Revisitar a Amizade em Aristóteles: ética, justiça e felicidade

Doralice de Lima Barreto

Doutoranda em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)

02/12/2025 • Coluna ANPOF

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles examina a finalidade última da vida humana e afirma que todas as ações e investigações visam a um fim supremo: a eudaimonia, a felicidade obtida pela atividade virtuosa. Duas condições são essenciais à realização desse fim: a amizade (philia) e a justiça (dikaiosyne). Ambas são fundamentos da vida boa e, embora distintas, não podem ser separadas. A verdadeira felicidade não se basta em si mesma, realiza-se no convívio e na reciprocidade entre os homens. Assim, a amizade não é mero afeto, mas uma virtude moral que liga o indivíduo ao bem comum e sustenta a unidade da polis.

Aristóteles afirma que a amizade é “sumamente necessária à vida” (1984, p. 179), pois ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os outros bens. Essa necessidade é universal e manifesta-se em todas as circunstâncias, como na juventude e na velhice, na prosperidade e na adversidade. Presente de modo natural nas relações familiares e até entre os animais, a amizade estende-se à vida política, onde se torna princípio de coesão e ordem. Os legisladores, observa Aristóteles, “preocupam-se mais com ela do que com a justiça” (1984, p. 179), porque a amizade afasta o facciosismo e une os cidadãos pela afeição recíproca. Assim, a amizade aparece como a forma mais elevada de justiça, uma disposição espontânea que assegura a harmonia social e o bem comum.

O filósofo distingue, contudo, diferentes espécies de amizade. Seu ponto de partida é a pergunta: “a amizade pode nascer entre quaisquer pessoas, se os maus podem ser amigos e se existe uma única espécie de amizade ou várias?” (1984, p. 180). Ele analisa então o objeto do amor, isto é, aquilo que é digno de estima. Nem todas as coisas são amadas, mas, apenas o que é bom, agradável ou útil desperta amor. Surge outra questão: “os homens amam o que é bom em si ou o que é bom para eles?” (1984, p. 180). Desejar o bem do outro “no interesse dele próprio” (1984, p. 180) caracteriza benevolência, mas ainda não amizade, a menos que esse sentimento seja recíproco e consciente. “Como chamá-las de amigas se ignoram os seus mútuos sentimentos?” (1984, p. 180).

Dessa análise, surgem três espécies de amizade, correspondentes às formas de amor:  por utilidade, por prazer e pela virtude. As duas primeiras são acidentais e frágeis, pois dependem de algo exterior ao caráter. A amizade perfeita, porém, ocorre entre homens bons e semelhantes em virtude, que desejam o bem uns aos outros por si mesmos. É a mais duradoura, pois “a bondade é uma coisa muito durável” (1984, p. 182). Somente os virtuosos amam o amigo como um outro eu, alcançando uma forma de autossuficiência (autarkeia) que, embora completa, escolhe compartilhar a vida com o outro. Essa amizade é rara, mas, quando existente, torna-se o espelho mais fiel da vida feliz e justa.

Há, também, amizades desiguais como entre pai e filho, governante e súdito, marido e mulher nas quais a igualdade é proporcional e não aritmética. Cada parte ama conforme o papel que exerce e o mérito que reconhece no outro. Essa proporcionalidade distingue a amizade da justiça estritamente legal, pois na amizade o equilíbrio é afetivo e voluntário. As pessoas muito desiguais em virtude, riqueza ou poder dificilmente mantêm amizade duradoura, já que a disparidade impede o prazer mútuo. “O homem comum não espera a amizade do rei, nem o corrupto a do sábio” (Aristóteles, 1984, p. 183).

A amizade, segundo Aristóteles, é também o espelho da vida política. “Toda comunidade parece ser uma espécie de amizade” (1984, p. 188), e quanto mais intensa for a amizade, mais justa será a cidade. O vínculo político autêntico não se reduz a um pacto formal, mas nasce do afeto virtuoso e da disposição de cooperar em vista do bem comum. As associações utilitárias, como a dos marinheiros ou comerciantes, dissolvem-se com o término do interesse; mas a comunidade política, fundada na amizade, busca a permanência e a justiça. Por isso Aristóteles considera a amizade e a justiça como correspondentes, ou seja, onde há amizade, há também justiça, e quanto mais perfeita a amizade, menos necessidade de leis coercitivas. “Entre amigos não há necessidade de justiça, mas entre justos há necessidade de amizade” (Aristóteles, 1984, p. 179).

