Quais os impactos na filosofia universitária quando a filosofia vai à escola?
Patrícia Del Nero Velasco
Professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e do Mestrado Profissional em Filosofia da UFABC; Presidenta da ABEFil
Augusto Rodrigues
Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação Profissional em Filosofia da UFABC; Coordenador do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da Anpof
22/10/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofar e Ensinar a Filosofar da Anpof
Uma breve recapitulação dos últimos 50 anos permite-nos afirmar que o ensino de filosofia na educação básica viveu seus tempos áureos, em termos de carga horária e de estabilidade curricular, entre os anos 2008 e 2017, em razão da Lei nº. 11.684/08. Antes disso, a filosofia oscilava, nos termos de Dalton Alves (2002), entre a ausência definida (1964-1980), a presença controlada (1980-1996) e a presença inócua (1996-2007). Com a promulgação da BNCC em 2017, Lei nº. 13.415/17, e as demais políticas educacionais que a sucederam, a curta estabilidade da filosofia, no currículo, tornou-se, novamente, ameaçada – comprometendo os sentidos formativos filosóficos nessa etapa de educação.
Contra a ausência do ensino de filosofia nos currículos das escolas brasileiras, a comunidade filosófica promoveu, historicamente, muitas ações para defender, perante a sociedade brasileira e as/os responsáveis pela educação do país, a importância formativa desse saber na vida de crianças, jovens e adultas/os. Salvo exceções pontuais, há, entre as/os pares, um consenso sobre as potencialidades da educação filosófica na vida humana e, especialmente, na educação básica (cf., p. ex., Severino; Lorieri; Gallo, 2016). No entanto, e se pensássemos a questão da importância do ensino de filosofia na educação básica por outro ângulo, de maneira a avaliar quais são os efeitos que ela fomenta, não mais na/o estudante da escola, e sim na filosofia universitária? Afinal, quais são os impactos na filosofia universitária quando a filosofia vai à escola?
Essa mudança de perspectiva nos parece um exercício de pensamento fundamental, porque, raramente, se reflete como a situação da filosofia acadêmica também se altera com a presença da filosofia na vida escolar. Trata-se de uma via de mão dupla: não só a educação básica e a população brasileira se beneficiam, mas também a filosofia acadêmica se enriquece quando o filosofar ultrapassa os muros das universidades. A presente coluna pretende, justamente, explorar alguns dos impactos na filosofia universitária, quando se ensina filosofia na educação básica. Nossa escrita se orienta tanto em nossa convivência com diferentes gerações de estudantes dos cursos de filosofia, bem como em nossas trajetórias como pesquisadora e pesquisador do Ensino de Filosofia.
Como primeiro ponto, destacamos que o ensino de filosofia no ensino médio tornou-se um dos principais agenciadores de futuros filósofas e filósofos profissionais. Ainda que essa impressão não tenha sido quantificada, é notório o número de novas/os integrantes que procuram o curso de filosofia por conta de suas vivências no período escolar, porque se sentiram, de alguma forma, provocadas/os por aquela forma de pensar. Nesse sentido, a democratização da experiência filosófica, para além dos muros universitários, trouxe nova vida para a academia, convidando novas/os interessadas/os a integrarem a comunidade filosófica brasileira. É bem verdade que as graduações de filosofia existiram, por muito tempo, no Brasil, independentemente da presença ou não da disciplina na escola, porém quem eram aquelas/es que as procuravam? À qual classe pertenciam e o que buscavam? Por intermédio das aulas de filosofia nas escolas, novos perfis de estudantes procuram a universidade e ocupam um espaço que, historicamente, foi reservado à elite brasileira, contribuindo para que a filosofia acadêmica seja, hoje, uma comunidade mais plural em consonância com as diferentes realidades do país.
