Professores e professoras de filosofia e suas obras educacionais
Rafael Mello Barbosa
Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Ensino CEFET/RJ
João André Fernandes da Silva
Professor de Filosofia do CEFET/RJ, atuando no Ensino Básico Integrado e no Mestrado Profissional em Filosofia e Ensino
21/10/2025 • Coluna ANPOF
Este texto é um convite para a formação de uma rede de docentes criadores de obras educacionais. Ele será construído em diálogo com a pergunta: como é possível valorizarmos, enquanto Área, as obras educacionais que nós elaboramos e produzimos?
Invariavelmente docentes perguntam-se pela valorização das suas atividades enquanto professores(as), não apenas das que são realizadas em sala de aula, mas de todas as atividades feitas antes e depois de ocuparem o tempo/espaço da aula e da escola. Entre essas atividades estão a elaboração de processos e produtos pedagógicos - atividades de criação de percursos, circunstâncias e experiências com os estudantes, verdadeiras obras de docentes para a docência. Por exemplo, quando elaboramos aulas de filosofia sobre uma música, ou quando tomamos uma música para ajudar a elaborar um conceito, ou quando nos valemos dela para sensibilizar e preparar a elaboração conceitual, ou como atividade de criação e avaliação. Isso para falar o mínimo do que se pode fazer com a música.
Passamos horas elaborando e reelaborando tais processos e produtos. Às vezes anos! Essas elaborações podem passar por diferentes turmas onde tentamos compreender o que pode ser aprimorado, os limites das estratégias utilizadas, incorporando as avaliações dos alunos que nos permitem apurá-las. Esse processo é rico e nos leva a gestar outros processos e produtos. Eventualmente, desenvolvemos alguns projetos em parceria com outros(as) professores(as), por vezes com professores(as) de outras disciplinas. Este processo é contínuo e por vezes é diversificado em função dos discentes e das necessidades pedagógicas. Quando dizemos isso, não indicamos nada de novo na atividade docente. A grande maioria deles (as) produzem obras para a docência (não apenas no formato acadêmico, nem mesmo restritas à linguagem escrita) ao longo de toda sua carreira. No entanto, pelo menos no caso do ensino de filosofia, reside um grande mistério: onde estão essas obras? Se são muitos(as) os(as) docentes e muitos(as) produzem ao longo de anos, deveria haver muitas dessas obras.
Evidentemente, se procurarmos em plataformas de busca, encontraremos algumas, mas em uma quantidade muito aquém do que seria esperado. Por várias razões essa produção acaba sendo engavetada, esquecida e perdida. Uma das razões parece ser a valorização insuficiente desse tipo de produção por parte da academia e, consequentemente, das agências de pesquisa. A CAPES, por exemplo, mesmo sendo uma agência voltada para o ensino e pesquisa de alto nível e para a formação de professores da educação básica, valoriza sobretudo a produção docente voltada para a pesquisa acadêmica da pós-graduação.
Ainda são poucos os espaços abertos para as produções docentes voltadas para a docência, sobretudo aquelas que estão para além dos formatos tradicionalmente aceitos nos espaços acadêmicos, como um filme, por exemplo. No contexto brasileiro, a maioria dos pesquisadores é de docentes e parece claro a todos que também seja recomendado incentivar ao docente-pesquisador a produção e a publicação de suas pesquisas relativas à docência.
O pouco incentivo à pesquisa e a falta de espaço para publicar afastam o(a) docente da reflexão sobre sua própria prática. Acreditamos, enquanto docentes, que devemos valorizar todas as nossas reflexões, inclusive as que são relativas às nossas práticas docentes, potencializando aquilo que já fazemos e sentimos necessidade de fazer pelo bem do ensinar e da docência. É importante ressaltar outras razões pelas quais fomos levados a criar o Laboratório de Inteligências Coletivas (LIC): nós nos dedicamos a produzir obras educacionais e desejamos divulgá-las e valorizá-las como produção intelectual. Em função da estima que damos a esse tipo de produção, buscamos ter acesso às produções de outros docentes.
A organização de uma rede de pesquisa, de publicização e de registro adequado destas obras, parece-nos uma ferramenta que aprimora o ensino de filosofia. Esse recurso potencializa a relação do professor com o estudante, do estudante com a filosofia e do professor consigo ao dialogar com os outros professores.
