Radar Filosófico - Yoko Ono, Umberto Eco e a invenção do inimigo
Flávio Rocha de Deus
Doutorando em Filosofia (UFOP)
23/09/2026 • Coluna ANPOF
O que aconteceria se jogássemos xadrez sem saber quais peças são nossas e quais pertencem ao adversário? É essa situação aparentemente simples que Yoko Ono cria em Play It by Trust, obra conceitual realizada originalmente em 1966. O tabuleiro conserva a estrutura tradicional do xadrez, mas todas as suas peças e espaços são brancas. Desaparece, assim, a diferença visual que normalmente permite identificar os dois jogadores. Ainda é possível movimentar as peças, mas já não é tão fácil saber contra quem se joga.
Foi a partir dessa obra que procurei aproximar o trabalho de Ono de uma ideia desenvolvida por Umberto Eco em sua conferência “Construindo o inimigo”: a de que o inimigo não é apenas alguém que encontramos, mas também alguém que precisamos construir. Para Eco, a figura do inimigo desempenha um papel importante na formação de identidades coletivas. É pela oposição a um outro que frequentemente estabelecemos as fronteiras que nos permitem dizer quem somos.
Na obra de Ono, ao retirar do tabuleiro a diferença entre as peças, ela coloca em questão a própria lógica que sustenta a disputa. No xadrez, sabemos quem somos porque sabemos quem é o outro. As peças brancas pertencem a um jogador e as pretas ao outro. Cada movimento é pensado a partir dessa distinção. A existência de um adversário não é um elemento secundário da partida; é uma das condições que tornam a partida possível. Sem a oposição entre os jogadores, a própria ideia de vitória perde seu sentido.
Eco mostra que algo semelhante pode acontecer fora dos jogos. Sociedades e grupos podem construir sua identidade a partir da identificação de um outro que deve ser enfrentado, temido ou derrotado. Ao longo da história, inimigos estrangeiros, grupos políticos e diferentes formas de ameaça foram mobilizados para estabelecer fronteiras entre “nós” e “eles”. O inimigo, nesse sentido, funciona como uma espécie de espelho invertido: aquilo que rejeitamos no outro ajuda a definir aquilo que desejamos reconhecer em nós mesmos.
Play It by Trust torna essa operação visível justamente ao interrompê-la. Se todas as peças são iguais, como saber onde termina o “eu” e começa o “outro”? Como vencer quando não conseguimos identificar aquilo que devemos derrotar? Se Eco nos ajuda a compreender como o inimigo pode ser produzido para sustentar identidades, Ono imagina o que acontece quando essa construção deixa de funcionar.
Artigo publicado na Revista Anãnsi, vol. 07, n. 01 (2026). Acesse aqui