Radar Filosófico - Por uma filosofia à brasileira das matas e das ruas
Pamela Cristina de Gois
Doutora em Filosofia pela UFRJ
Wallace de Moraes
Professor Associado do Departamento de Ciência Política da UFRJ; membro permanente dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF) e História Comparada (PPGHC)
19/09/2025 • Coluna ANPOF
Objetivamos criticar aqui o eurocentrismo enraizado na Filosofia e ensinado em profusão nas nossas escolas e universidades, mostrando o quanto é importante a contemplação de uma filosofia brasileira, decolonial por natureza, de modo a despertar o interesse de diferentes estudantes. A filosofia não pode se resumir a autores europeus eleitos pelos seus iguais como clássicos, excluindo quaisquer outros não-brancos distantes da lógica colonialista, igrejista e estadolátrica.
Se o eurocentrismo está baseado fundamentalmente na imprescindibilidade do Estado e, para dizermos o mínimo, na tolerância com relação à igreja, provocativamente, resgatamos as teses de Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche sobre a relação da filosofia com essas instituições. Interessa-nos compreender as críticas que fazem aos filósofos estadolátricos e igrejistas que moldaram o mundo ocidental, e que, por isso, não tinham independência intelectual. Todavia, sob essa perspectiva, em que pese Schopenhauer e Nietzsche apresentarem reflexões muitíssimo pertinentes, mostraremos que elas não servem na sua plenitude para entender o Brasil e suas relações sociais, políticas e econômicas, tampouco sua história, principalmente, a de negros e indígenas. Sob uma lente decolonial libertária quilombola, Estado e igreja foram as patrocinadoras do colonialismo e de todas as suas mazelas, funcionando até os dias atuais como fiadoras das colonialidades. Sob esta tese, mostramos como mesmo as fortes críticas de Schopenhauer e Nietzsche são insuficientes para quem leva em consideração prioritariamente as histórias de negros e indígenas. Em suma, não concordamos com aqueles que buscam em autores europeus o álibi para pensar sobre as nossas relações. Dessa maneira, abrimos espaço para defender uma filosofia à brasileira.
Diante de toda essa problemática, colocamos algumas questões: o que é filosofia e o que ela tem a ver com as nossas experiências? É possível filosofar para além dos muros do eurocentrismo e daquilo que foi erigido enquanto clássico, enraizado como conhecimento canônico? Apresentamos alguns conceitos que compõem uma forma de interpretar o mundo. Esperamos que o leitor compreenda o quão importante é buscarmos possibilidades de filosofias brasileiras, absolutamente conectadas com as matas e as ruas.