], é a prática que nos diferencia, não um conceito acabado.
A questão da liberdade individual me parece um caso exemplar. Historicamente ela foi concebida na consolidação do indivíduo burguês. Em Locke (e em todo o pensamento liberal) a liberdade esteve diretamente associada à propriedade (àquilo que Machperson chamou de “individualismo possessivo”). Não à toa, ela conseguiu se conciliar com a escravidão[4]. Mesmo na contemporaneidade, testemunhamos uma “democracia liberal” como Israel conviver, desde a sua fundação, com um processo excludente de colonização.
Mas isso não diz toda a história. Apesar das máculas do liberalismo, não abdicamos da ideia de que, para além de um coletivo, somos indivíduos que têm escolhas, religiosidade, sexualidade, ocupações, estética próprias. O grande desafio de uma luta de esquerda é, para além de ampliarmos os direitos individuais, não aceitarmos a vinculação dessa concepção com a do individualismo. A liberdade individual não pode se confundir com a propriedade privada e não pode ser justificativa para impedir a nossa necessidade fundamental de tomarmos decisões coletivas. Essa articulação (coletivo e individual) não pode gerar zonas de conflito, contradições? Certamente que sim, a não ser que tudo tente ser resolvido no “céu dos conceitos”. De novo, é a prática que dará o parâmetro da verdade. E a prática implica num aprendizado coletivo da esquerda, articular suas diferenças, enfrentar suas contradições e avançar.
Isso significa, em última instância, negociar. Não abordo aqui negociações conjunturais, táticas. O que digo é que os próprios horizontes são permanentemente negociados, já que não existe um horizonte prévio, a-histórico, estabelecido pela esquerda. Ela aprende e transforma, a cada momento, qual a sua rede de sentidos, qual o “mundo” pelo qual luta. E esse aprendizado é variado e negociado, até porque há várias “esquerdas” em ação, na periferia, nas universidades, nas comunidades quilombolas, nas lutas feministas, nos movimentos negros, entre os povos indígenas, nos movimentos LGBTQUIAPN+, nas lutas ambientais, entre os artistas periféricos, nas lutas sindicais. Até mesmo nas lutas político-partidárias, embora parcialmente obscurecidas pela própria forma da disputa liberal.
O que pode dar unidade a essas lutas, sem desconsiderar suas diferenças? Estou de acordo com aquelas(es) que entendem que a luta anticapitalista pode ser o grande fator de conjugação (e até mesmo um critério de demarcação) para as pautas que são fundamentais, em detrimento das que são superficiais, embora conjunturalmente importantes. Mas, de novo: é a prática que dirá qual o nome do adversário comum a enfrentar e do horizonte comum a se buscar. O fato é que essa prática não se conjuga sem diálogo, divergência, deliberação conjunta. Sem negociação.
Uma visão contrária a essa gera um paradoxo curioso. De um lado, ela evoca uma espécie de radicalidade intransigente que pode alimentar certa luta política – as grandes lutas políticas sempre exigiram radicalidade. Do outro lado, ela é fundada em pressuposto curiosamente idealista. E as grandes “ideias puras” sempre foram inegociáveis. Como não são evocadas possíveis contradições e transformações históricas na própria luta da esquerda, a sua ideia pode repousar sobre um insuspeito e inquestionado “igualitarismo”. Como parece ser um princípio sem costuras, sem fissuras, ele pode ser considerado “inegociável”.
Além disso, o substantivo “esquerda” pode ser nominalizado de forma absoluta e receber uma atribuição definitiva. Se os diversos movimentos que representam posições de combate à desigualdade e se intitulam de esquerda não são dignos de encarnar o verdadeiro “igualitarismo”, podem ser todos agrupados em uma representação única (“a esquerda”) e ter sua morte decretada – mesmo que uma morte temporária, como ultimamente atenua Safatle.
Finalmente: se “a esquerda” não encarna de modo suficiente o igualitarismo (bem como a soberania popular), há o risco de que essa falta seja julgada “epistemicamente”. Safatle parece incorrer nisso quando afirma que a esquerda “não percebeu o horizonte de crise que nos aguardava” (p. 20, grifo nosso) ou, mais diretamente: “É preciso entender isso de uma vez por todas”, a respeito da esquerda “moribunda”. “De uma vez por todas”, definitivamente. A avaliação epistêmica da condição da esquerda aponta para o “erro”, não para um processo. E esse erro é sinalizado pelo intelectual que, como um deus ex machina, pode apontar para as suas falhas, que precisam ser corrigidas de uma vez por todas.
Safatle há anos convida a uma radicalização na luta política que é muito bem-vinda. Essa radicalização, entretanto, só ganha materialidade quando incorporada na luta comezinha, cotidiana, cheia de contradições e de avanços. Marx, no mesmo texto em que evocava a prática para comprovar a realidade, lembrava[5] que “as circunstâncias são modificadas pelos homens” e “o próprio educador tem de ser educado”. Anunciava, ao dizer isso, que não é possível “dividir a sociedade em duas partes – a primeira das quais está acima da sociedade”. Precisamos resgatar essa lição.
Notas
[1] https://www.anpof.org/comunicacoes/coluna-anpof/eleicoes-2022-e-o-desafio-ontologico-da-esquerda.
[2] Safatle, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome: um novo livro. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.
[3] MARX, Karl. “Ad Feuerbach (1845)”. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 533, tradução adaptada.
[4] LOSURDO, Domencio. Contra-história do liberalismo. 2ª Edição. Aparecida-SP: Ideias & Letras, 2006.
[5] Marx, Karl, op. cit., p. 533.
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