O Inferno São os Likes - Aristóteles, Sartre e Eudaimonia na era da tecnologia

Alianna Cardoso Vançan

Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

10/04/2026 • Coluna ANPOF

Se perguntarmos hoje a um sujeito típico do século XXI, celular na mão, câmera frontal estrategicamente posicionada e um repertório respeitável de fotos “instagramáveis” prontas para publicação, o que significa felicidade, o que ele responderia? Talvez, hesitando (não por dúvida filosófica, mas para escolher o melhor ângulo), dissesse que é “buscar sua melhor versão”, expressão tão ampla quanto vazia, frequentemente tornada legenda de vídeos com filtros e trilhas sonoras. Mas será que, por trás dessa estética cuidadosamente posicionada, há uma reflexão sobre a felicidade no sentido que a filosofia clássica propôs? Ou está conectada com um feed bonito o suficiente para engajar nas trends?

A eudaimonia atravessa toda a tradição filosófica ocidental. Na era da tecnologia, marcada por hiperconectividade e algoritmos, é urgente repensar seu sentido. Não se trata de perguntar se somos felizes, mas se ainda conseguimos viver de acordo com o sentido forte que a filosofia antiga atribuía à existência humana. Entre uma notificação e outra, quando temos tempo para ser felizes? E, mais, é possível ser feliz sem fotos para o feed?

Em Sócrates, a eudaimonia está ligada à vida examinada. No Fédon, Platão descreve como o filósofo deve morrer: com serenidade, desapego e fidelidade à verdade. Sócrates, prestes a beber a cicuta, não pede “só mais cinco minutinhos” para responder mensagens, nem se preocupa em atualizar seu status final. Sua calma diante da morte contrasta com nossa ansiedade ao ver três pontinhos piscando numa conversa. Para ele, viver bem era preparar-se para morrer bem; para nós, parece preparar-se para não perder o Wi-Fi.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, define eudaimonia como atividade da alma conforme a virtude, ao longo de uma vida completa. Não se trata de um pico de dopamina após um vídeo curto, mas de uma construção paciente, ética e racional. A felicidade exige hábito, caráter e, sobretudo, tempo. Tempo, esse recurso quase mitológico na contemporaneidade, mais raro que bateria de celular no fim do dia.

A tecnologia parece corroer esse tempo com eficiência quase aristotélica, só que invertida. A aceleração digital fragmenta a atenção, dispersa o pensamento e difunde hábitos virtuosos. A promessa de produtividade, conexão e estímulo constante entra em choque com a necessidade de contemplação e interioridade. Vivemos ocupados demais para pensar e distraídos demais para perceber que estamos ocupados; a reflexão torna-se um item vintage, como escrever cartas à mão ou terminar um livro sem checar o celular a cada três páginas.

Se deslocarmos o olhar para os céticos, como Sexto Empírico, encontramos a noção de ataraxia, ou a tranquilidade da alma alcançada pela suspensão do juízo (epoché). Diante da impossibilidade de chegar a verdades absolutas, o sábio cético opta por não se perturbar. Ele não entra em discussões intermináveis, não responde a provocações, não comenta em tudo. Em outras palavras, seria irrelevante para o algoritmo. Na era da tecnologia, a ataraxia parece quase um ato subversivo: não reagir, não opinar, não compartilhar, quase um escândalo. O cético contemporâneo talvez fosse acusado de “falta de engajamento”, o que, convenhamos, é praticamente uma heresia digital.

Redes sociais e imediatismo substituem serenidade por ansiedade e reflexão por reação constante, com medo de “deixar alguém no vácuo”, talvez o maior medo ontológico do século XXI.

Essa transformação tem implicações profundas para conceitos centrais da filosofia moral e política: livre-arbítrio, autonomia, agência e liberdade. A tecnologia, especialmente em sua forma algorítmica, não apenas media nossas escolhas, mas as antecipa, orienta e, em certa medida, as condiciona. Quando você acha que escolheu assistir a mais um vídeo, talvez o vídeo tenha escolhido você, e seus dados concordaram entusiasticamente. A liberdade de escolha permanece formalmente intacta, mas sua substância é progressivamente moldada por sistemas que operam abaixo do limiar da consciência. Somos livres, sim! livres para escolher entre opções cuidadosamente selecionadas para nós.

Parece que, hoje, se não seguimos rotinas mirabolantes e não registramos tudo em fotos “aesthetic”, estamos ‘errando a vida’. O “tá pago” de todo dia, exacerbando desigualdades sociais fundidas pela tela do celular e introspectadas no inconsciente como metas alcançáveis. O feed, pensado com Sartre, revela um outro editado que nos lembra, a cada foto, que nossa própria vida nunca será tão ‘performática’.

A sensação de falha, embora sentida como pessoal, é estrutural: assim como Charles Mills lembra que barreiras sociais tornam certas conquistas inacessíveis, a vida perfeita nas redes sociais é privilégio de poucos. Para os demais, a comparação gera frustração, ansiedade e a falsa ideia de que é apenas falta de esforço. Depressão em cascata. É o que vemos.

