Por que ensinar filosofia para Edmond Dantès?

José Costa Júnior

Professor de Filosofia do IFMG

11/09/2025 • Coluna ANPOF

Um jovem marinheiro francês chamado Edmond Dantès vive uma vida simples com sua família e seu trabalho. É um sujeito da modernidade, com esperanças e expectativas. Porém, num acontecimento ao mesmo tempo banal e cheio de significado, tem um acidental contato com Napoleão Bonaparte, preso na Ilha de Elba, em 1815. A partir disso, sua vida muda: é traído pelo melhor amigo, perde a noiva e o pai e ficará anos preso numa masmorra. Vítima de injustiças e de sua ingenuidade, sofreu consequências de eventos que invadiram sua existência. Na prisão, terá tempo e estímulos para compreender os eventos que o levaram até ali, a partir do contato com um clérigo chamado Abade Faria. Esse processo é um dos difíceis de sua jornada, e, numa virada de sorte e oportunidade, tomará as rédeas da sua vida. Escapa da prisão e retorna à sua terra natal, agora como um conde. Rico e poderoso, sob glamouroso disfarce, planeja vingança contra tudo e contra todos.

Essa é a popular história narrada em O Conde de Monte Cristo, romance folhetinesco escrito por Alexandre Dumas e publicado entre 1844 e 1846. Com várias adaptações, a vida e a vingança de Dantès envolvem uma história de aventura e de sucesso, relativamente valorizada pela crítica literária. Depois de acompanhar uma das últimas adaptações cinematográficas (2024) para apresentar a obra de Dumas ao meu filho, uma cena em específico chamou a atenção, seguidos de uma releitura do romance para conferir como Dumas havia construído a situação. Trata-se do momento em que, num acidente, Dantè e Faria se conhecem na masmorra, e o jovem faz uma proposta ao experiente clérigo:

— O senhor poderia me ensinar um pouco do que sabe, nem que fosse para não se entediar comigo. Parece-me agora que deve preferir a solidão a um companheiro sem educação e sem importância como eu.

— Ai de mim, jovem! A ciência humana é limitada, e quando eu tiver-lhe ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que falo, o senhor saberá o que sei; ora, precisamos de meros dois anos para despejá-la do meu espírito para o seu.

— Dois anos! Acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?

— Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim. Aprender não é saber; há sabidos e sábios; é a memória que faz os primeiros, é a filosofia que faz os outros.

— Mas é possível aprender filosofia?

— Filosofia não se aprende; a filosofia é a reunião das ciências adquiridas pelo gênio que as aplica.

— Vejamos, o que vai me ensinar primeiro? Tenho pressa em começar, tenho sede de ciência.

— Tudo!

Ali, presos na masmorra, sem esperanças de fuga ou liberdade, condenados a uma eternidade de sofrimento, um injustiçado e um religioso se propõem a aprender e a ensinar filosofia. Durante anos, em meio à construção de uma possível fuga, os dois se dedicam a tal empreitada, juntamente com o oferecimento de outros conhecimentos e saberes. O que chama a atenção na cena (por sinal, retratada em diversas versões cinematográficas), é o fato do Abade Faria se preocupar em ensinar algo que, em tese, não terá uma utilidade naquelas difíceis circunstâncias. Presos, famintos, brutalizados e esquecidos, o convite à filosofia parece ser vazio de propósito. Para muitos o Abade Faria do romance de Dumas é uma versão ficcionalizada do Abade José Custódio Faria, religioso luso-goês que viveu no século XVIII, que participou da política e foi um reconhecido estudioso de psicologia e hipnotismo. No romance, a figura de idade avançada orienta Dantès e mostra caminhos, além de revelar um segredo decisivo para a história. Em meio a isso, a dúvida permanece: Por que ensinar filosofia para Edmund Dantès?

Aqui, as reflexões metafilosóficas da filósofa britânica Mary Midgley (1919-2018) podem nos ajudar a pensar possibilidades. Suas reflexões sobre a natureza, métodos, propósitos e limites da filosofia foram desenvolvidas ao longo do século XX em diálogo com várias tradições e práticas e são ricas e imaginativas, e nos oferecem um caminho a considerar. Em “Philosophical Plumbing” (1992), por exemplo, Midgley faz uma analogia entre os sistemas de pensamento mediante os quais vivemos e as redes e tubulações do encanamento de nossas casas: muitas vezes, nem os percebemos, mas eles estão lá. Foram elaborados em algum momento, atendendo a necessidades e são indispensáveis à vida cotidiana.  Enquanto estão funcionando bem, trazem estabilidade, segurança e conforto. Porém, em algum momento, podem começar a apresentar problemas e demandarem revisão e reparos por um profissional da hidráulica. Nesse sentido, assim como os encanadores consertam os danos dos nossos sistemas hidráulicos, a filosofia, através do trabalho de filósofos e filósofas, lida com sistemas de pensamento, estruturas conceituais que são absolutamente fundamentais em nossas vidas. Muitos desses sistemas foram construídos há muito tempo, com outros recursos e contextos. Assim, para Midgley, a prática da filosofia é análoga com o “ofício de reparar os encanamentos e as conexões” que formam nossos sistemas de pensamento.

