Para Além do autoritarismo: Formas de Resistência

Daiane Karoline Da Silva Ferreira

Mestranda em Filosofia na UFMT

18/11/2025 • Coluna ANPOF

Este texto propõe uma reflexão acerca da obra Estudos sobre a Personalidade Autoritária e do conceito de interseccionalidade. Parto da premissa de que a articulação desses dois referenciais teóricos aprimora a compreensão das opressões, apontando caminhos possíveis não apenas para entender o autoritarismo, mas principalmente para vislumbrar sua superação.

Em 1950, com a publicação da obra Estudos sobre a Personalidade Autoritária, Theodor Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford. Tinham como um de seus principais objetivos oferecer análises fundamentais para a compreensão do autoritarismo.

De acordo com, Carone (2012) muitos autores frankfurtianos, entre as décadas de 1930 e 1950, elaboraram diversas obras sobre o período entreguerras, buscando explicar o regime do Terceiro Reich e o genocídio judaico. Contudo, dentre esses trabalhos, Estudos sobre a Personalidade Autoritária se distingue por analisar as características latentes do preconceito nos indivíduos.

Para compreender as bases da teoria sobre o estudo acerca do preconceito, é preciso analisar suas principais influências intelectuais, com destaque para o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, na Alemanha. Conforme aponta Manenti (2023), citando Jay (2008), o instituto, fundado em 1923 por iniciativa de Félix Weil (1898–1975), contribuiu profundamente para o pensamento da época. Sua criação foi motivada pela busca da esquerda alemã por aprofundar a teoria marxista, corrigir possíveis equívocos do passado e elaborar novas perspectivas.  O instituto, que teve como membros Adorno e Horkheimer, foi essencial para a formulação da Teoria Crítica, desse modo, a obra sobre a personalidade ocorre durante o contexto de exílio nos Estados Unidos, já que a Europa estava imersa nas ideologias racistas nazifascistas.

Ademais, O círculo intelectual de Frankfurt desenvolveu análises críticas sobre a sociedade, produção, consumo, antissemitismo e regimes autoritários na Europa. No entanto, Manenti (2023 p.14) observa que, segundo Jay (2008, p.166), havia a necessidade de explicar a dificuldade do proletariado em cumprir seu papel histórico, o que levou os estudiosos a recorrerem a dimensões além da economia, já que a teoria marxista, mostrou-se insuficiente nesse quesito.

Além disso, pensadores como Max Horkheimer e Erich Fromm recorrem às teorias psicanalíticas de Freud, promovendo uma polêmica e instigante integração entre o marxismo e a psicanálise. Essa abordagem, conhecida como freudo-marxismo, tornou-se fundamental para compreender tanto a psique individual quanto as questões sociais da época, impulsionando os estudos sobre a formação da personalidade.

Campanharo (2014), acrescenta que a obra A Personalidade Autoritária (1950) descreve o “homem autoritário” como aquele que combina fatores tecnológicos com tendências irracionais. Essa concepção é entendida pelas noções de razão objetiva e subjetiva no contexto do século XX. Dessa forma, a obra é um estudo interdisciplinar que relaciona a estrutura social com a psique individual. Assim, os pressupostos teóricos marxistas e freudianos foram cruciais, pois, ao unir suas contribuições, permitiram a análise da personalidade preconceituosa.

Além disso, podemos constatar que a formação individual é moldada por fatores profundos que vinculam ideologias à personalidade. Psicologicamente, as opiniões carregadas de afeto (especialmente sobre grupos minoritários) revelam preconceitos latentes do indivíduo. A manifestação dessas ideias, segundo Adorno (2019, p. 18), depende da segurança percebida pela pessoa e do grau de liberdade que ela sente para expressar suas crenças e preconceitos mais profundos.

Atualmente, além da contínua reprodução de manifestações individuais de preconceito, destaca-se uma faceta ainda mais alarmante nesta discussão: o ataque sistemático a grupos socialmente vulneráveis. Essa prática, somada à culpabilização desses grupos por problemas coletivos, tem ganhado cada vez mais espaço no cotidiano social.

Podemos, assim, compreender que a crítica social presente no estudo sobre a personalidade preconceituosa constitui uma das vias possíveis para a análise de diferentes formas de compreender esses fenômenos. Todavia, dentro da própria análise da personalidade, há visões mais democráticas sobre a sociedade, uma vez que a estrutura psíquica dos indivíduos se relaciona às ideologias de diversas maneiras, conforme o contexto social em que estão inseridos.

A ideologia presente no estudo está ligada à indústria do entretenimento, amplamente analisada por Adorno e Horkheimer (1947), para os autores o entretenimento era uma ferramenta de dominação capaz de influenciar valores e subjetividades. Um exemplo claro desse poder é destacado por Sarmento (2006, p. 1), que aponta como o sistema nazista se utilizou amplamente da propaganda — especialmente do rádio e do cinema — para manipular a opinião das massas.

