O Caso Erika Hilton: sobre o papel gramatical da cisgeneridade e a importância de ocupar espaços de poder
Fábio Praxedes
Mestrando em Filosofia na UFPE
Marcos Silva
Professor Adjunto do Departamento de Filosofia da UFPE
Toma Gheorghe
Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
13/05/2026 • Coluna ANPOF
A eleição da deputada federal Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados produziu uma reação intensa e reveladora. Mais do que um desacordo pontual sobre nomes, trajetórias ou estratégia política, temos um conflito sobre a gramática do termo “mulher”. Ou seja, sobre os critérios e as normas que definem o significado desse conceito e, por isso, também quem pode falar, em nome de quem e com que legitimidade.
A notícia repercutiu de maneira muito negativa em muitos meios, ao ponto de figuras públicas muito influentes desde o Ratinho até figuras políticas, como a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE) (dentre muitos outros deputados) criticarem abertamente a eleição de uma pessoa que supostamente não seria uma “mulher de verdade”, ou “mulher biológica” para presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.
No presente texto, estamos interessados especificamente nos pressupostos filosóficos mobilizados de maneira tácita e difusa para questionar tanto a validade da identidade de gênero de pessoas transgênero, quanto os espaços sociais ocupados por estas. Assim, acreditamos que o carrossel[1] postado pela psicóloga, professora e pesquisadora na área de Saúde Mental e Gênero (PCL/UnB) Valeska Zanello em seu Instagram possa servir como material frutífero de reflexão.
O carrossel abre com uma frase emblemática dentro do debate feminista contemporâneo: “sexo importa”. Além de aludir à organização britânica Sex Matters, conhecida por seu posicionamento contrário ao que chamam de “transativismo”, também é um chavão bastante utilizado dentro do movimento político-filosófico do Feminismo Crítico de Gênero (adiante, FGC). O uso do termo “transativismo” por esses grupos se dá por oposição ao termo “transfeminismo” por entenderem que mulheres trans não se enquadram como “sujeito do feminismo”. Essa aproximação não é superficial: ao longo das partes 1 a 3 do carrossel, Zanello se esforça por caracterizar o tipo de opressão sofrida por mulheres como baseada no sexo, um ponto caro para o FCG.
Na quarta parte do carrossel, Zanello reconhece o fato de que “mulheres” não possuem a mesma vivência de “mulheres trans” e prossegue afirmando que, por si, isso não nos diz nada sobre a possível legitimidade de uma mulher trans representar os interesses das “mulheres”. Qualquer um com devido conhecimento poderia. Mas então ela traz a questão da representatividade. Acertadamente, Zanello diz que somente recentemente na história que “mulheres” passaram a poder falar por si próprias, representar seus próprios interesses e a partir de sua própria voz. E essa representatividade importa, pois educa, informa, encoraja outras “mulheres”.
Após isso, Zanello confessa que se precisasse escolher entre mulheres da direita, representando valores sexistas, e Erika Hilton, prontamente escolheria Hilton. Mas lastima que essas aparentam ser as únicas escolhas e faz um apelo para que “mulheres” da esquerda disputem por essa posição.
Com efeito, parte significativa das críticas dirigidas à eleição de Hilton se organiza em torno de uma tese aparentemente simples: “sexo importa”. Essa formulação sustenta que a opressão das mulheres estaria enraizada em características sexuais e, portanto, que a representação política legítima deveria ser exercida por aquelas que as possuem. À primeira vista, trata-se de uma preocupação compreensível com representatividade. No entanto, essa posição opera a partir da naturalização tácita da cisgeneridade como critério silencioso do que conta como “mulher”.
É justamente essa naturalização que merece análise filosófica. O ponto central não é simplesmente averiguar quem é ou não é mulher, como se estivéssemos diante de uma questão empírica a ser resolvida por evidências biológicas. O que está em jogo é a gramática de uso de gênero e como disputá-la. Aqui, as reflexões de Wittgenstein em Sobre a Certeza (1969) são particularmente elucidativas. Wittgenstein chama atenção para um conjunto de proposições que não funcionam como hipóteses empíricas, mas como certezas de fundo, pressupostas em nossas práticas de verificação e julgamento. Essas certezas, frequentemente chamadas de “certezas fulcrais”, não são testadas; elas estruturam o próprio espaço no qual testes fazem sentido.
A cisnormatividade, entendida enquanto uma rede de compromissos práticos e inferenciais sobre a relação sexo-gênero, opera precisamente como um conjunto de certezas fulcrais. Quando se fala simplesmente em “mulheres”, sem qualificação, pressupõe-se a mulher cisgênero. “Mulher trans” aparece como uma categoria marcada, derivada, que exige justificativa. Essa assimetria não é acidental. Ela revela que a cisgeneridade ocupa o lugar de eixo em torno do qual as práticas de reconhecimento de gênero se organizam, tornando a transgeneridade como uma exceção.
O problema dessa gramática não é apenas conceitual, mas político. Como mostram abordagens inferencialistas da linguagem, como a de Brandom (1994), o significado de um conceito não é dado por uma essência ou referência, mas pelas inferências que ele autoriza e pelas exclusões que ele impõe (Xavier e Silva, 2023). O conceito “mulher” não apenas nomeia um grupo, mas articula uma rede de inferências sobre corpo, comportamento, legitimidade e pertencimento. Quando a cisgeneridade funciona como pano de fundo não tematizado, ela estrutura essas inferências de modo a restringir quem pode ser reconhecido como sujeito legítimo de direitos e representação.
