Realismo e metafísica na mecânica quântica
Raoni Arroyo
Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSC; bolsista do CNPq; Pesquisador Colaborador do CLE
Jonas R. Becker Arenhart
Professor Associado do Departamento de Filosofia da UFSC; membro do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMA.
30/07/2026 • Coluna ANPOF
Especial | XXI Encontro Anpof
Sobre o que o realismo científico é realista? Como acontece com muitas posições filosóficas, o realismo científico é uma postura notoriamente difícil de definir com precisão; no entanto, há um núcleo central de sua tese que é comum à diversas formulações: podemos obter diretamente da ciência uma imagem de como o mundo é de fato. O realista científico, portanto, está comprometido com a crença de que uma descrição correta da realidade pode ser obtida a partir da nossa melhor ciência.
Colocado dessa forma, o problema parece adquirir uma caracterização unívoca, mas esse não é o caso. Nossa proposta é a de que há diferentes níveis de resposta, que terão diferentes metodologias de investigação, e que terão diferentes graus de conexão com a ciência, algumas um grau mais direto, enquanto em outros casos a conexão é completamente inexistente. Essas diferenças indicam que em alguns níveis podemos atender a algumas expectativas acerca da fundamentação que temos para obter uma imagem de mundo esperada da ciência, mas em outros não.
Vamos ilustrar esses diferentes níveis tomando o caso da mecânica quântica como exemplo. A primeira forma de se responder à pergunta acerca do realismo é fornecendo um catálogo de entidades com as quais a teoria nos compromete, se for verdadeira. Na mecânica quântica, esse catálogo depende de uma interpretação da teoria. Toda interpretação da mecânica quântica responde ao problema da medição, que Maudlin (1995) famosamente formula como um trilema: não se pode sustentar ao mesmo tempo que (i) a função de onda descreve um sistema físico de modo completo, que (ii) ela evolui de modo unicamente linear e que (iii) as medições têm resultados únicos. Isso porque a veracidade (hipotética) das duas primeiras premissas acarreta a falsidade da terceira. Abrir mão de uma das premissas gera uma correspondente família de soluções — e, crucialmente, de distintas entidades mobiliando a realidade. Se abandonamos a completude, obtemos variáveis ocultas: a teoria da onda-piloto de Bohm povoa o mundo com partículas de posição sempre determinada, guiadas por uma onda não local. Se abandonamos a linearidade, obtemos formulações com colapso da função de onda: numa das versões mais antigas e mais desconfortáveis, a de von Neumann e Wigner, é a mente humana que provoca o colapso. Se abandonamos a unicidade dos resultados, obtemos a ramificação de Everett, em que a função de onda se desdobra em muitos ramos, frequentemente chamados de “mundos”.
Cada uma dessas interpretações fixa um conjunto diferente de existentes como parte do que há segundo a teoria, e esse conjunto vem diretamente da ciência. A literatura considera que isso é parte da ontologia, e fazer isso tem um grande apelo etimológico. Ontologia é literalmente o estudo do ser, e a pergunta crucial desse ramo da filosofia é — ao menos desde a tradição Carnap–Quine — a questão sobre o que existe (ou há). Aqui, a conexão com a ciência se exibe em grau máximo, nos deixando tão perto da ciência a ponto de perdemos contato com a filosofia. Logo, a ontologia (enquanto parte da filosofia) não parece ter feito nenhum trabalho aqui. Para evitarmos confundir o trabalho da ontologia com o trabalho de simplesmente verificar o que a ciência está fazendo, deslocamos esse conjunto existencial para fora da filosofia e para dentro da ciência ela mesma: a isso chamamos de “catálogo científico” (Arroyo e Arenhart, 2026).
Agora, sobre um tal catálogo podemos fazer perguntas que a física não responde, e aqui entra a segunda forma de se responder ao problema do realismo. Suponhamos que tenhamos fixado uma interpretação da mecânica quântica como a “vencedora” do debate interpretacional. Como resposta ao problema anterior, teremos um correspondente catálogo de entidades (elétrons, prótons, muitos mundos, consciência com poder causal, onda piloto…). Nada na física determina se o catálogo científico é composto por objetos, estruturas, processos, eventos ou propriedades. Considere a questão: um elétron é um objeto, possuidor de propriedades, ou uma potencialidade que se atualiza em determinados instantes? Ou seria ainda uma estrutura, uma espécie de ponto focal de uma coleção de relações? Esse debate é paradigmaticamente um debate sobre as categorias, ou tipos, ontológicos (cf. Arroyo e Arenhart, 2024). Tratar dessa questão seria uma tarefa da metafísica (enquanto ontologia), que deverá investigar o problema pelos seus próprios métodos. A mecânica quântica tem muito pouco a dizer sobre isso diretamente. Com isso, na medida em que abrimos o campo para o filósofo, perdemos contato com a ciência de forma mais direta.
Podemos ir ainda mais fundo na questão acerca da imagem da realidade obtida a partir da ciência, e perguntar pela natureza metafísica das entidades das quais trata a ciência. Essa seria a terceira forma de responder ao problema do realismo (cf. Arenhart e Arroyo 2021; Hofweber 2016). Considere a suposição de que resolvemos os dois problemas anteriores, e que nossos elétrons são objetos. Cabe ainda a pergunta: qual a natureza metafísica desses objetos? Um objeto pode ser entendido como um indivíduo, através de diversas teorias sobre a individualidade: ela pode ser explicada por uma coleção de propriedades qualitativas possuídas apenas pelo objeto em questão, por um substrato, por uma hecceidade ou ainda pela trajetória espaço-temporal. No caso da mecânica quântica, temos ainda a opção por entender esses objetos como não-indivíduos, que gera um pacote de opções igualmente compatível com a física (French e Krause 2006, cap.4). Nesse caso, estamos igualmente longe da física como no caso da segunda forma do problema do realismo; a mecânica quântica não escolhe entre indivíduos e não-indivíduos — e nem qual sentido de individualidade/não-individualidade. Com isso, o suporte da física para a metafísica nesse sentido é praticamente nulo.