A análise dessas diferenciações ideológicas, no estudo em que foi realizada segundo a dinâmica de grupos, resultou na separação dos participantes em dois grupos principais: os “baixos pontuadores”, que apresentam pouco preconceito e não se alinham a ideologias antidemocráticas, e os “altos pontuadores”, que tendem a aceitar ideias preconceituosas, autoritárias e antidemocráticas. Essa distinção foi feita por meio da Escala F (de Fascismo), um instrumento criado por Theodor W. Adorno e o Grupo de Berkeley para medir a predisposição individual a esse tipo de ideologia.

 Dessa forma, dentro desse contexto, apesar de inseridos no sistema, alguns indivíduos conseguiam escapar das formas tão presentes de alienação da indústria, mesmo que os grupos marginalizados continuassem excluídos ou sub-representados no consumo e nas produções. Nesse período dos anos 1950 nos EUA, consolidava-se a "sociedade dos sonhos", marcada pelo consumo capitalista e produtividade (Sarmento, 2006, citando Rocha, 2005). Contudo, estavam ocorrendo profundas transformações sociais e culturais que afetaram o mundo inteiro (Hobsbawm 1995).

Posteriormente, a indústria cultural reagiu aos novos movimentos, tanto no campo artístico — com a predominância do Jazz — quanto nas esferas política e intelectual, marcadas pela luta por direitos civis. Essa reação se deu de duas formas: ora demonizando tais movimentos, ora se apropriando de suas pautas para vender produtos às comunidades marginalizadas.

Contudo, entre as décadas de 1960 e 1980, as novas gerações do pós-guerra, mais instruídas e sem os traumas do conflito, ganharam força e voz. Nesse período, as lutas por direitos civis e as teorias de libertação de vários grupos marginalizados se intensificaram, disputando também espaços de poder.

Diante disso, destacarei o conceito de interseccionalidade elaborado pela jurista Kimberlé Crenshaw em 1989 e amplamente utilizado por Patricia Hill Collins.  Concernente aos estudos de gênero e sexualidade, a interseccionalidade se tornou uma ferramenta analítica para compreender as diversas formas de opressão. O conceito se expandiu para múltiplas áreas do conhecimento e hoje é aplicado em diversos espaços, como a academia, burocracias governamentais e lutas por justiça social (Kyrillos, 2024, p. 1).

Collins (2021, p. 6) aponta que, no século XXI, o conceito ganhou vasta aplicação tanto por parte de ativistas e militantes que lutavam por políticas públicas, quanto no meio acadêmico. Neste último, o conceito foi amplamente aceito devido à sua potência teórica, capacidade interdisciplinar e relevância para entender os problemas da sociedade norte-americana. O que reverberou também no Brasil, no caso brasileiro, inúmeras intelectuais e ativistas negras se dedicaram a enfrentar o perverso mito da harmonia racial que se faz tão presente no país.

De forma semelhante Lélia Gonzalez, compreendia a interseção entre raça e gênero como crucial para dissipar o mito da democracia racial e expor as contradições da sociedade brasileira (Kyrillos, 2024, p. 3). Assim, observamos as múltiplas formas de interpretação e apropriação dos conceitos, tanto o de interseccionalidade quanto o de personalidade autoritária, que permitem que diferentes países, em diferentes estruturas sociais, possam analisar as opressões estruturais.

Portanto, essa é uma reflexão sobre a possibilidade de identidades transgressoras, mesmo diante da contínua intolerância, que se articula nos diferentes conceitos e revela muito mais do que apenas singularidades. Conceitos como interseccionalidade e personalidade autoritária, permitem compreender como a formação subjetiva pode se transformar em lutas coletivas, possibilitando a análise das opressões, sem que suas demandas sejam esvaziadas ou simplificadas.

Nesse contexto, a Teoria da Personalidade Autoritária, em diálogo com a   análise das personalidades não autoritárias, revela-se mais pertinente do que nunca. A obra de Adorno e do Grupo de Berkeley levanta uma questão fundamental: como formar sujeitos críticos e autônomos sem, ao mesmo tempo, reproduzir estruturas de opressão? Embora não haja uma resposta simples ou definitiva para essa indagação, ela permanece central para pensar os desafios da emancipação e da educação crítica.


Referências

CARONE, Iray. A personalidade autoritária: estudos frankfurtianos sobre o fascismo. Revista Sociologia em Rede, v. 2, n. 02, 2012.

COLLINS, Patricia Hills;Bilge. Sima. Interseccionalidade. Boitempo Editorial. 2021.

CAMPANHARO, Claudiana. A recepção adorniana de Freud no estudo da personalidade autoritária. 2014. Tese de Doutorado. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, 164 f.

CASTRO, E. M. A. de., LIMA, A. F. de. O freudismo e a teoria crítica. Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 108-123, jul./dez. 2014.

KYRILLOS, Gabriela M. Interseccionalidade proposta de um mapa teórico provisório. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 32, n. 2, e 90290, 2024.

MANENTI, Taís Barbosa. O conceito de fascismo em Theodor W. Adorno. 2023. 86 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Filosofia) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marília, 2023.

SARMENTO, Luciana. Indústria cultural, cultura de massa e contracultura. INTERCOM SUDESTE, 2006.


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