O capital, o sionismo e o financiamento do genocidio
João Batista Farias Junior
Professor do Instituto Federal do Piauí
09/10/2025 • Coluna ANPOF
Há nomes para a morte quando ela se racionaliza: cadeia de suprimentos, contratos, investimento, “segurança pública”. O que se chama de “combate ao crime” ou “defesa” é, nos relatórios financeiros, uma curva de crescimento; nos diários oficiais, uma rubrica; nas vitrines de feira militar, um catálogo. Quando a morte é administrada, o capitalismo se revela como aquilo que muitas vezes negligenciamos ao discutir o genocídio em curso contra o povo palestino: uma fábrica, no sentido pleno: máquinas, insumos, logística, crédito, marketing, etc., operando com a precisão de quem transformou o sofrimento humano em um produto escalável. Israel, núcleo transnacional dessa engrenagem, é tanto o laboratório quanto o showroom: exporta tecnologia de controle, “testada em campo” sobre corpos palestinos, e importa capital político e financeiro de governos que compram, silenciam e normalizam.
Trata-se de uma arquitetura de violência que não se limita ao teatro de operações: ela também vive no interior de nossas instituições e orçamentos. No Piauí, por exemplo, o governo estadual anunciou, no fim de maio de 2025, a aquisição de armamentos e equipamentos de segurança; a entrega oficial registrou fuzis ARAD 5,56 mm, de fabricação israelense, como parte do pacote de mais de R$ 4 milhões, uma operação celebrada como modernização e reforço tático, mas cuja dimensão geopolítica raramente é discutida. Não é sobre apontar um dedo moralista a uma unidade federativa isolada, como se a exceção se confundisse com a regra. Ao contrário: a normalização dessa cadeia, que conecta Rafah a Teresina por meio de notas de empenho e termos de referência, evidencia a capilaridade do problema. Enquanto parte do Estado brasileiro hesita, revisa ou suspende compras federais com empresas israelenses; decisões que, por um lado, reconhecem a gravidade do momento e, por outro, deixam ver a disputa interna de orientações, outras esferas seguem firmando aquisições e contratos, sem debater publicamente o elo material entre orçamento local e uma indústria que se alimenta do extermínio.
Se movermos o foco do espetáculo (os incêndios transmitidos, as ruínas fotografadas) para a planta da fábrica (os fluxos de capital, os protótipos aprovados, a logística de exportação), veremos que a gramática do genocídio é, também, uma gramática de mercado. O capitalismo, como modo de produção e de governo das condutas, não “acompanha” a violência: ele a organiza, metrifica e monetiza. A linguagem empresarial torna o intolerável eficiente; a linguagem jurídico-administrativa o torna legítimo; a linguagem midiática o torna palatável. O que se chama “solução tecnológica” é, com muita frequência, a automação da necropolítica.
Há décadas, textos de palestinos e de aliados atentos já insistiam: não se trata apenas de uma colonização clássica, em que a potência precisa do dominado ali, como mão de obra barata; trata-se de um processo que pretende “esvaziar” o território, produzir um espaço liso onde o Outro desapareça como sujeito e como referência. Essa diferença entre explorar o trabalhador no seu lugar e expulsar-lhe do lugar para redefinir o mundo é fundamental para entender a especificidade do que acontece na Palestina e o papel econômico-político de Israel no ecossistema global de controle.
A própria doutrina de “segurança”, que opera dentro de governos e empresas e permite as negociações de armas e dispositivos de controle, converte a ocupação em laboratório e vitrine: cada incursão vira prova de conceito, cada “aprendizado” operacional, mercadoria; e governos distantes (como no caso do Piauí) integram esse circuito sem que a violência perca a engenhosidade comercial com que é apresentada. É justamente nesse ponto que o debate público costuma se quebrar entre um tecnicismo que compara desempenhos e um moralismo que absolve por impotência, como se bastasse encontrar o tom correto para que a máquina se constrangesse. Em vez de contá-la em planilhas ou esperar a fórmula certa, importa reconhecer o modo como esse dispositivo nos atravessa, nas palavras que escolhemos, nas imagens que repetimos, nos rituais de neutralidade que encenamos, e recusar a captura que transforma a crítica em apêndice da mesma engrenagem.
A esse cenário da necropolítica do capital-sionismo se somam outros aparelhos de modulação. Na academia, a neutralidade performativa nos treina como dizer muito sem deslocar nada; avaliações e métricas impõem um tom que enfraquece a ruptura. Quando a denúncia vira artigo submetido, perde fôlego e é capturada. Na grande mídia, enquadramentos “equilibrados” estetizam a violência: alterna-se a intensidade, regula-se o tom, mantendo invisível a assimetria. O povo palestino é tratado como excesso a ser contido; Israel, como tecnologia “cirúrgica” a ser admirada. A modulação substitui a proibição: não é “não fale”, é “fale assim”. Daí o desvio para soluções burocráticas. Pedimos comissões, relatórios e recomendações “viáveis”, como se o formato fosse suficiente para enfrentar uma máquina que converte dissenso em negócio. A axiomática do capital absorve o escândalo, ajusta o discurso e rentabiliza a própria crítica. Enquanto aguardamos pareceres, a fábrica reconfigura rotas, marcas e narrativas e segue.
Agir fora da previsibilidade exige valores firmes: dignidade humana sem exceções, solidariedade ativa, responsabilidade pública sobre cada recurso e cada palavra, centralidade das vidas palestinas na definição do que conta como verdade, e compromisso explícito com justiça (não neutralidade) diante da violência. Para combater essa fábrica de morte em forma de regime comercial-imperialista, nossa tarefa não é apenas sabotá-la pontualmente, mas deslocar a engenharia do desejo. Isso significa afirmar políticas de cuidado, de hospitalidade e de reconstrução como investimentos estratégicos; multiplicar laboratórios de solidariedade que façam do conhecimento uma prática de proteção e não de vigilância; inventar alianças que escapem ao binômio indignação/relatório. Não se trata de “recusar a burocracia”, e sim de impedir que ela se torne o horizonte da política. O comum que precisamos fabricar, contra a fábrica dos Estados e do capital, não cabe no formulário. É um agenciamento vivo, que não espera autorização para ser publicado, muito menos para existir.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.