Essa reciprocidade entre amizade e justiça explica por que Aristóteles afirma que os legisladores devem cuidar mais da amizade do que da lei. A amizade é a disposição ética que realiza espontaneamente o que a justiça procura instituir por meio da norma. A cidade justa é, portanto, aquela em que os cidadãos vivem como amigos, partilhando o bem comum. A philia é a forma mais concreta de universalidade ética,  começa nas relações particulares e culmina na vida política, unindo o microcosmo das virtudes individuais ao macrocosmo da comunidade.

A reflexão de Aristóteles no Livro VIII antecipa os desenvolvimentos dos Livros IX e X, em que a amizade é associada ao amor de si mesmo (philautía). O homem virtuoso deseja o bem do amigo porque reconhece nele a própria virtude, e nesse espelhamento entre o eu e o outro encontra-se a essência da amizade perfeita. Essa relação entre interioridade e alteridade mostra que a felicidade não é solitária nem puramente contemplativa, pois, a eudaimonia realiza-se na convivência e no reconhecimento mútuo do bem.

Ao fim, a amizade aparece como o elo que unifica ética e política na filosofia aristotélica. A philia é o espaço onde o amor ao bem se traduz em justiça e o exercício da virtude se torna forma de vida partilhada. Mais do que um sentimento, é a realização prática do ideal ético, viver bem com os outros e, por meio deles, alcançar a plenitude do humano. Em Aristóteles, a amizade é o paradigma da vida feliz, pois somente na presença do amigo o homem reconhece o espelho de sua própria bondade.

Relembrar o tema da amizade em Aristóteles, nos dias atuais, é mais do que um exercício filosófico, é um gesto de resistência ética diante de um mundo em que as relações humanas tendem a ser mediadas pela utilidade e pelos interesses. Vivemos numa época marcada pela instrumentalização das relações, em que o valor do outro é frequentemente mensurado por sua produtividade, influência ou capacidade de oferecer algum tipo de benefício. A leitura dos Livros VIII e IX da Ética a Nicômaco nos convida a revisitar a ideia de amizade como fundamento da vida boa, da eudaimonia, e como estrutura vital para a coesão social e política.

Ao refletir sobre as formas de amizade, seja por prazer, por utilidade e pela virtude, Aristóteles oferece um diagnóstico que ainda descreve, com precisão, o modo como nos relacionamos. As amizades fundadas no prazer, hoje facilmente associáveis à sociabilidade das redes digitais, são voláteis e passageiras. Nelas, o outro é fonte de entretenimento, não de bem moral. As amizades de utilidade, por sua vez, predominam em contextos profissionais e institucionais, onde o laço humano é frequentemente subordinado ao interesse. Apenas a amizade virtuosa, aquela em que se deseja o bem do outro por ele mesmo, escapa dessa lógica da troca e se estabelece como espaço de alteridade e reconhecimento mútuo.

Num tempo em que a solidão se tornou uma epidemia silenciosa, e a convivência pública é corroída pela polarização e pela desconfiança, a reflexão aristotélica ganha novo vigor. Aristóteles compreendia que a amizade não é apenas um afeto privado, mas o cimento da polis, até porque os legisladores preferem a amizade à justiça (Aristóteles, 1984), escreve ele, porque a amizade assegura a coesão que nenhuma lei pode impor. Em outras palavras, a política, para Aristóteles, não se sustenta apenas na justiça formal, mas na disposição afetiva de reconhecer o outro como digno de bem.

Relembrar isso hoje é, portanto, redescobrir a dimensão ética e política da amizade. Em uma sociedade atravessada por desigualdades e pela lógica do consumo, cultivar a philia aristotélica significa apostar em vínculos desinteressados, sustentados pelo caráter e pela virtude. Essa amizade não é sentimentalismo, mas prática de liberdade, um modo de resistir à mercantilização da vida e de afirmar que a boa convivência exige mais do que contratos e requer o exercício constante da virtude.

Aristóteles nos ensina, enfim, que a amizade é a expressão mais elevada da ética, porque nela o bem não é imposto, mas escolhido e compartilhado. Relembrar essa lição é um ato de renovação moral e política, é insistir que a felicidade humana, longe de se reduzir à satisfação individual, floresce apenas na reciprocidade e no cuidado mútuo. Num mundo que tende a isolar, o pensamento aristotélico recorda que ninguém é feliz sozinho, e que a amizade, mais do que um sentimento, é uma forma de vida justa.


Referência

ARISTÓTELES. Ética a Nicomâco. seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. 4. ed.Trad. Leonel Vallandro e Gerg Bornheim. São Paulo: S.A. Cultural, 1984. (Os Pensadores: v. 2)

DO MESMO AUTOR

Radar Filosófico - Da questão judaica à questão palestina: o pensador judeu Ernst Bloch e a recusa radical ao sionismo

Doralice de Lima Barreto

Doutoranda em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)

06/08/2024 • Coluna ANPOF