O que vemos emergir com a emergência climática?

Lilian S. Godoy Fonseca

Professora permanente do PPGCH da UFVJM e do PROF-FILO/Unimontes

10/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof

Dada a crítica situação atual, impõe-se-nos a tarefa de refletir sobre o fenômeno que tem sido denominado de diferentes maneiras, entre as quais a que vemos no título: emergência climática. O presente texto tem o objetivo de avaliar essa espinhosa questão.

De início, indicaremos algumas expressões que têm sido usadas para abordar essa problemática; depois, colocaremos três perguntas atinentes e igualmente inescapáveis: 1. Por que o clima se tornou uma questão urgente em nossa época? 2. Esse problema resulta da ação humana (é antropogênico) ou é um ‘efeito’ natural? Por fim: 3. Ainda há tempo para evitarmos o colapso? Finalizando com breves considerações finais.

Várias expressões para um mesmo e complexo problema

Nosso ponto de partida visa mostrar que, ao pesquisar o assunto, encontramos diferentes expressões que aludem à crise do clima, sendo as mais recorrentes: "mudanças climáticas", "aquecimento global", "crise climática", "emergência climática", além de outras consideradas mais enfáticas: "colapso climático", "caos climático" e "ebulição global".

Essa variada terminologia expõe distintas conotações possíveis na abordagem da questão, mirando atenuar ou acentuar a intensidade do problema. Com efeito, o termo adotado pode modalizar o enfoque, direcionando a opinião pública, para minimizar ou aguçar a percepção de urgência e, assim, diminuir ou potencializar a capacidade de ação frente aos desafios postos.

Para abreviar, elaboramos o quadro abaixo que expõe, sinteticamente, exemplos dos três tipos de expressões encontradas nomeando a crise climática atual e seus significados centrais:

Tipos de expressões, exemplos e principais significados:

Termos mais comuns e menos enfáticos

Termos que enfatizam a gravidade e urgência

Termos mais técnicos e contemporâneos

 

 

 

Mudanças climáticas:

Termo mais neutro, usado para indicar a existência de alterações no clima global.

Crise climática: Ressalta a situação de emergência, indicando a seriedade do problema a ser enfrentado.

 

 

 

Ebulição global:

Enfoca o acúmulo de calor na Terra e nos oceanos, o que pode causar mudanças climáticas mais intensas e imprevisíveis.

Emergência climática: Realça o risco elevado dos problemas climáticos no curto prazo, impondo uma ação imediata.

 

 

 

Aquecimento global:

Descreve, especificamente, o aumento da temperatura da Terra, o que pode levar a confusões quando ocorrem outros fenômenos climáticos, alimentando o negacionismo climático.

 

Catástrofe climática: Mais que descrever a situação, alerta para a sua gravidade.

Disrupção climática: Indica a interferência humana no sistema climático, que pode levar à sua instabilidade.

Colapso climático: Revela o enorme risco de desintegração dos sistemas climáticos e ambientais.

Desestabilização climática: Sugere a perda de equilíbrio do clima, observada na intensificação de eventos extremos.

Considerando o atual cenário, cuja gravidade é realçada, especialmente, nas expressões do segundo tipo, colocam-se três questões a serem examinadas, começando pela mais elementar, que formulamos da seguinte maneira:

1. Por que o clima se tornou uma questão urgente em nossa época?

Apesar da insistente narrativa negacionista, cabe afirmar que é cada vez mais evidente a existência não apenas de uma crise, mas de uma emergência climática. Com base em observações e medidas científicas reunidas e atualizadas periodicamente pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), podemos elencar como principais evidências dessa emergência climática o contínuo aumento da temperatura média global – desde o final do século XIX aos nossos dias -, que gera o acelerado derretimento das calotas polares e geleiras, resultando na elevação do nível do mar. Além disso, é notória a ocorrência cada vez maior de eventos climáticos extremos, como ondas de calor mais frequentes e intensas, secas severas, chuvas torrenciais, inundações e a intensificação de furacões, que se tornam mais correntes e destrutivos, precisamente, devido ao aquecimento do planeta e das águas dos oceanos.

Os efeitos, obviamente negativos, de todas essas ocorrências são inúmeros, mas podem ser resumidos em três principais: a) Perda de biodiversidade: uma vez que a decorrente destruição de habitats naturais leva à extinção de espécies; b) Insegurança alimentar e hídrica: já que as alterações climáticas, supracitadas, comprometem a produção de alimentos e a disponibilidade de água potável, provocando insegurança alimentar e hídrica em diversas regiões do planeta, sobretudo, aquelas em que habitam as populações mais vulneráveis, revelando dois problemas adicionais que são o racismo climático e a injustiça climática e c) Impacto na saúde humana: as elevações da temperatura e humidade aumentam a predisposição a problemas respiratórios e a crescente destruição dos habitats naturais acelera a disseminação de patógenos, que rapidamente se espalham por todo o globo, gerando problemas de saúde planetários, como o que vivemos na Pandemia da COVID-19.