Midgley aponta em What is Philosophy For? (2018) que os conceitos formam “a infraestrutura profunda de nossas vidas – os padrões que são tomados como garantidos, que muitas vezes são pouco examinados e questionados”. Assim, seria um erro pensar na filosofia como uma busca elevada que transcende a vida real, uma vez que estruturas conceituais estão fortemente vinculadas às nossas existências: “A filosofia não é um luxo privado, mas algo absolutamente essencial para a vida humana”. Na aventura de Dumas, Dantès sente-se injustiçado, quer vingança, não aceita seu destino e tem raiva daqueles que negaram sua dignidade e humanidade. Seus valores colapsaram, e sua felicidade foi destruída, uma vez que não pôde viver o amor que lhe era prometido. Ao ensinar filosofia para Dantès, o Abade Faria poderá oferecer uma competência fundamental, para que ele compreenda a estrutura conceitual do seu tempo e o que sustenta o fato de que poderosos, traidores, instituições e valores questionáveis o tenham impedido de viver plenamente a sua vida. 

Além de abordar e discutir conceitos, suas conexões e funcionamentos, Midgley defende que é relevante compreendermos onde e como as estruturas conceituais foram elaboradas, e com quais objetivos. Dantès está com raiva pois vive num mundo no qual já há a expectativa de respeito e considerações universais de dignidade e humanidade. Porém, tudo isso lhe foi negado em nome de outras vontades e interesses. Filósofos iluministas que lhe foram próximos no tempo elaboraram novos conceitos, questionaram outros, apontando perspectivas e pensamentos, evidenciando assim os absurdos aceitos e naturalizados, como, por exemplo, o fato de não se considerar a universalidade da dignidade humana, por exemplo. Essa é a razão pela qual filósofos e filósofas tornam-se conhecidos, pois mostram as suposições questionáveis e profundas que impactam nossos pensamentos, possibilitando novas maneiras de pensar. Assim, conhecer a história da filosofia é importante, na medida em que conhecemos como, quando e em quais circunstâncias as estruturas conceituais que regem nossas vidas foram elaboradas – acabando por tornarem-se suposições não-declaradas e aceitas sem muita crítica. Não percebemos essas suposições até que as coisas comecem a dar errado — até que, por assim dizer, o cheiro que vem de baixo seja tão ruim que seremos forçados a levantar as tábuas do assoalho e fazer algo a respeito.

É por isso que provavelmente Dantès irá estudar Aristóteles, pois sua filosofia sobre a felicidade não ficou obsoleta. Ela moldou e ainda impacta a maneira como pensamos sobre o tipo de vida que queremos. Ao pensar se irá se vingar ou não, pensará no que o fará mais feliz. De algum modo, dialogará com aquela filosofia, que tem raízes profundas nas nossas vidas e com a qual ainda discutimos. Assim, uma educação filosófica também é importante para não ficarmos presos em fragmentos de filosofias anteriores que inconscientemente herdamos de nossos predecessores. Nesses termos, precisamos entender as etapas da história da filosofia, porque as redes conceituais ali estruturadas moldaram o modo de vida que ainda vivemos – O que fará Dantès feliz? A vingança? Viver o amor? Tais conceitos ainda são características ativas de nossa vida presente, partes da floresta conceitual emaranhada na qual estamos tentando organizar nossas vidas. E como é relevante compreender o passado para entender o presente, seria estranho não saber porque pensamos da maneira que pensamos ou porque valorizamos aquilo que valorizamos.

Mesmo preso e cavando para uma possível fuga junto a um ancião, lamentando seu destino e pensando o que fazer da vida quando sair dali, Edmond Dantès precisará de filosofia. Na verdade, todos nós precisamos, uma vez que nossa vida é organizada e guiada por estruturas de pensamento e dinâmicas conceituais que, muitas vezes, nos escapam, mas que moldam nossos objetivos e esperanças. Conforme aprendemos com Midgley, a filosofia não é um luxo ou algo distante da vida, encastelada em academias ou próprias de homens sábios de algum momento da história. Em vez disso, é algo que todos nós fazemos o tempo todo, mesmo sem percebermos. Resta-nos agradecer ao Abade Faria por esse e outros tesouros.


Referências

DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Zahar: Rio de Janeiro, 2009.

Midgley, Mary. “Philosophical Plumbing”. In: Utopias, Dolphins and Computers: Problems of Philosophical Plumbing. Londres: Routledge, 1996.

Midgley, Mary. What is Philosophy For? Londres: Bloomsbury, 2018.


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