Por uma Crítica da Razão Cabocla

Fabíola Menezes de Araújo

Doutora em Filosofia pela PUC- Rio e em Teoria Psicanalítica pela UFRJ

15/07/2025 • Coluna ANPOF

Segundo pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, 10% das pesquisadoras brasileiras sofrem, ou sofreram, violência sica. Em nossas trajetórias acadêmicas, dentro e fora da Academia[1], somos açoitadas por uma estrutura misógina que persiste na violência física tornada evidente até nas elites intelectuais do país. 48% das pesquisadoras ainda denunciam silenciamento acadêmico. Há abuso. Há estupros.

Para pensar no que nos acomete, partimos, junto a Djamila Ribeiro, do lugar de fala como conceito e método de enfrentamento dessa realidade. Partimos de nosso próprio caso. Pois sim: foi preciso pautarmos grande parte de nossa existência no sofrimento denunciado em Avati Amuni[2].

Agora, com o aporte da psicanálise lacaniana, nos juntamos ao pretuguês de Lélia Gonzalez para tentar uma salvação (do grego soteria). Junto a essa salvação, orgulhosamente não buscaremos mais escapar, e, sim, pensar o real onde reiteradamente soçobramos. Podemos até nos colocar como objeto de riso em meio a uma travessia que entendemos como uma espécie de guerrilha. Antes, pedimos socorro. Para atravessar as encruzilhadas de uma Academia que combate mulheres, mas também combate o riso, e se mantém hierarquizada na misoginia, reaprender a rir nos parece essencial.

O que se mostra nos dados coletados é macabro, e inadmissível. A partir dos dados, percebemos que o nosso caso não é uma exceção. Nem é raro. Nem único. Logo percebemos que estávamos tomando “a pílula vermelha” em uma ‘Matrix Tupiniquim’.

Vimos-nos: sobreviventes em meio a naufrágios. A nossa própria ânsia de devir mulheres nós apagamos, nos fragmentando em muitas.

Já éramos mais de 300 pesquisadoras, ainda em 2015, quando viemos à Anpof denunciar os assédios e abusos sofridos dentro da Academia. Dispostas a dar a cara a tapa, a mostrar a outra face, ou apenas ansiosas por entender o incompreensível, certas de que seja possível a revolução feminista na Academia Brasileira, caminhamos juntas.

Cerca de dez anos depois, em 2024, apoiamos um Protocolo de Gênero[3] que ainda precisaremos seguir por bastante tempo. Agora, em 2025, assistimos à pesquisa produzida pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas. Pudemos constatar que, de fato, estamos longe de estarmos sozinhas. Violência física, e silenciamento acadêmico: eis o cotidiano de covardias tomadas como banais. Não são banais.

O olhar clínico de psicanalista talvez possa nos ensinar, dentre outras coisas, o seguinte: que o inimigo pode estar dentro, e pode estar ao lado. Que o lobo mal está, e não está, dentro de nós. Ao mesmo tempo, o fora de nós reluz do dentro. Se sempre foi nosso desejo nos responsabilizarmos pelo nosso próprio desejo, na Academia, no entanto, esse desejo escapa. Nós podermos ser lobas aqui está em pauta. Podemos supor, de antemão, que o desejo de ser vista pode ser mais forte do que o desejo de se fazer compreensível. Esse racional é compreensível. Já o irracional da violência pode não o ser. O nazifascismo não é uma opção de pai. Mas habitamos em uma moral vitoriana. E o horror persistirá, até no espelho. Para fazer o bem que nos propomos a fazer precisamos nos deslocar para Aruanda. Para nos tornarmos quem somos, plenas, deixamos de sofrer rotineiramente. Nossa vida pública foi privatizada pela estrutura. Vestimos, em algum momento de nossas existências, as roupas do Patriarcado. É por isso que sofremos. Precisamos ficar nuas. Em todo lugar onde nos afinamos com a lógica patriarcal, ficamos ansiosas por realizar sonhos de outrem. Na Universidade, resgatamos o sonho de uma vida profissional digna, balizada por nós mesmas, e não pelo Outro colonizador, patriarcal. Trata-se de uma fantasia, bem o sabemos. Aparentemente, é preciso falar sobre um insuportável fora da lei, mas dentro de uma lei sem poder, de fato ou de phalo...

Repetimos: a violência que sofremos não é da ordem do compreensível. Desconfiamos que, para compreender a violência de gênero, precisaríamos atentar para o incompreensível expresso nestas palavras: a bunda, o framengo, e a língua falada no Brasil – onde fincamos o pé junto a Lélia Gonzalez. Temos de re-aprender a falar e a dançar, e, na dança das cadeiras, rapidamente nos damos conta de que, nessas terras, até a Academia repete as discriminações estruturais de gênero e de raça que formam a sociedade brasileira.

Tanto o fato de ‘ser racializado (a/e)’ quanto o fato de ‘racializar’ se dão a posteriori. Na língua, o Inconsciente e a Política aparecem emaranhados. Mas o nosso materialismo histórico não está apenas na linguística. São e estão na falta: de comida e de trabalho, até. Só não falta Axé.

Se hoje há tantas estátuas de mármore, na verdade uns cuspidos em Carrara que ainda se conectam via preconceitos de gênero, mas também via pensamento, e pela via burocrática, talvez seja por causa de Nossa Senhora, a quem ainda podemos dar o poder de libertar.

A violência de gênero que sofremos dentro da Academia não é gratuita. Ela custa aos cofres públicos o nosso adoecimento. Mas a Academia onde os signos são autorizados a nos oprimir cairá. Urge a Revolução!