É nesse ponto que a eleição de Erika Hilton adquire relevância filosófica. O cargo da presidência de uma comissão historicamente associada a uma certa concepção de “mulher” ter sido ocupado por Hilton, uma mulher trans, força uma rearticulação das inferências que sustentam esse conceito. A reação negativa não decorre simplesmente de discordância ideológica, mas do desconforto gerado por essa pressão. Quando uma certeza fulcral é tensionada, não sabemos imediatamente como responder e muitas vezes tachamos quem viola essas certezas de louco.
Nesse sentido, a controvérsia revela menos sobre Erika Hilton e mais sobre os limites da gramática que organiza o debate. A insistência em distinguir “mulheres” de “mulheres trans”, sem explicitar o critério que sustenta essa distinção, como faz Zanello, funciona como um mecanismo de preservação dessa gramática enquanto natural. Trata-se de um movimento que mantém a cisgeneridade como padrão implícito e a única forma legítima de gênero.
Essa operação não é exclusiva desse caso. Ela é característica de gramáticas sociais que naturalizam determinadas posições como universais. Disputas políticas frequentemente se apresentam como divergências técnicas ou jurídicas, quando, na verdade, envolvem a imposição de uma gramática sobre outra, como mostra a reflexão recente sobre conflitos ambientais, onde frequentemente se disputa o que conta como recurso, propriedade ou bem comum[2]. Da mesma forma, no caso da eleição de Hilton, a disputa não é apenas sobre identidades, mas sobre a gramática, ou seja, sobre os critérios e normas que definem reconhecimento, exclusão e pertencimento.
É nesse contexto que se torna necessário introduzir a noção de pressão normativa (Silva e Ferreira, 2022). Mudanças nas práticas sociais podem forçar a revisão de certezas e normas que antes pareciam inquestionáveis. A presença de mulheres trans em espaços de poder não apenas amplia a representação, mas desloca o eixo em torno do qual o conceito de “mulher” se organiza[3]. Esse deslocamento não elimina diferenças de experiência, apenas impede que uma dessas experiências funcione como padrão.
Numa perspectiva mais ampla, esse movimento pode ser compreendido como parte de uma luta por autodeterminação, ou seja, por soberania gramatical (Silva, 2026b). Não se trata apenas de inclusão em estruturas existentes, mas da disputa pela gramática que fixa os próprios critérios que as organizam. Uma crítica ao integracionismo aponta justamente para esse ponto: a questão não é apenas acessar direitos, mas redefinir as condições normativas sob as quais esses direitos são reconhecidos.
Nesse sentido, a disputa em torno da presidência da comissão não é um detalhe institucional, mas um exemplo concreto de um processo mais amplo que poderíamos chamar de disputa gramatical. A eleição de Erika Hilton funciona como uma espécie de alavanca normativa, no sentido de que desloca o ponto fixo em torno do qual o movimento é feito, e abre espaço para novas articulações de sentido (Silva, 2026a).
A principal lição desse episódio é que aquilo que muitas vezes aparece como “natural” é, na verdade, o resultado de uma gramática historicamente construída. A distinção entre “mulheres de verdade” e “outras” não é um dado da realidade, mas uma regra de uso que pode ser questionada e transformada. Reconhecer isso não implica negar diferenças, mas recusar que uma dessas diferenças seja elevada à condição de critério absoluto de legitimidade.
Em última instância, o que está em jogo é a possibilidade de pluralizar o próprio conceito de mulher. Mulheres trans são mulheres. Mulheres cis são mulheres. Ambas participam de redes de inferências que podem se sobrepor, divergir e se transformar. A tarefa política não é preservar uma gramática excludente em nome de uma suposta referência à realidade, mas disputar os critérios que definem a possibilidade de reconhecimento, legitimidade e agência.
A eleição de Erika Hilton, nesse sentido, não é um “erro estratégico”, mas um acontecimento que torna visível uma disputa gramatical que já estava em curso. Ela nos conclama a reconhecer que a linguagem não é apenas um meio de descrever o mundo, mas um campo de luta gramatical onde se decide o que conta como realidade, identidade e justiça. E é nesse campo que se joga, hoje, uma parte decisiva da política contemporânea.
Notas
[1] ZANELLO, V. Sexo importa. Brasília, 14 de mar. 2026. Instagram: zanellovaleska. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DV4FuSZlagA/?img_index=1. Acesso em: 27/04/2026
[2] Um exemplo disso é a disputa acerca da privatização dos rios do Pará. Para uma análise deste debate ver Silva (2026)
[3] O mesmo tipo de pressão ocorreu sobre os conceitos de “político”, “negro” e “mulher” quando mulheres cis brancas e pessoas negras passaram a ocupar pela primeira vez posições de liderança política.
Referências
BRANDOM, Robert. Making it explicit: reasoning, representing, and discursive commitment. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1994.
Silva, Marcos. A privatização dos rios do Pará. A Terra é Redonda, 14 mar. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/a-privatizacao-dos-rios-do-para/
SILVA, Marcos. Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 49, n. 1, e026003, 2026a.
SILVA, Marcos. Soberania gramatical e suas Alavancas. Kotter Editorial: Curitiba, 2026b
SILVA, M; FERREIRA, A.;. Revisão da Lógica, Equilíbrio Reflexivo e Bidirecionalidade Normativa. Analytica, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, p. 62-79, 2022.
Xavier, Paloma; Silva, Marcos. Contra A Inefabilidade Das Hinge Propositions: Uma Leitura Neopragmatista. Revista Ideação. v. 1 n. 47 (2023): Edição Janeiro-Junho 2023
WITTGENSTEIN, L. On certainty. Oxford: Blackwell, 1969.
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