O interesse específico da Filosofia

Luiz Fernandes

Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos

08/04/2026 • Coluna ANPOF

Perguntar sobre a especificidade do trabalho filosófico requer conhecimento de método, objeto e postura. Desembocamos, de forma inevitável, na pergunta: o que é a Filosofia? Longe de percorrer o caminho etimológico, cultural e/ou acadêmico, mais valioso será trilhar o caminho mais rejeitado e rebaixado: o empírico. Um sujeito qualquer, por óbvio, é circunscrito empiricamente. É o mesmo que dizer: tal Ser nasceu em uma cultura e se relaciona com seu entorno de tal modo que o descreveremos a ponto de localizá-lo sociodemograficamente.

À guisa de exemplo, voltemos nossa reflexão a nós mesmos: ao olharmos para um rio, o que vemos? Certamente, nossa visão está submetida a uma base de reflexão co-criada simultaneamente com nosso passado e nosso Eu do presente, ou seja, veremos aquilo que fomos projetados para ver. Parece estranho, pois a tendência a afirmar que se trata apenas de um rio ecoa pelos enquadramentos de nossa voz interior. Mas, a fim de contrariar essa voz, é fácil citar Heráclito, pois ao transfigurar o movimento do rio à afirmação de mobilidade contínua e incessante consagrou a célebre fórmula “tudo flui”[1]

Por outro lado, Krenak, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, argumenta sobre a impessoalidade de nossa era que, mantendo o exemplo supracitado, “O Rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas.” [2] Não se trata de uma mudança de perspectiva apenas, mas um tratamento (diga-se de passagem, muito louvável) que apenas uma mudança radical de horizonte pode proporcionar: uma nova Filosofia.

De fato, nos deparamos com uma questão simples, mas espinhosa, da relação entre sujeito-objeto. Afirmar que o modo de se relacionar com o objeto, a depender do processo cultural no qual determinado sujeito está inserido, é o mesmo que ignorar processos da ordem da lógica, da epistemologia e da psicologia. Pois, adentrar no âmbito da investigação dos componentes do sujeito, tais como razão, emoção, inconsciente etc., reacende o debate, apesar da importância, da validade objetiva do conceito. O propósito é mais simples: lançar lupa aos conceitos assinalados como universais e colocá-los diante da questão: essa é a única via possível de explicação à essa questão?

Certamente, compreender de modo mais ou menos profundo determinada Filosofia requer, minimamente, que ela seja estruturada sob a racionalidade, pois do contrário não haveria compreensão, tampouco convencimento. Além disso, é preciso ter a possibilidade de visualizar uma ordem lógica nessa obra, pautada em questões basilares a ponto de avançar numa temática proposta, a fim de iniciar as engrenagens do nosso pensamento cujo cume é enxergar a realidade de outro modo. Pois, uma vez assimilado um conteúdo, uma nova viabilidade de interpretação do objeto erige em nossa alma. Outro ponto inegável é que não faltam autores na história da filosofia para proclamar um novo edifício. Assim, o que se espera do filósofo, além do domínio de certa quantidade de autores, é a apropriação satisfatória dessa bagagem, para que não recaia sob a acusação kantiana de acúmulo de conhecimento histórico (cognitio ex datis)[3]. Não seria, contudo, tal bagagem esse tal “conhecimento histórico” denominado por Kant? Ora, daí se resgata a postura do filósofo: não basta realizar citações célebres, é preciso realizar a localização epistêmica, i.e., é preciso conduzir, para além do próprio pensamento, a reflexão do aprendiz.

Assim sendo, se faz imperativo distanciar esse modo de visualização de múltiplas filosofias como uma postura que beira o subjetivismo e o relativismo, pois a facilidade em relegar a pluralidade reflexiva ao estatuto de condicional, distanciando, assim, tais filosofias das ditas “absolutas” é, antes de tudo, dogmática, pois sem objeções não há a possibilidade da crítica, e a predileção injustificada de determinados autores, de determinadas épocas, exclui aquilo que há de mais autêntico numa certa sociedade: sua identidade. Quais critérios utilizar, portanto, nessa ordem esquemática, de certo modo, hierárquica? A simplicidade de resolução não é nada mais que o reflexo de uma questão simples, mas atormentadora: qual o objetivo de vida que uma pessoa poderia colocar diante de si de tal modo que seria não algo alcançável, mas possível e, portanto, legítimo? Independentemente de correntes filosóficas e políticas, não seria demais recitar Krenak, “[...] Qual é o mundo que vocês estão agora empacotando para deixar às gerações futuras?”[4]


Notas

[1] Daí o elemento fundamental sob a perspectiva heraclitiana ser o fogo, não como elemento em seu sentido vulgar, mas como princípio, i. e., “[...] a) fonte ou origem das coisas, b) foz ou termo último das coisas, c) permanente sustento (substância, diremos com um termo posterior) das coisas.” REALE, G. Hist. da filosofia antiga, v. I, Ed. Loyola, 1993, p. 48.

[2] KRENAK, A. Ideias p/ adiar o fim do mundo, Companhia das Letras, 2019, p. 40.

[3] KrV, B864

[4] Idem., p. 68.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

DO MESMO AUTOR

O interesse geral da filosofia

Luiz Fernandes

Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos

26/08/2025 • Coluna ANPOF