Por que perguntar? A filosofia como hábito diário
Gustavo Roncetti Gomes
Mestrando do PROF-FILO, núcleo UNIRIO
07/11/2025 • Coluna ANPOF
É interessante observar que no desenvolvimento infantil há uma fase curiosa, que comumente é chamada de fase dos porquês. Por que isso? Essa fase caiu no gosto popular de tal maneira que foi explorada por desenhos e programas infantis, incentivando a perguntar. São exemplos disso o desenho Dora Aventureira, em que uma menina exploradora com uma mochila que quer saber, entre muitas coisas, por que o gato mia. Outro exemplo é o personagem Zequinha, do famoso Castelo Ra-tim-bum, que elaborava uma infinidade de “por quês” e recebia no fim um “porque sim” de seus amigos exaustos diante de tanta curiosidade, aparecendo em seguida o Telekid, que dizia “porque sim não é resposta!” e dava explicações elaboradas sobre as perguntas feitas. Tais exemplos, mesmo que pertencentes ao mundo infantil e lúdico, expõem uma verdade filosófica defendida por Aristóteles: “Todos os homens, por natureza, tendem ao saber” (Metafísica A, 980a, 20).
Aristóteles ao escrever essa afirmação pretende afirmar categoricamente que saber é uma tendência do ser humano, algo tão intrínseco a ele, como é algo intrínseco à pedra cair quando solta de qualquer altura. Sabemos hoje que isso se deve à gravidade, mas no tempo dele acreditava-se que havia uma espécie de paixão, um apetite que atrairia naturalmente pedra e chão, ser humano e saber. Também é o mesmo Aristóteles que afirmará mais à frente, em Metafísica A, 982b, 11-27, que o desejo de saber serviria para libertar o ser humano da ignorância que, tendo se libertado das necessidades, poderia dedicar-se a um tipo de saber mais complexo. Contudo, tanto para o saber prático referente à vida cotidiana, quanto para o saber complexo, o ser humano precisou de admirar-se e sentir-se perplexo diante do mundo.
Diante do mundo, seja para transformá-lo de maneira prática, seja para contemplá-lo há de se ter um certo espanto. A experiência do espanto se dá diante da percepção da alteridade. Totalmente outro, o percebido é o inabitual, o estranho que causa no sujeito a percepção de uma não-homogeneidade do mundo, mas uma abertura nele. Guzzoni, comentando o trecho da Metafísica A, 982b a partir de uma influência heideggeriana, afirma que “porque aparece diferentemente do esperado, porque não podemos reduzi-lo ao que é conhecido ou familiar. (...) porque talvez desse algo emane uma certa força própria que faz calar nossa capacidade de sempre entender tudo.” (Guzzoni, 2011 p. 7). Para a filósofa, a abertura causada pela pergunta serve mais como uma provocação e não como uma provocação epistemológica para dar conta do mundo. Mas se o espanto abre a experiência da pergunta, a tradição moderna tratou de fechá-la, transformando a inquietação em necessidade de certeza. A tradição ocidental, para ela, teria perdido a capacidade de ouvir a pergunta e deixá-la ecoando, porque a partir principalmente da Modernidade cartesiana, precisou fazer ciência sobre todas as coisas a fim de obter a certeza.
Dessa forma, a sede de certeza é um caminho contrário ao caminho socrático em que vale mais a pergunta que a resposta. Saber que não sabe é uma abertura ao mundo, é o reconhecimento da estranheza das coisas. Elas ainda não são familiares, ainda não foram absorvidas pelo sujeito cognoscente. No fim, elas ainda são o que são em sua total alteridade. Sendo assim, elas sempre são um mistério! Mistério para o homem que é capaz de, dentre todas as coisas existentes, ser o único sujeito que busca seus porquês.
Contudo, tal atividade de perguntar corre o risco hoje de encontrar respostas muito facilmente. Em épocas de inteligências artificiais, as respostas já estão prontas, acabando com toda graça de se perguntar “por quê?”. Ensinar a resistir à instantaneidade das respostas e ao imediatismo do mundo contemporâneo é um desafio para o exercício do filosofar, correndo-se o risco de atrofiar o pensamento se a batalha for perdida. É a pergunta que mantém vivo o exercício do pensamento em sua autenticidade, como abertura ao mundo e não como reprodução dele.
Assim, questionar é um ato cotidiano de quem se espanta diante do mistério do mundo, mas não tenta reduzi-lo aos seus esquemas mentais, mas o permite ser em seu mistério. Ao mesmo tempo, é uma não-indiferença: o mundo é, e por isso ele espanta, ele causa cisões na pressuposição onisciente. Não saber também envolve sabedoria.
Referências
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