Radar Filosófico 8M - O Republicanismo no espelho: O desafio da igualdade após a colonização
Nastassja Pugliese
FE/UFRJ - PPGLM/UFRJ
03/03/2026 • Coluna ANPOF
O capítulo “Republicanism in the Mirror: The Case for Equality After Colonization”, que publiquei recentemente, integra o volume Women and Republicanism, organizado por Sandrine Bergès e Alan Coffee, publicado pela Oxford University Press em 2026, na coleção Oxford New Histories of Philosophy. O livro reúne contribuições que investigam o papel de filósofas como Mary Wollstonecraft, Harriet Jacobs, Anna Julia Cooper, Maria Stewart, Louise Keralio, Germaine de Staël e Nisia Floresta na tradição republicana e buscam ampliar o cânone da filosofia política. Em meu capítulo, apresento as contribuições das filósofas brasileiras do século XIX que escreveram em periódicos, como Nisia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Francisca Senhorinha da Mota Diniz e Juana Paula Manso.
Na introdução ao volume Women and Republicanism, Alan Coffee e Sandrine Bergès mostram que a história do republicanismo foi construída como uma tradição predominantemente masculina, apesar da participação significativa de mulheres em sua formulação ao longo do tempo. Ao tomar o conceito de independência como central, os editores argumentam que o republicanismo sempre se desenvolveu em diálogo com contextos históricos e geográficos específicos. Assim, conceitos como liberdade e igualdade assumem significados distintos conforme o tempo, o lugar e a posição social dos sujeitos que os mobilizam — como evidencia o contraste entre pensadores europeus e aqueles situados em contextos coloniais. O volume busca refletir essa diversidade ao incluir experiências que vão além do eixo europeu. Meu capítulo é apresentado como exemplo de um “republicanismo atlântico”, no qual o pensamento político emerge das circulações transatlânticas e das experiências históricas da colonização e da escravidão, ampliando o significado de independência e revelando a natureza plural da tradição republicana.
Nele observo que, no contexto brasileiro, mulheres que produziam reflexão política enfrentavam múltiplas formas de exclusão e que suas condições sociais moldaram a ideia de igualdade, núcleo de suas preocupações filosóficas. Diferentemente de certas formulações clássicas do republicanismo europeu, que partem da liberdade como valor fundante, as pensadoras brasileiras tratam a igualdade como condição necessária para a liberdade. Em suas análises, não há liberdade possível sem o reconhecimento prévio de uma condição civil comum entre indivíduos e grupos. Essa inversão teórica leva à ampliação do próprio conceito republicano de liberdade. Enquanto a tradição moderna enfatizou a liberdade como não-dominação da pessoa — isto é, a ausência de interferência arbitrária nas ações do indivíduo—, o pensamento político feminino no Brasil pós-colonial sugere que essa definição é insuficiente. A experiência histórica da colonização revela que a dominação arbitrária não se exerce apenas sobre indivíduos, mas também sobre territórios e culturas. Assim, o capítulo identifica três dimensões do ideal republicano que emergem desse contexto: além da liberdade da pessoa (do indivíduo), temos também a liberdade pensada como não-dominação da terra e como não-dominação da cultura.
A liberdade como não-dominação da terra refere-se ao direito de estabelecer vínculos legítimos com o território. A liberdade, como não-dominação da cultura, emerge da percepção de que a colonização também opera por meio da imposição simbólica. Nesse processo, a produção intelectual tornou-se uma forma de ação política. A liberdade passa a incluir a capacidade coletiva de produzir sentidos, preservar práticas culturais e construir identidades não subordinadas. Por fim, a liberdade, como não-dominação da pessoa, permanece um eixo fundamental, mas é reinterpretada à luz dessas outras dimensões. A igualdade entre os sexos, portanto, é vista como um passo decisivo na construção de uma ordem republicana justa. O capítulo sugere que essas reflexões devem ser compreendidas no âmbito de um Iluminismo Atlântico, conceito inspirado em Beatriz Nascimento e entendido como um espaço de circulação bidirecional de ideias entre a Europa, a África e as Américas. Essa perspectiva permite reconhecer que o pensamento político moderno foi produzido tanto no interior da Europa quanto em diálogo — frequentemente violento — com as sociedades colonizadas. A inclusão das pensadoras brasileiras nesse cenário contribui para desafiar narrativas eurocêntricas que atribuem a emancipação política exclusivamente a ideais importados.
A principal contribuição do capítulo consiste, portanto, em mostrar que a história do republicanismo, quando observada a partir de contextos pós-coloniais, precisa ser retomada e repensada. A liberdade não pode ser concebida apenas como proteção contra a dominação individual, mas também deve abranger a autonomia cultural e a relação justa com o território. Nessa reformulação, a igualdade aparece como fundamento da liberdade e não como seu resultado. Ao propor essa ampliação conceitual, o texto recupera a relevância das mulheres brasileiras do século XIX para a história da filosofia política, oferecendo instrumentos para repensar o próprio significado do republicanismo em um mundo marcado por heranças coloniais. Espero que gostem da leitura. Ficarei feliz em receber comentários.