Além desse aspecto, a presença da filosofia na educação básica foi determinante para a abertura de um novo campo de conhecimento filosófico e de novas práticas de pesquisa na área. Desde a iminência do retorno da disciplina ao currículo escolar no final dos anos 1990, professoras/es e pesquisadoras/es se articularam, academicamente, para criar uma cultura de pesquisa filosófica relacionada ao ensino de filosofia. Entendia-se que não bastava garantir, em lei, o retorno da disciplina, sem que, ao menos, se criasse uma tradição acadêmica no assunto. Em outras palavras, o êxito da filosofia na educação básica dependia da abertura de um novo campo de conhecimento, constituído pela problematização filosófica das questões do ensino, da aprendizagem e da formação docente em filosofia, que até então eram abordadas, de maneira estrita, pela (igualmente importante) perspectiva educacional (Rodrigues; Velasco; Gelamo, 2024). No início dessa movimentação, as/os participantes apostavam que essa nova política de pensamento ampliaria o campo maior da filosofia acadêmica, pois traria novos problemas e questões ainda marginalizados pela comunidade filosófica. No I Congresso Brasileiro de Professores de Filosofia, considerado um dos marcos de emergência dessa política filosófica do ensino de filosofia, Alejandro Cerletti destaca como o filosofar sobre o ensino de filosofia força a abertura da filosofia acadêmica e, consequentemente, a enriquece:
Essa mudança de perspectiva amplia notavelmente também o campo filosófico, porque agora a filosofia deverá reconhecer como próprio o problema de sua transmissão ou de seu ensino, que é algo que sempre se viu (sobretudo a partir da filosofia acadêmica) como um aspecto separado ou como uma questão subalterna ou menor (Cerletti, 2003, p. 66).
Pouco mais de duas décadas após as afirmações de Cerletti, atestamos que suas previsões foram certeiras. A presença (ou a possibilidade) do ensino de filosofia na escola impulsionou a criação de um novo campo de conhecimento, que funciona, atualmente, de maneira autônoma e consolidada – pois possui suas próprias regras e especificidades estabelecidas pelas/os agentes do campo, além de contar com uma vasta produção acadêmica e revistas que permitem a constituição e circulação de um corpus disciplinar , de maneira a desenvolver os registros da filosofia universitária.
Nesse sentido, ao ampliar o espectro da filosofia acadêmica, que agora também considera as questões da filosofia e seu ensino, permitem-se a revisitação e a reinvenção de algumas práticas e pressupostos consolidados na universidade, em razão das especificidades relativas aos objetos de pesquisa. Em primeiro lugar, há uma expansão da ideia de filosofia. Para aquelas/es que pesquisam o ensino de filosofia, interessa, sobretudo, a filosofia em sua dimensão educacional, como uma atividade cujas práticas fundam-se dentro de uma relação educativa (Gallo; Kohan, 2000). E isso impacta, diretamente, na maneira de se pesquisar. Já não basta uma pesquisa de cunho teórico-bibliográfico, em que os problemas são herdados de uma tradição de leitura sobre autoras/es ou temas previamente estabelecidos. Os problemas do ensino de filosofia emergem, principalmente, de um âmbito relacional e vivencial, que impulsiona a/o pesquisador/a a um tipo de pesquisa teórico-prática que necessita transformar a experiência educativa em experiência de pensamento, forjando os problemas e os conceitos filosóficos na intensidade das relações. Nesse caso, é importante salientar que os problemas e conceitos emergentes não se restringem ao registro problemático da didática da filosofia – as relações metodológicas, as práticas de ensinar e aprender na perspectiva escolar, a avaliação –, mas perpassam também as dimensões éticas, políticas, epistemológicas e estéticas que atravessam as relações educativo-filosóficas (Velasco, 2022).
À guisa de conclusão, gostaríamos de, primeiramente, apontar que nossa proposta de escrita não pretendeu esgotar os impactos e as potencialidades geradas na filosofia universitária, em razão da presença da filosofia na escola. Os pontos elencados apenas retratam potencialidades que percebemos a partir de nossas vivências na universidade e de nossas práticas de pesquisa na área do Ensino de Filosofia. Reconhecemos que o ensino de filosofia na educação básica provoca a expansão dos limites e compreensões da filosofia universitária, contemplando um novo campo de conhecimento, novas relações com a filosofia e novas práticas de pesquisa, além disso torna-se fundamental para forçar parte da comunidade filosófica a perceber algumas das demandas específicas da licenciatura – que, brevemente, apresentaremos a seguir.