Nesse cenário, a autonomia, entendida como capacidade de legislar para si mesmo, é tensionada. A agência, isto é, a capacidade de agir de forma intencional e responsável, é diluída em um fluxo contínuo de estímulos e reações. O sujeito contemporâneo corre o risco de tornar-se um nó em uma rede de influências invisíveis, onde a distinção entre desejo próprio e induzido se torna cada vez mais opaca. Queremos o que queremos, mas quem exatamente programou esse querer? (Spoiler: não foi Aristóteles.)

É nesse ponto que o dualismo mente-corpo, inaugurado por René Descartes, ganha uma inflexão irônica. Se antes a inflexão do cogito era “penso, logo existo”, hoje talvez devêssemos reformular: “tenho instagram, logo existo”. E a ironia das ironias: se a mente era supostamente imaterial e distinta do corpo, agora ela se encontra espalhada entre telas, notificações e emojis. O dualismo cartesiano se realiza, mas ao contrário: a mente nem sequer está, e o corpo é apenas uma estação de carregamento portátil, pronto para mais uma caneta emagrecedora, afinal “a felicidade é magra, magra, magra”. Se Descartes estiver certo, talvez tenhamos que admitir, ironicamente, que a res cogitans não apenas se separou do corpo, mas terceirizou suas funções para o smartphone.

E, se alguém duvida do peso da comparação na vida moderna, Sartre nos lembra que “o inferno são os outros”, e que inferno, hoje, tem Wi-Fi. Todo dia aparece uma nova forma de maternar, uma estratégia inovadora para conquistar o primeiro milhão, ou a fórmula perfeita de ser “no mundo” com autenticidade cuidadosamente curada para o feed. Curadoria instagramável, claro.

Heidegger, por sua vez, nos convida a pensar sobre o ser-no-mundo de forma existencial, mas o sujeito contemporâneo parece ocupado demais tentando ser online-no-mundo, sempre observando ‘virals’. Entre reels e stories, a autenticidade se dilui: somos constantemente jogados na esfera do olhar alheio, onde a existência já não é vivida, mas performada, e a liberdade de Sartre se confunde com a necessidade de performar a liberdade. O resultado? Uma eudaimonia superficial, que se mede não pelo florescimento interior, mas pelo número de seguidores nas redes.

Assim, a tecnologia que promete expandir nossa liberdade ironicamente parece sempre nos manter na corrente. Cada notificação é uma pequena corda invisível puxando nossa atenção, cada sugestão de vídeo ou meme é um empurrão sutil dizendo quem “devemos ser” naquele instante. Como Rousseau já dizia, ‘o homem nasce livre, e por toda parte encontra-se acorrentado’, e hoje essas correntes têm Wi-Fi.  Se Aristóteles dizia que a virtude exige deliberação e hábito, hoje parece que a deliberação é terceirizada para algoritmos, e o hábito é um loop infinito de scroll infinito. Queremos ser “a melhor versão de nós mesmos”, mas nossos feeds é que o fazem por nós e, convenhamos, eles conseguem parecer melhor do que realmente somos.

No entanto, diante do “feed da vida real” em que não existem filtros, a recuperação da eudaimonia exige mais do que adaptação: exige resistência. Talvez seja necessário um retorno às raízes filosóficas ancestrais, não como nostalgia, mas como crítica. Em Aristóteles, a vida feliz culmina na contemplação (theoria), na atividade intelectual que se basta a si mesma e que encontra na filosofia sua forma mais elevada. Retomar a filosofia, nesse sentido, não é um luxo, mas uma necessidade, ainda que isso signifique, ocasionalmente, ignorar uma notificação.

E tem mais! Refletindo sobre o cenário contemporâneo, é impossível não lembrar de Hannah Arendt e sua análise da banalidade do mal. Hoje, o mal não se apresenta apenas em grandes tragédias históricas, mas se infiltra sorrateiro no cotidiano digital: likes e compartilhamentos que naturalizam injustiças. E essa banalidade das pequenas (e grandes) violências cotidianas, desemboca, por exemplo, no aumento dos feminicídios incutida por Redpills e uma machofesra terra sem lei, e é questionada apenas pela indignação performativa e discursos em threads. No fim se torna uma hashtag em inglês, claro, #prayforaquelepaísmaisumavezvitimadopelogenocídio. Tudo isso ecoa a observação de Arendt: a maldade pode ser perfeitamente rotineira, quase invisível, mas infinitamente eficiente na manutenção de estruturas injustas.

A eudaimonia, hoje, pode residir precisamente na capacidade de interromper o fluxo, de suspender o juízo, recuperar a atenção e reorientar a vida segundo critérios que não sejam ditados por algoritmos. Se a tecnologia redefine as condições da existência, cabe à filosofia perguntar novamente: o que significa felicidade agora? E, talvez, responder com Aristóteles, com a calma de quem não precisa checar o celular. E, quem sabe, com um pouco de sorte, em modo silencioso. Talvez, o essencial não seja só invisível aos olhos, mas também ao feed.


Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Editora Vozes, 2024.

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2000.

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Editora Vozes, 2002.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

SEXTO EMPÍRICO. Esboços Pirrônicos. São Paulo: Editora Vozes, 2015.

MILLS, Charles. The Racial Contract. Ithaca: Cornell University Press, 1997.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2002.


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