Radar Filosófico - A monstrofilia da soberania: um ensaio sobre violência e desejo
Bruno Latini Pfeil
Doutorando em Filosofia (PPGF/UFRJ)
25/11/2025 • Coluna ANPOF
O artigo A monstrofilia da soberania: um ensaio sobre violência e desejo foi publicado na trigésima primeira edição da revista Ensaios Filosóficos, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UERJ. Nele, busca-se compreender o processo de monstrificação de corporalidades marginalizadas, concebendo a figura do monstro como uma ficção política de manutenção de relações de poder entre sujeitos considerados plenamente humanos, soberanos, e sujeitos desumanizados, bestializados. Tendo como base autores como Jacques Derrida, Judith Butler, Grada Kilomba, Paul Preciado e Achille Mbembe, o ensaio tem como objetivo desenvolver o conceito de monstrofilia para se referir à ambiguidade com a qual sujeitos soberanos se relacionam com sujeitos subalternizados: estes últimos são, para os primeiros, tanto alvo de aniquilação quanto de desejo. Corpos não-brancos, trans, intersexo, com deficiência, migrantes e dissidentes, transformados em Outros monstruosos, são ao mesmo tempo aniquilados e desejados.
A partir da leitura d’A besta e o soberano, na qual Derrida evidencia o dualismo entre o Humano soberano, que dita a lei, e o Outro bestial, situado à margem da lei, sem direito à palavra e amordaçado, compreende-se que a relação entre o Humano e o Outro, o soberano e a besta, baseia-se no medo: apenas há soberania quando há lei, e apenas há lei quando há medo. Pelo militarismo, o Estado se manifesta como a representação desse medo, operacionalizando-se pelo necropoder, por meio do qual, segundo Achille Mbembe, a soberania colonial determina o valor de cada corpo conforme seus marcadores e suas origens. Corpos colonizados são reduzidos à descartabilidade, suas palavras não são inteligibilizadas: quando o Outro fala, não se compreende que suas palavras valham de algo, e se busca sistematicamente calá-lo. Negar a palavra é negar a humanidade. Ser reconhecido como Humano demanda que se esteja inserido dentro de uma fronteira linguística e política, fora ou nas bordas da qual os Outros são reduzidos à condição de besta. A besta, porém, é própria do Humano, escreve Derrida. Cria-se o monstro que se deseja eliminar. Nesse sentido, a humanidade, tal como a monstruosidade, se manifesta como ficção: uma invenção que justifica exclusões e legitima violências.
A violência soberana contra a besta ocorre através da bestialização do soberano: este pode violar, exterminar e esvaziar a besta, preenchendo-a com elementos que justifiquem sua eliminação. O soberano reside tanto dentro quanto fora da lei; dita a lei ao mesmo tempo que dela se exime. A violência, supostamente tida como atributo da bestialidade, torna-se prática sistemática do Estado. A monstruosidade do Estado, porém, não se assemelha à dos oprimidos: o soberano está para a besta tal como o Leviatã hobbesiano para a Quimera. Apesar da constância com que a besta morre, esta deve ressurgir logo em seguida. Trata-se de um necropoder da ressurreição, em que a soberania se reafirma pela incessante eliminação da besta.
Para além da dinâmica de morte em relação ao monstro, observa-se também uma dinâmica de desejo do soberano pela besta. Nesse momento, surge a noção de monstrofilia: a erotização de corpos subalternizados, submetidos a um processo de feminização. Tendo como base o regime farmacopornográfico delineado por Paul Preciado, verifica-se como corpos subalternizados se tornam corpos-produto, feminizados. A feminização, nesse contexto, diz respeito à transformação do corpo subalternizado em objeto de desejo e consumo. Gayatri Spivak evidencia como o estupro colonial, e a violência sexual de maneira geral, se mostram como uma metonímia da conquista. A violação do Outro, motivada pelo desejo sexual pelo Outro e por sua descartabilidade, se mostra como uma arma colonial e estatal, como um mecanismo de instrumentalização da dominação. A violência sexual, naturalizada quando exercida pelo sujeito soberano, estende-se como extensão da soberania.
Derrida traz a ideia de falo soberano para pensar no exercício violador da soberania, não se referindo ao órgão sexual, mas sim a uma prótese totêmica, maior do que o próprio soberano. O falo soberano deve estar constantemente ereto, representando uma ereção cadavérica, sustentada pela violação e pelo consumo do Outro feminizado. A polícia opera como uma máquina masturbatória, que, ao efetivar a violação de corpos subalternizados, erige o falo soberano e reiteram sua potência fálica.
Para além da polícia, a soberania se exerce pelo voyeurismo. Hospitais, asilos, prisões e zoológicos surgem como espaços de observação e examinação do Outro, que se transforma em objeto de desejo e fascínio. Observar, controlar, violar. Com a monstrofilia, compreende-se que a soberania não se sustenta somente pelo necropoder, como também pelo desejo perverso pelo Outro.
A soberania moderna e colonial opera pela articulação entre a violência estatal e a violência sexual, de modo que a desumanização se entremeie à hiperssexualização. A monstrofilia se caracteriza, portanto, como a lógica desejante e necrofílica subjacente à modernidade.