O Cisne Negro do Ensino de Filosofia: A ABEFil e a crescente autonomia deste campo após um ano de sua fundação

Gabriel Kafure da Rocha

Professor do IFSertãoPE; docente permanente do PROF-FILO e do PPGFIL/UECE; Vice-Presidente da ABEFIL

29/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com Associação Brasileira de Ensino de Filosofia (ABEFil)

É com imensa alegria e um profundo senso de responsabilidade que me dirijo à comunidade filosófica, por meio desta coluna da Anpof para celebrar o primeiro aniversário da fundação da ABEFil - Associação Nacional de Ensino de Filosofia. Este marco temporal, que coincide, finalmente, com a recente obtenção do nosso CNPJ, representa não apenas a formalização burocrática, mas o início de uma nova e decisiva fase.

Nossa história não se inicia agora. Há um "antes", um período de gestação, de idealização intensa, e que há um ano, com a assembleia de fundação, digo carinhosamente que estivemos na fase de "amamentação". Mas agora, com a ABEFil juridicamente estabelecida, iniciamos uma nova introdução alimentar. E o que significa, em termos de impacto e ação política, essa nova dietética (do grego διαιτα (diaita) que significa "modo de vida" + τικη (tiké) que significa arte ou prática relacionada a)?

O Ensino de Filosofia não é um apêndice, mas a materialização de uma prática singular que se relaciona justamente ao nosso modo de vida. É a área onde a reflexão de cada professor(a) se traduz em atos, currículo e didática. É, talvez, a dimensão mais prática da Filosofia e, no plano profissional, inerentemente política, pois é uma luta por reconhecimento, e por estabilidade.

A dimensão política do campo de Ensino de Filosofia perpassa a discussão de seu lugar. Historicamente, a política educacional da Filosofia, no âmbito da pós-graduação, estava majoritariamente abrigada na Filosofia da Educação, uma área consolidada e de grande relevância, especialmente junto à ANPEd.

O nascimento e a consolidação da ABEFil, contudo, representa a autonomia do Ensino de Filosofia como um campo específico de estudos e lutas, tanto no âmbito da pesquisa, como na efetiva articulação e defesa do ensino. Não se trata de esvaziar a Filosofia da Educação — muito pelo contrário, a ABEFil deve designar representantes para manter o diálogo constante, mantendo representações com a ANPEd. A diferença é a demarcação de um espaço próprio, de um polo de irradiação de múltiplas pautas.?Para a ABEFil, essa distinção conceitual é vital para a amplitude de nossa atuação:?Filosofia da Educação - Investigação teórica e crítica sobre os fundamentos, finalidades, conceitos e problemas estruturais da educação (como ensino, aprendizagem, currículo, escola, avaliação) a partir de referenciais filosóficos. Uma reflexão mais metateórica e abrangente sobre o fenômeno educativo.?Ensino de Filosofia - Ações, metodologias e práticas concretas de transmissão, criação e exercício do filosofar no ambiente escolar e não-escolar. Envolve a seleção e organização de conteúdos, a elaboração de currículos e a didática específica para a experiência filosófica. É o desdobramento da reflexão da área-mãe (Filosofia da Educação) no plano da sala de aula.?Ao realocar o centro das discussões do Ensino de Filosofia de volta para o campo da Filosofia – em diálogo com a didática e o currículo – a ABEFil potencializa a voz de professores, professoras e estudantes em uma área específica, ampliando nossa representatividade e capacidade de intervenção. Estimamos alcançar, ainda este ano, entre 200 e 300 associações de professores e estudantes.  Já abrimos e retificamos o convite, garantindo, por exemplo, maior voz do nosso campo perante as discussões a nível político nacional.

A autonomia do Ensino de Filosofia na ABEFil multiplica as possibilidades de ação para além do debate fundamental da Filosofia da Educação. Nesse sentido, se o Ensino de Filosofia foi, por muito tempo, encarado como um "patinho feio" perante o contexto dos bacharelados de Filosofia. Nossa luta era, então, pela sobrevivência e pela simples presença nas escolas. Hoje, estamos presentes no nível médio e devemos continuar lutando para nos manter e avançar também para os anos finais do ensino fundamental. Com o amadurecimento da ABEFil, é chegada a hora de reconhecer que aquele patinho feio pode se transformar em um belo Cisne Negro: uma força surpreendente, rara e de imenso impacto.[1]

A ABEFil nasce como a voz autônoma e plural de uma área que é a ponte entre a teoria mais abstrata e a vida mais concreta. Parabéns a todas e todos que fizeram, fazem e farão parte desta história (incluindo os nossos estudantes)! O futuro do filosofar no Brasil passa pela força dessa nossa união, viva!


Nota

[1] A metáfora é um pouco inspirada no filme “Cisne Negro” (2010), mas também numa desconstrução da ideia de um cisne branco como paradigma da beleza. Além disso, numa  espécie de “dualitude” (em contraposição a uma dualidade, a dualitude teria uma complementariedade) que pode ser analisada pela ideia de que na mesma medida que o Cisne Branco no ballet representa o movimento perfeito (tecnicamente), é importante também superar metaforicamente essa visão infantil (do Cisne Branco) e dar à luz a um movimento mais selvagem e instintivo (o Cisne Negro), é aí que, talvez, possamos  liberar uma força complementar para a compreensão da verdadeira beleza que, entre outras palavras, representa também a visão de que o ensino é uma arte, e, ser professor(a), é também, como diria o filósofo Evaldo Coutinho, uma artisticidade. Além disso, há também uma referência indireta ao problema da indução do Popper, ou seja, o cisne negro aqui representa a possibilidade de ver o ensino de filosofia como um problema filosófico sob o crivo de um elemento refutador (falseador) de certas "leis", crenças ou mesmo preconceitos estabelecidos no campo acadêmico da filosofia.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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