Os cursos de licenciatura ainda carecem de maior atenção e cuidado de todas/os que participam da filosofia universitária. Pesquisadoras/es da área, professoras/es e participantes de programas de formação docente (como o PIBID e a Residência Pedagógica) continuam a denunciar algo já há muito apontado na literatura especializada: o hiato entre a formação inicial e o ofício docente. Em sua prática profissional cotidiana, as/os docentes deparam-se com uma gama de situações e demandas que se renovam e se multiplicam diariamente. Cada geração de estudantes exige alterações metodológicas, curriculares, arsenal cultural sobre as temáticas contemporâneas que, inevitavelmente, atravessam o cotidiano escolar – como o racismo, as questões de gênero, as especificidades culturais brasileiras, os devires deficientes na escola, as tecnologias e a plataformização da educação – e pouco são exploradas na formação docente. Não obstante tenhamos avançado em muitos pontos na formação de professoras e professores (Tomazetti; Velasco; Almeida Jr., 2022), as experiências das/os agentes escolares e universitários sinalizam que estamos longe de ter superado os pressupostos do chamado modelo 3+1, ou seja, não vencemos a cultura bacharelesca de universidade, que entende a formação de professoras/es como um apêndice da formação da pesquisadora e do pesquisador.
Diante das possibilidades que se abrem na filosofia universitária em razão do ensino de filosofia na educação básica, não deveríamos, cada vez mais, cuidar de nossos cursos de licenciatura, de modo a garantir suas especificidades e integralidade? Por isso, precisamos nos comprometer com a readequação, constante, dos projetos de cursos; criar disciplinas mais afeitas à sala de aula e às realidades escolares, e que tenham, na literatura produzida pelo campo do Ensino de Filosofia, seu apoio fundamental; cuidarmos, com afinco, dos estágios supervisionados e da dimensão prática de nossos componentes curriculares; além de garantirmos que os concursos na área de Ensino de Filosofia sejam, de fato, preenchidos por especialistas que terão condições de trabalhar com os problemas próprios da licenciatura (Velasco, 2024). Ora, essa é uma tarefa que não cabe somente às/aos professoras/es dedicados à licenciatura; trata-se de um compromisso de toda comunidade filosófica que se preocupa com as ricas possibilidades que se abrem para filosofar no Brasil quando a filosofia também se faz presente na escola.
Referências
ALVES, Dalton José. A filosofia no ensino médio: ambiguidades e contradições na LDB. Campinas, SP: Autores Associados, 2002.
CERLETTI, Alejandro. Ensino da filosofia e filosofia do ensino filosófico. In: GALLO, S.; CORNELLI, G.; DANELON, M. (Org). Filosofia do Ensino de filosofia. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 61-69.
GALLO, Silvio; KOHAN, Walter. Apresentação. In: GALLO, S.; KOHAN, W. O. (Org.). Filosofia no ensino médio. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000, p. 7-10.
RODRIGUES, Augusto; VELASCO, Patrícia Del Nero; GELAMO, Rodrigo Pelloso. Filosofia do Ensino de Filosofia: o debate da cidadania-filosófica a partir dos movimentos histórico-discursivos do campo. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 38, p. 1-40, 2024.
SEVERINO, Antônio Joaquim; LORIERI, Marcos Antonio; GALLO, Silvio (Org.). O papel formativo da filosofia. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2016.
VELASCO, Patrícia Del Nero. O estatuto epistemológico do Ensino de Filosofia: uma discussão da área a partir de seus autores. Pro-posições, Campinas, v. 33, p. 1-26, 2022.
VELASCO, Patrícia Del Nero. Por que a comunidade filosófica resiste em reconhecer e respeitar as especificidades do Ensino de Filosofia como subárea de pesquisa? Coluna ANPOF. 10 de abril de 2024. Disponível em: https://anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/por-que-a-comunidade-filosofica-resiste-em-reconhecer-e-respeitar-as-especificidades-do-ensino-de-filosofia-como-subarea-de-pesquisa. Acesso: 03 out. 2025.
TOMAZETTI, Elisete; M.; ALMEIDA JÚNIOR, José Benedito; VELASCO, Patrícia Del Nero (Org.). Formação e Experiências de Docência em Filosofia. Santa Maria, RS: Editora da UFSM, 2022.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.