Não foram poucas as razões que nos fizeram chegar a essa ferramenta. Uma das primeiras foi permitir que as obras educacionais que estavam sendo realizadas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Ensino (PPFEN)[1] pudessem ser disponibilizadas aos professores do Estado do Rio de Janeiro, decorrente da preocupação com o bom uso dos recursos públicos. O LIC é uma ferramenta aberta, o que permite incorporar novas funcionalidades como: repositório, curadoria, certificação, fomento à criação, rede de professores(as), entre outras possibilidades.
Ele já funciona valendo-se do trabalho coletivo e contínuo de pesquisa multi-institucional. Faz menos de um trimestre que efetivamente estamos no ar, aquilo que aparece na plataforma é resultado de anos de elaboração, desenvolvimento e testes, e esse processo não seria realizado sem a existência de uma rede de docentes que compõe esse laboratório. Uma rede que extrapola o PPFEN e conta com a participação de docentes de diversas regiões[2]
As primeiras sementes estão começando a brotar. Apesar de já se constituir como uma rede, este projeto está longe de possuir a capilaridade desejada. Para que isso aconteça é preciso ampliar a divulgação do projeto entre licenciandos, docentes de filosofia e pesquisadores da área. Convidamos todos e todas os(as) interessados(as) a submeterem seus produtos e igualmente a levarem para sala de aula os produtos pedagógicos dos(as) demais colegas. Quando submeterem suas produções atentem para a possibilidade de solicitar a certificação, que consiste na avaliação cega por pares. Essa ferramenta favorece a legitimação para as instâncias avaliadoras do trabalho apresentado. Para quem não está preocupado com isso, serão aceitas e igualmente valorizadas as submissões que não solicitarem certificação, desde que não apresentem conteúdo ilegal ou impróprio.
Os(as) docentes que levarem os produtos educacionais de outros colegas para sala de aula e, em função da situação concreta e de sua própria formação e perspectiva da filosofia, acabarem por alterar o produto inicial, poderão reapresentá-lo e submetê-lo como um novo produto, com as devidas citações. O LIC é uma ferramenta que conecta professores e permite que trabalhemos coletivamente, algo como um grande livro didático elaborado publicamente por todos de modo horizontal[3].
A estrutura do LIC se caracteriza não só por uma tipologia ampla que recepciona os principais tipos de produtos educacionais produzidos na área de Filosofia, desde imagens até jogos. Ela também está aberta aos produtos educacionais voltados às áreas de Educação para as Relações Étnicorraciais e Educação para os Direitos Humanos. Essa ampliação de escopo se deve tanto a uma obrigação legal, quanto a um esforço de valorizá-las como áreas específicas e por reconhecer que muitos professores e professoras de filosofia produzem para essas áreas e vinculam-se a elas por serem fundamentais para a formação integral.
O LIC é uma resposta afirmativa à pergunta inicial do texto. Não é possível uma atividade docente livre e autárquica sem que o docente tenha a possibilidade de criar aquilo que julgar mais apropriado para a realização da aula e da experiência de ensino e aprendizagem. Não é possível deixar os nossos produtos educacionais abandonados e esquecidos e junto com eles o percurso de erros, limitações e acertos eventuais. Não é possível sucumbir à plataformização da educação sem buscar alternativas que valorizem a criatividade, autonomia e liberdade do docente. Não é possível sustentar a ideia de transformar a sociedade sem a mediação da comunidade estabelecendo um diálogo que valorize a igualdade das inteligências.
Com todos os problemas que o tempo nos coloca, em nenhum momento estivemos tão preparados para enfrentar o desafio de assumir o Campo do Ensino de Filosofia e tudo aquilo que implica essa assunção, em especial a contribuição que a filosofia pode dar na construção de um projeto educacional para o Brasil. Convidamos a todos(as) que julgaram interessante a proposta, que a divulguem e juntem-se a ela se inscrevendo-se no LIC e acessando-o regularmente pelo endereço: https://lic.cefet-rj.br/
Notas
[1] Os discentes, conforme as normas do referido programa, devem defender uma dissertação e um produto didático.
[2] Gostaríamos de citar e agradecer à Profa. Elisete Medianeira Tomazetti e aos demais integrantes do LEAF (UFSM), à Profa. Inara Zanuzzi (UFRGS), a Prof. Márcia Gabrielle Rodrigues Laux (SMPOA), Profa Marinês Barbosa de Oliveira (CEFET/MG), ao Porf. Fábio Borges do Rosário (SEEDUC-RJ), ao Prof. Marcelo Senna Guimarães (UNIRIO) e à Profa Valéria Cristina Lopes Wilke (UNIRIO) e todos os docentes e discentes do PPFEN.
[3] Livro Didático Público. Conceito elaborado e sugerido para o projeto pelo Prof. Marcelo Senna Guimarães.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.