Em Sexismo e Sociedade Brasileira, Lélia propõe que algumas palavras – por exemplo, bunda e framengo – tornadas pejorativas em uma sociedade racista e classicista, espelhem, na verdade, nossa cultura de origem africana. Pasmem: por ter sido a cultura dos escravizados recalcada que, no Carnaval, podemos retornar, e nos tornar exuberantes. O Carnaval não necessariamente diminui o racismo. Isso porque, nos dias de folia, nós nos tornamos autorizados a servir pão e circo. Tanto a mulata quanto o caboclo, para usarmos de termos citados por Lélia, depois dos quatro dias profanos, deveriam, não obstante, retornar para as suas senzalas particulares. É injusto.

Para pegarmos a visão dos fatos ocorridos precisamos recorrer à justiça. É covarde a violência de gênero que ocorre dentro da Academia. Por um lado, não temos dúvida de que se trata de pesquisadoras do mais alto nível, nós que sofremos violência física. Supomos ser real o ‘Isso’ sentido pelos violadores. Mas somos desmentidas.

Condecoramos os violadores com essa espécie de prêmio: damos a eles o poder de violar alguém justamente quando a nossa formação humanística se torna impecável. Nas sombras desta caverna que termina por se tornar a Academia, aqueles que reconhecem, em nós pensadoras, alguém passível de ser violado termina por deixar transparente a própria covardia. Os violadores terminam, por isso, com estes dois prêmios: do ato de violar, e dos poderes adquiridos com esse ato. No primeiro, em meio a um gozo narcísico, dão vazão à perda da consciência. No ‘segundo prêmio’ (com ironia), no ato de violar, vemos a máxima das injustiças. Porque os violadores terminam, violando, adquirindo as condições necessárias para a realização de sua própria frouxa pesquisa, e eles têm (quase) toda a estrutura acadêmica a seu favor. Já às pesquisadoras violadas falta o chão, e o mínimo para a realização de suas pesquisas. Façamos, dessa falta, gerânios, com ternura.

Baseados em nosso próprio caso, fizemos necessário o devir Caboclo. Eis que sentimos, dentro de nós, uma luz. Porque sabemos não ser apenas por sermos incríveis que chegamos a ser alvo de tanta violência. Por sermos incríveis, queremos trazer a verdade à tona. Isso enquanto mais querem nos silenciar. Então gritamos: O nosso lugar é não apenas em Aruanda mas também na Academia, onde podemos ser até bem bélicas, e sentidas como opressoras. Onde Canaã, Iansã me quiser. Epahei.

É por ser a sociedade em que resistimos machista e misógina que há a tendência de que a nossa consciência seja sentida como opressora. Daí, nossa revolta perante às  situações opressoras. Para o diabo com o mito da negra raivosa! Os opressores gozam no ato de nos ver como uma espécie de bicho, e, assim, parecem ganhar sempre. Como enfrentar essa realidade?

A verdade pode ferir: pode ser que os violadores, perante as violências descritas, tenham, na trajetória das pesquisadoras violadas, eventualmente sido experimentados como o reflexo do Sumo Bem (com ironia). Um Kant versus Sade cujas vestes em nossa pequenina Era Vitoriana chegaram a significar poder. Eis que agora podemos realizar esta outra travessia: no ato de pensar nas violências de uma academia branca e fetichista, supor o saber sobre a falta (de origem edípica) como superior.

Os violadores denegam que soframos práticas misóginas que incidem sobre a nossa saúde, e na saúde de nosso território. Observamos tratar-se de uma estratégia violenta para nos excluir.

Discordamos, por exemplo, de Emmanuel Kant na eleição da Paz Perpétua como um bem maior. Na Crítica da Razão Pura, inspiração para a nossa Crítica da Razão Cabocla, conclui o alemão, por exemplo, pela limitação do conhecimento empírico (tempo e espaço). O que nos limita são apenas as violências. Ferem, inclusive, a ponto de excluir muitas de nós da academia. Haja indignação! Frente a tamanhas injustiças, não nos calaremos. Caboclas, aqui, viramos sinônimo de indignação. Não apenas na morte devemos clamar por justiça. A violência de gênero nos leva a enxergar, na indignação, causa da filosofia aqui nomeada Crítica da Razão Cabocla, matéria bruta para a obra prima que seria podermos pensar livremente, e sabermos que não estamos sós.


Referências 

LACAN, (1963). Kant avec Sade. In:______. Écrits. Paris: Seuil, 1966. p.765-790.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. In RIOS, Flavia; LIMA, Márcia (orgs.). Lélia Gonzalez: por um feminismo afro-latino americano. Ensaio, Intervenções e Diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, pp 67-83.

PERENA, Anna Kálister. Avati Amuni. RJ: Ed. Appris, 2020.

Rede Brasileira de Mulheres Filósofas: <https://www.filosofas.org/fórum/violenciadegenero/filosofas-sobre-a-violencia-de-genero?origin=business_manager> Acesso em 6/05/2025.


Notas

[1] Para acesso à pesquisa realizada em fevereiro de 2025 pela Rede Brasileira de Mulheres Filósofas: <https://www.filosofas.org/fórum/violenciadegenero/filosofas-sobre-a-violencia-de-genero?origin=business_manager> Acesso em 6/05/2025.

[2] Perena, Anna Kalister. Avati Amuni. RJ: Ed. Appris, 2020.

[3] Protocolo disponível em: <https://www.anpof.org/wlib/ckfinder/userfiles/files/Protocolo%20de%20Enfrentamento%20da%20Violência%20de%20Gênero%20.pdf> Acesso em 20/06/2025.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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