Portas que importam - gênero e flores
Aline Karen Cristina Canella
Doutoranda e mestre em Filosofia (PPGFIL/UCS)
27/11/2025 • Coluna ANPOF
Há algo de profundamente solitário em pesquisar dissidências. Não porque faltem teorias. Essas sobram. Falta escuta, falta vontade genuína no outro de aprender, falta empatia, diálogo. Estudar gênero e dissidência é passar o dia estudando a violência e voltar para casa sendo espectador dela, vítima dela, sem conseguir objetivamente alterar nada, se não passivamente, através de um trabalho “de formiguinha”. É tentar falar sobre teoria de gênero e conseguir menos público do que o boteco do Zé numa terça à noite. Não desmerecendo aquele, é apenas que tento expressar uma solidão que não se explica em palavras, só se vive: a solidão de quem, mesmo no meio de grupos que deveriam ser de resistência, precisa resistir ao próprio grupo, porque estes estão, sem perceber, propagando a violência.
Recentemente, em um desses espaços de “apoio e resistência a mulheres em situação de violência”, ouvi a pérola: deveríamos suavizar o nosso discurso, não sermos tão agressivas. Tornar mais acolhedoras as frases do evento de conscientização, porque “poderíamos ser vistas como violentas” e “afastar as pessoas”. Em especial os homens, claro, que, coitados, não aguentam tanto incômodo.
O exemplo de frase agressiva que havia sido usada anteriormente e causou grande comoção? A frase “em briga de marido e mulher se mete a colher”, que foi considerada “combativa demais”. Em seu lugar, sugeriram algo “mais didático”, mais maternal. Algo como — e aqui é preciso respirar fundo — “não bata, dê flores”.
“Não bata, dê flores.”
Ora, se flores bastassem, o 8 de março seria feriado nacional da igualdade. As flores, afinal, são a versão perfumada de uma realidade romantizada que perdoa a violência de gênero e a esquece com velocidade assustadora. E nós, mulheres, deveríamos agradecer a boa vontade e ainda sorrir, claro, para não parecermos mal-agradecidas. O problema é que o gesto simbólico de “dar flores” é o retrato fiel daquilo que Judith Butler tentou dizer quando falou sobre a impossibilidade de transformar o sistema atuando dentro da gramática que o sustenta.
Tomo a liberdade de deixar aqui um recorte da minha tese em desenvolvimento:
“Uma emancipação do sujeito “mulher” dentro desse sistema estaria fadada ao fracasso, porque se estaria utilizando de uma estrutura de poder que cria o sujeito “mulher”, ao mesmo tempo que o reprime, com o objetivo de se emancipar, tarefa que é contraditória. Isso porque não existe um momento anterior ao poder onde esse sujeito “mulher”, criado para ser uma peça em operação no sistema, tenha existido para além desta forma. Portanto, esses lugares de representação permanecem uma ilusão para que o poder continue igual. […] (Butler, 2015, p. 20)”
Assim sendo, não há revolução na delicadeza domesticada. Não há emancipação em aceitar os termos do opressor, operando de dentro dele, apenas uma estética da submissão disfarçada de empatia.
Quando se propõe, como feito no supracitado grupo, que, para não nos passarmos por agressivas, devemos “ensinar os homens como queremos ser tratadas”, transformamos a luta política em pedagogia de jardim de infância. Só que aqui, o “não pode bater” não é dito a uma criança de quatro anos, mas a um adulto que já entendeu perfeitamente o funcionamento do poder e o exerce com gosto.
O que se esconde por trás desse discurso manso é o velho pacto da normatividade: a mulher continua responsável por educar, curar, entender, acolher, corrigir, até mesmo aquele que a agride. É a extensão natural do “maternar” socialmente imposto. Somos mães do mundo, inclusive de quem nos machuca. E se a violência persiste, a culpa é nossa, que não ensinamos direito.
Mas o mais perverso é o deslocamento do foco: em vez de perguntar por que há homens agredindo mulheres, perguntamos por que as mulheres não “ensinam melhor” seus homens. E é nesse ponto que o grupo, a instituição e a própria linguagem traem seu nome de “resistência”. Porque enquanto continuarmos a pedir licença, a medir o tom, a polir o verbo, estaremos apenas decorando a cela, não rompendo as grades.
Então sim, é solitário e frustrante pesquisar gênero. Porque o campo da luta ainda está infestado de tapetes floridos sobre o sangue seco da conveniência. E é frustrante ver a teoria ganhar corpo, literalmente, diante dos seus olhos. E é por isso que a pesquisa dói tanto: porque o objeto não está distante, ele está em todo lugar, inclusive no discurso de quem acredita estar lutando.
Não é de se surpreender que Caxias do Sul (e poderia ser qualquer outra cidade, mas o nome ajuda a compor o cenário) seja o berço de campanhas como “Política de Saias” e “Mecânica de Batom”. Títulos que parecem ter saído de um brainstorm entre um publicitário dos anos 50, o personagem Michael Scott de “The Office”, e um padre progressista em crise existencial. São campanhas que fingem incluir, enquanto reafirmam exatamente o que dizem combater. Porque, afinal, ao portar uma vulva, o destino é um só: participar da política apenas enquanto a categoria mulher de saias, e se interessar por veículos apenas enquanto mulher de batom.