Que apenas uma parte da tarefa de se responder ao problema do realismo possa obter suporte da ciência soará como uma surpresa, provavelmente. De acordo com a crescente literatura sobre o programa da naturalização da metafísica (cujo marco é Ladyman e Ross 2007), a metafísica simpliciter — muitas vezes chamada de metafísica “analítica”, “tradicional”, “neoescolástica”, “irrestrita”, etc. — deveria ser substituída por uma metafísica que fosse contínua com a ciência: a metafísica naturalizada. O motivo disso é que a metafísica não-naturalizada “[…] falha em qualificar como parte da busca iluminada pela verdade objetiva, e deveria ser descontinuada” (Ladyman e Ross, 2007, p. vii); em contraste, a metafísica naturalizada seria capaz de atingir esse objetivo — um objetivo realista, vale notar! Então seria uma grande melhoria se a metafísica pudesse ser derivada da ciência, de modo a derivar dela também suas credenciais epistêmicas. Se isso fosse o caso, o realismo científico e o realismo acerca da metafísica estariam perfeitamente alinhados — e, de fato, parte representativa da literatura considera ser esse o caso (cf. Arroyo e Morganti, 2025). Vale notar que a naturalização também ganha matizes: desde a naturalização radical, segundo a qual a metafísica deve ser derivada/extraída da ciência (Ladyman e Ross, 2007), até formas mais brandas (e praticamente inócuas quando se trata de garantir ancoragem epistêmica da metafísica na ciência) segundo as quais a metafísica somente não deve conflitar com a ciência (Bryant, 2020, Emery, 2023).
Essa separação em três níveis reorganiza o velho debate do realismo científico. Retomando a questão inicial deste ensaio, agora o debate se debruça sobre o quanto de metafísica o realismo científico requer. Realistas “profundos” dizem que qualquer posição que queira ser consideradamente minimamente e coerentemente realista requer uma descrição metafísica sobre aquilo que se é convidado a ser realista, enquanto realistas “rasos” negam isso (cf. French, 2018). Em nossa terminologia, alguém pode ser realista de modo “raso”, comprometendo-nos apenas com a existência dos entes que a teoria cataloga; ou de modo “profundo”, exigindo, além disso, um comprometimento com a natureza metafísica desses entes (cf. Arroyo e Arenhart, 2022).
O ponto é que o realismo profundo não possui ancoragem com a ciência, dado que vai muito além do que a própria ciência diz — portanto, muito além do que a naturalização autoriza. A física é soberana apenas sobre o catálogo: é ela que estabelece o que existe, e isso já é muito — exceto que, dada a subdeterminação, não sabemos qual é o (ou se há um) catálogo correto. Já a natureza daquilo que existe — se é objeto ou estrutura na metafísica enquanto ontologia; se indivíduo ou não-indivíduo na metafísica enquanto metafísica — flutua livre da física. Quem quiser saber investigar a natureza das coisas terá de fazer metafísica — e assumir o risco de fazê-la sem a rede de proteção da física (Arenhart e Arroyo, no prelo).
Arenhart, J.R.B., Arroyo, R. Back to the question of ontology (and metaphysics). Manuscrito 44(2), pp. 1–51, 2021.
Arenhart, J.R.B., Arroyo, R. Floating Free From Physics. Springer, no prelo.
Arroyo, R., Arenhart, J.R.B. On the naturalistic grounds of grounding. Ratio, 2026.
Arroyo, R., Arenhart, J.R.B. Whence deep realism for Everettian quantum mechanics? Foundations of Physics 52(121), 2022.
Arroyo, R., Arenhart, J.R.B. Quantum ontology de-naturalized: what we can’t learn from quantum mechanics. Theoria 39(2), pp. 193–218, 2024.
Arroyo, R., Morganti, M. Naturalistic metaphysics and the parity thesis: why scientific realism doesn’t lead to realism about metaphysics. Synthese 206(6), 2025.
Bryant, A. Keep the chickens cooped: the epistemic inadequacy of free range metaphysics. Synthese 197(5), pp. 1867–1887, 2020.
Emery, N. Naturalism Beyond the Limits of Science: How Scientific Methodology Can and Should Shape Philosophical Theorizing. Oxford University Press, 2023.
French, S. Realism and Metaphysics”. In Saatsi, J. (org.), The Routledge Handbook of Scientific Realism. Routledge, pp. 394–406, 2018.
French, S., and Krause, D. Identity in Physics: A Historical, Philosophical, and Formal Analysis. Oxford: Oxford University Press, 2006.
Hofweber, T. Carnap’s Big Idea. In: Blatti, S., Lapointe, S. (orgs.) Ontology after Carnap. Oxford University Press, Oxford, pp. 13–30, 2016.
Ladyman, J.; Ross, D. Every Thing Must Go: Metaphysics Naturalized. Oxford University Press, 2007.
Maudlin, T. The Metaphysics Within Physics. Oxford University Press, 2007.