Tal situação justifica, assim, o clima ter se tornado um problema central em nossos dias. Tanto que, em 2019, o termo emergência climática foi escolhido pelo Dicionário Oxford, como “palavra do ano”, definindo-a como: “situação em que uma ação urgente é necessária para reduzir ou interromper a mudança climática e evitar danos ambientais potencialmente irreversíveis resultantes dela.” No mesmo ano, inspirado pela ativista e ambientalista sueca Greta Thunberg (2003-), “o jornal The Guardian deixou de usar o termo “mudança do clima”, adotando expressões como “emergência climática”, “crise climática” ou “colapso climático”.” (https://www.oc.eco.br/19-termos-que-voce-precisa-saber-sobre-mudanca-do-clima/)

Frente à admissão da emergência climática, passemos à segunda pergunta.

2. Esse problema resulta da ação humana (é antropogênico) ou é um ‘efeito’ natural?

Temos aqui outra questão que é alvo do persistente discurso negacionista que, a despeito de todas as evidências e comprovações científicas, não reconhece as inegáveis mudanças climáticas atuais como, predominantemente, resultantes da ação humana, seja através da emissão de gases de efeito estufa, da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e das atividades industriais e agrícolas em grande escala.

Obviamente, existem processos naturais que determinam o clima como, por exemplo, atividades solares e vulcânicas. Contudo, o aquecimento global registrado desde o século XIX, cuja taxa se eleva de forma muito rápida e intensa, não é condicente com fatores naturais, sendo resultado direto da ação humana, potencializada pelas tecnologias, como bem apontou o filósofo Hans Jonas (1900-1993). O que nos leva a reconhecer que a emergência climática tem, sim, uma raiz incontestavelmente antropogênica.

3. Enfim, ainda há tempo para evitarmos o colapso?

Em 1992, treze anos após publicar sua obra principal, O Principio Responsabilidade, Jonas concedeu uma entrevista ao periódico alemão Der Spiegel, intitulada: “Mais próximos de um perverso fim”; nela, o problema climático, associado à catástrofe, já era trazido pelo entrevistador, sobre o qual Jonas declara:

“Quem não está diretamente ameaçado, não se decide a reformar radicalmente seu modo de vida. Ao contrário, desde que a ameaça se faça premente, tudo muda, tanto no plano individual quanto coletivo. Só se parte em fuga, quando erupção vulcânica já começou. Na presença de ameaças imediatas, o homem reage de maneira imediata, às vezes racionalmente, às vezes irracionalmente.” (Jonas, 1992)

Portanto, há mais de três décadas, Jonas já percebia a dimensão da emergência climática que, espantosamente, ainda é contestada por inúmeros negacionistas em nossos dias. Basta ver o que disse Donald Trump em seu recente discurso na Assembleia Geral da ONU, em 23/09/2025.

Ocorre que, para evitarmos o colapso é preciso uma mudança urgente no âmbito coletivo mundial. É o que tem sido discutido, há exatos 30 anos, nas COPs que, sintomaticamente, começaram em Berlim.

Sabemos que a COP 30 será realizada no Brasil, em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro próximo, com a missão de atualizar as metas climáticas dos países (NDCs: Contribuições Nacionalmente Determinadas), fortalecer o financiamento para a transição energética, discutir a preservação da Amazônia e priorizar a justiça climática, buscando soluções concretas e acelerar as ações no combate às mudanças climáticas, tirando as propostas do papel e trazendo para o plano concreto as decisões discutidas.

Porém, apesar de todas essas expectativas, há certo ceticismo em torno dos resultados efetivos de mais uma “Conferência das Partes”, sem a adesão de um dos maiores responsáveis por essa emergência climática, que nos coloca cada vez “mais próximos de um perverso fim”.

Enquanto a maioria dos dirigentes se preocupa e se dispõe a discutir soluções que possam, se não resolver, ao menos, minimizar o problema, aquele que se diz o homem mais poderoso do mundo, insiste em negar o evidente problema e a perseguir todos aqueles que pensam diferente dele, em nome da “liberdade de expressão”.

Considerações finais

Com base no que vimos, podemos afirmar a existência de uma emergência climática, de origem antropogênica, que nos conduz a um cenário cada vez mais catastrófico, que só poderá ser evitado (ou ao menos postergado) se houver um verdadeiro esforço de todos, em especial dos mais poderosos, para colocar em marcha uma nova forma de ação coletiva. .

Ao contrário, o que vemos surgir  com a emergência climática é o negacionismo daqueles que não se sentem diretamente ameaçados e, por isso, não se dispõem a modificar minimamente seu modo de vida, pois isso implicaria admitir que, apesar do poder que detém, estão sujeitos ao mesmo destino trágico que o restante da humanidade.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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