O batom, como metáfora, é a moldura que delimita o que é permitido, uma linha vermelha literal e simbólica. E a saia, claro, é a bandeira que tremula (não muito, para não ser vulgar) como aviso: “aqui habita o feminino conforme o esperado”. É a pedagogia da docilidade, vestida de empoderamento. “Participe, mulher, mas não se esqueça do seu lugar”. Butler já avisava: ser mulher, ser homem, ser qualquer coisa dentro desse teatro da norma, é uma performance, uma ficção social repetida tantas vezes que começamos a acreditar no próprio roteiro. A diferença é que, fora do palco, a plateia não aplaude: apedreja. O que chamamos de “gênero” é uma invenção, e não das mais criativas. Regras de um jogo que nunca foi nosso.
E é nesse cenário que chegamos à outra história, uma daquelas que lembram a Idade das Trevas. Hospital do Tricentenário, Olinda, Região Metropolitana. 2025. Uma mulher chega ao hospital com um quadro grave de endometriose. Sangramento intenso. Três lençóis encharcados, e era sangue vermelho que manchava os lençóis, e nenhuma rosa vermelha pode desfazer o que fizeram. E o que fizeram? Naquele hospital católico, administrado por freiras? Negam atendimento. Acham que a mulher fez um aborto. Não tinha feito nem sofrido aborto. Mas ainda que fosse…
Deixaram-na sangrar até morrer.
Dentro de um hospital.
Morreu por ser mulher. Art. 121-A, código penal brasileiro: Matar mulher por razões da condição de sexo feminino.
Foi julgada, condenada e executada, sem direito a defesa, sob a mesma lógica que acendia fogueiras em praça pública séculos atrás. Só mudaram os instrumentos: trocaram a lenha pela omissão, o fogo pela burocracia, e o inquisidor pelo médico que diz “não posso fazer nada enquanto o Beta HCG não sair”. Esse exame levaria no máximo uma hora. Nem seria necessário, se confiassem na palavra dela que repetiu várias vezes não estar grávida. Estar sangrando há dias. Ela esperou o resultado do exame por 10 horas, que nunca chegou, porque ela morreu antes.
As flores não impediram o sangue. Nem a morte. Nem a violência.
O que me incomoda, afinal? O mesmo que deveria incomodar a todos.
Incomoda perceber que, mesmo depois de tanto sangue, tanta morte, tanta violência e tanta teoria escrita à exaustão, o que se produz dentro da academia ainda não ecoa para fora dela. Incomoda ver que o discurso raso da flor, da delicadeza, da mulher de saias e batom que educa o agressor, a bela que transforma a fera em príncipe. Tudo isso continua se perpetuando.
E o mais perverso é que muitos se agarram a esses movimentos sociais e campanhas não por convicção, mas por vaidade. É o ego altruísta do século XXI: participar de causas que rendem curtidas, que soam bonitas nos editais e nas legendas. Gente que não percebe que o “outro” por quem dizem lutar é também o reflexo da vulnerabilidade que fingem não ver em si. Que não querem reconhecer.
Mas, sejamos honestos: mesmo dentro da academia o cenário não se altera. Os estudos de gênero seguem sendo tratados como um capricho ideológico, um modismo intelectual, uma excentricidade. Apenas “Uma pesquisa sobre mulheres”. Surpreende não terem criado uma “Pós-Graduação de Saias”, para guardar os incômodos num armário com etiqueta. Mal sabem eles que o gênero (essa invenção irritante, essa ficção social que fingimos que é real) não está trancado em nenhuma gaveta. Ele está em tudo. Ele se inscreve nas falas das reuniões, nos editais, nas campanhas, nas mortes, nas escolhas. É uma performance invisível que move o mundo, molda destinos, distribui privilégios e, principalmente: produz injustiça.
Mas ainda perguntam por que insistimos nesse assunto.
Ainda pedem “menos agressividade”.
Ainda querem flores.
Me lembro da minha avó, que, mesmo sem ter lido uma linha de teoria de gênero, (afinal, nem mesmo a deixaram aprender a ler por ser mulher), já sabia o essencial sobre o fracasso da comunicação entre mundos, e arrisco dizer, entendia muito mais que muitos acadêmicos:
“Parece que estou falando com portas.”
Referências
BUTLER. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão de identidade. Tradução de Renato Aguiar. 8a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Art.121, § 2º, inciso VI.
GAUCHAZH. 2018. Política de Saias. Disponível em: Acesso em: 12 nov. 2023.
G1. Mulher sangra até a morte em hospital de Olinda; amiga denuncia que equipe médica foi negligente por achar que ela fez aborto. G1, 22 out. 2025. Disponível em: Acesso em: 25 out. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE CAXIAS DO SUL. SMTTM (Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade). Mecânica de Batom está com inscrições abertas. Disponível em: Acesso em: 09 nov. 2025.
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