O instagramável e redes de controle

Heitor Pereira Silva

Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ; mestre em Metafísica pela UnB

12/11/2025 • Coluna ANPOF

Não é meu desejo fazer coro com aqueles que demonizam as redes sociais digitais, e se o fizer não é de forma inteiramente intencional. Também não me proponho enaltecê-las desmesuradamente. Elas estão aí, e, aparentemente, vieram para ficar. Suas graças e desafios estão ocupando um espaço cada vez maior na agenda filosófica e sociológica acadêmica. Numa pesquisa rápida no portal de periódicos da Capes, por exemplo, os termos Facebook e Instagram somam juntos algumas centenas de milhares de resultados, tanto para acesso aberto quanto para fechado. Há pesquisa no campo das ideias, sejam filosóficas ou sociológicas, da psicologia, da comunicação, do trabalho, da saúde, etc. Essas redes tanto operam possibilitando encontros e relacionamentos, quanto produzindo e divulgando conteúdo. Sobre esse último aspecto, gostaria de chamar a atenção. Qual conteúdo é publicável? Ou, utilizando expressão em voga, qual conteúdo é ‘instagramável’? Essa expressão – instagramável – quer significar que em determinados ambientes, algumas falas, uma determinada forma estética ou aparência está apta para ser publicada no Instagram. Sob os auspícios de quem?

O que é ou não publicável é, hoje, líquido (BAUMAN, 2001), ou seja, o que é ou não instagramável é coetâneo aos resultados que qualquer postagem consegue aferir em termos de adesão, engajamento, likes. Aparentemente respostas instantâneas produzem novas postagens, retirada de conteúdo, retratações... Esse processo pode ser bem mais acelerado do que se espera e, no intervalo de um dia, pode ocorrer mais de uma vez, gerando, inclusive, tendências. Acompanhá-las é uma ocupação de pessoas que fazem dessas redes um campo de trabalho e renda: influenciadoras/es, técnicas/os e profissionais das comunicações e, por último, mas sem pretender encerrar a lista, pessoas em busca de lazer e autoprojeção. Sob certo aspecto, tais profissionais podem ser chamados/as de técnicos/as da liquidez, porque não apenas trabalham com ela, mas a promove, de uma forma um tanto quanto ideológica.

O que a expressão instagramável faz é dar novo sentido ao próprio Instagram, ele, agora é, também, um fator determinante de tendências e conteúdos, e dessa forma não pode mais ser admitido apenas como um meio de divulgação ou só mais uma rede social, o instagramável é uma face nova para um dispositivo de controle não tão novo assim. E é impressionante a passividade com a qual grande parte das/os usuárias/os deste aplicativo se submetem. O que é admitido ou não, o que é estimulado ou não como conteúdo dessa rede não está mais sob o controle de quem publica, pois esta/e o faz em busca da aprovação de uma comunidade de seguidoras/es, e possíveis seguidoras/es. Se quiser utilizar dessas redes para mandar uma mensagem, precisa se adaptar às regras de emissão, e isso pode mudar substancialmente a própria mensagem.

É nesse sentido que nomeamos o instagramável como uma rede de controle. Esse nome é a face visível de uma rede que mobiliza e articula práticas, concepções estéticas, investimentos, trabalho, sentimentos, engajamentos, instituições, e em decorrência de alguns conteúdos, exclusão, cancelamentos, perseguição, ódio.  

Por outro lado, não estar nas redes sociais não significa estar fora do alcance dos radares, sobretudo do ponto de vista do controle e do monitoramento, ainda tem os cartões de crédito, números de documentos pessoais, compras on line, emissão de notas fiscais, envio de e-mails, câmeras e filmagens em muitos espaços, etc. E uma pessoa que se propõe a viver fora das redes sociais, muito provavelmente, é sabedora das dimensões do espaço que se dispõe a ocupar e dos limites e possibilidades que o instagramável traz para si. 

Todo esse processo ocorre numa velocidade vertiginosa. Se perdeu as postagens de alguém, muito provavelmente no dia seguinte essa postagem não estará mais disponível. Há um recurso no Instagram que corrobora com o que vimos argumentando até aqui: os stories. Com esse recurso todo o conteúdo postado se autodestrói em 24 horas. De acordo com Ferreira e outros (2017) esse “é sempre o eterno momento presente – ou seja, o instantâneo imediato e sempre renovado – que interessa vi­sualizar. A vida cotidiana é então retratada com poucas edi­ções: o que parece interessar é o constante fluxo e a constante renovação do conteúdo, de forma prática e veloz.” (FERREIRA, et al., 2017). O presente líquido é um tempo novo que ressignifica o controle. Não é difícil pensar que cada um segue e é seguido, rastreado, por meio das postagens que faz ou não faz. Penso que daí vem à superfície um de seus aspectos ideológicos.

As velocidades com as quais as redes sociais operam podem esconder as transformações que não acontecem de maneira alguma, ou muito lentamente. Nesse sentido, não nos parece defensável que hoje tudo muda muito rapidamente, até porque tudo é muita coisa, e há um tanto delas que não parece mudar: a criação de novas formas de preconceito e discriminação, a marginalização de grande parcela da população, o crescimento da oferta de trabalho informal, pouco qualificado e de baixa remuneração, em detrimento de trabalho com vínculo empregatício duradouro e melhor remunerado, as dificuldades das instituições de ensino em dialogar com novas tecnologias digitais, as diversas formas de violência contra os habitantes das periferias e movimentos associados às causas da população negra, indígena, feminina, LGBTQIA+, e, também, as causas da juventude.

Além disso, há também, implícitas nas redes sociais digitais, as ideias de empreendedorismo, de espaço aberto a iniciativas empresariais e comerciais, como uma nova espécie de terra das oportunidades, na qual se pode enriquecer rapidamente, e sem muito trabalho. Esta me parece a revenda da ideia de cada indivíduo ser um empreendedor de si mesmo, como alternativa para a falta de oferta de trabalho, mas entre os instagramers (utilizo essa expressão para indicar aqueles que exercem atividades remuneradas no Instagram), poucos dirão isso explicitamente.

São muitos atravessamentos nesse texto, e penso ser produtivo que seja assim, enquanto estímulo e direções, mas não pretendi apresentar quaisquer deles como determinante. Por detrás do uso pueril e informal da expressão instagramável tem um conjunto de mecanismos de controle, monitoramento, mascaramentos, que urge pensar.


Referências

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

FERREIRA, E.; CONSTANTINO, F. A.; LIMA, J. S. Cotidiano e Instagram: efemeridade e narrativas de si no recurso Stories. Esferas, Ano 6, nº 11, Julho-dezembro/2017.


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