Saudações aos tecnicoviventes: olá, cronicamente online! Isto aqui é um texto

Richard Roseno Pires

Doutorando em Filosofia na UERJ

05/09/2025 • Coluna ANPOF

Começo com este título irrisório, como também um tanto irônico, na pretensão de anunciar o que quase todas as pessoas viventes nesta era digital têm como rotina: algumas boas horas do dia dedicado às telas e aos dispositivos móveis. Faz algum tempo que venho perguntando às pessoas próximas sobre seu tempo de uso do celular, ele pode variar entre idades e regionalidades, sobretudo pelo momento do dia em que se faz o uso do destemido amado, mas seja no ônibus, simultâneo às tarefas de trabalho, entre o tempo de chegar em casa até o banho, durante o uso do banheiro ou nas refeições, estamos todas as pessoas hiperconectadas a éthos que nos atravessam simultaneamente e nos constituem enquanto um eu desejante. Já experimentou olhar seu tempo dedicado a este dispositivo? Fica em algum menu oculto, quase não visto, mas estarrecedor quando olhado.

No caminho por suspeitar desta micro paixão inseparável a isto que é o nós, pergunto: se o celular for um dispositivo colonial fundamental a um modo de governar contemporâneo que torna esta desejável microtecnologia em um panóptico por toda e qualquer parte? É possível ausentar-se deste olho que tudo vê? E contraditoriamente, é possível não desejarmos esta tecnologia do poder? Seria aceitável deixar de lado, mesmo que por alguns dias, este dispositivo que chama por trabalho incessante e por um desejo de consumo que não nos deixa dormir? Ou, se assim fizermos, estaríamos nós abalando a possibilidade de pertencimento e reconhecimento em um determinado mundo? O celular parece viabilizar a possibilidade disto que se chama humano.

Foucault (2013) nos sugere que o panóptico, nas viradas do século XVIII, passou a ocupar um lugar anelar no centro de um conjunto de prédios: nas prisões, tratava-se de uma torre capaz de forjar um olhar através de um vigia — que poderia estar presente ou não —, sendo ele vigilante através das sombras de todas as celas e de todos os detentos, produzindo uma sensação de vigilância incorporada à docilidade dos corpos. Este importante dispositivo passou a ser articulado a outras instituições, como as escolas, os hospitais, os conventos, as fábricas, e, nos nossos dias, dentro das casas.

Como bem podemos notar ao refletir sobre a produção de disciplina e docilidade nesses espaços, o panóptico alcança um sonho político enquanto tecnologia de governo ao lançar-se além de uma fisicalidade. Este olho que tudo vê, como lembra Foucault (2014), ganha a possibilidade de penetrar e forjar determinados sujeitos diante deste olhar, ou seja, ao panoptismo se multiplicar atrelado a uma rede de poder incessante e difusa, podemos pensá-lo como uma tecnologia vigilante por toda parte, em que este dispositivo deixa de ser localizável e físico, passando a estar autorizado a percorrer as sociedades sem lacuna ou interrupção (2014). Nos dias de hoje, podemos sugerir que o panoptismo chega a seu grau mais incorporado e menos localizável já visto, este olho está em toda parte, principalmente no espaço doméstico ao ser miniaturizado (Preciado, 2023); ele escuta e vê, lê e imagina, deseja e sonha, por nós.

Este texto é como uma foto do instagram: chama atenção por sua forma e ângulo, mas traz alguns danos irreparáveis. Se anunciamos com tanta convicção a inseparabilidade do corpo destes dispositivos ao longo do dia e do que chamamos de vida civilizada plenamente humana e produtiva, a tecnicidade disto que se chama eu passa a ser uma resposta comum; somos todas as pessoas tecnicovivos, somos híbridos, ciborgues, como diria Donna Haraway (2025). No entanto, essa saída do armário, ao assumir a artificialidade na constituição de si, aponta alguns paradigmas-limite, que também são efeito de um regime político amparado em uma metafísica binária e substancial; a saber: os usos da noção entre o que é tecnologia e natureza constitui uma epistemologia de uma determinada idealidade heterocolonial compulsória.

Embora não seja comum à natureza ser conhecida (Foucault, 2013), pode-se dizer que a modernidade tratou com muito afinco de nos convencer sobre os usos e abusos desta fisicalidade como agentes de direito de assim fazer: como o direito colonial expansionista (seja de estuprar, matar ou extrair recursos), ou, um direito um pouco mais naturalizado, digamos, de nomear-castrar qualquer vivente à luz de um paradigma heterossexual lido enquanto natureza-original.

Em outras palavras, podemos assumir, diante destas tecnologias acopladas a nós, e também com Foucault (2013, 2014), que isto que se chama corpo trata-se de um efeito e resultado do mais alto grau de investimento. Corpo em que a diferenciação sexual somente se estabiliza através de processos contínuos de produção tecnológica da binariedade sexual que esconde sua tecnicidade através do status de natureza. Neste sentido, isto que chamamos de natureza corporal trata-se de um efeito de tecnologias que somente por repetir-se adquire o status de universal-original, pois não há nada que garanta o funcionamento desta epistemologia se não sua própria inteligibilidade que se autonaturaliza ao não descansar (Butler, 2023).

Este texto não pretende a demonização da techné, ou um sonho separatista onde um paraíso natural e sagrado possa ser desvelado — ausente de um mundo heterossexual ou tecnológico —, pois estas tecnologias constituem a nós e é impossível sugerir um mundo a priori a estas. Estamos todos imersos nestas epistemologias, como somos resultados-efeito desta era digital, qualquer anúncio de uma natureza ausente de uma situação local, implica, necessariamente, no uso político de uma noção de natureza (Preciado, 2023). Pretende-se aqui, com esta tecnologia textual, da escrita e da palavra, ao contrário, sugerir uma impossibilidade pré-discursiva corporal. Isto é, estamos todos efeitos de tecnologias, onde a linguagem e a escrita estão, desde sempre, como infecção (Preciado, 2024).

Ao assumirmos uma impossibilidade do status de natureza — e, consequentemente, nos retirarmos de nosso armário que nos autodenomina enquanto plenamente humanos e naturais-originais —, nos deparamos com uma possibilidade estética de contraconduta dos usos subversivos destas technés que nos constituem enquanto tecnicoviventes. Estamos nós diante de uma responsabilidade ética ao nomear e fazer ver uma ontologia em ruínas capaz de precarizar vidas. Esta compulsoriedade ontológica produz-incita uma im-possibilidade de pertencimento àqueles que não performam uma coerência ideal de natureza sexual ou uma apropriação engajada de determinadas tecnologias móveis. Ambas essas técnicas, heterossexuais e cibermóveis, se cruzam e são elas capazes de hierarquizar e anormalizar quem não as domina, as reproduz ou não as possui.

Neste caminho, podemos dizer que as tecnologias em si mesmas, lembra Haraway (2025), não são sujas e nem limpas, os usos dos bolsões de resistência implicam em uma trama política muito mais complexa-contingente e muito menos binária. Dada sua complexidade irresolutiva, estamos diante de um saber-poder que carrega consigo uma história colonial e violenta; ao acessarmos qualquer grande site um peso histórico vem arrastado em formato muito além de cookies, seja o google, o youtube, o xvideos, ou a amazon, todos esses têm como condição de existência a precarização e exploração daqueles que não são lidos enquanto pertencentes à categoria do humano.

Diante desta leitura, os big datas operam com o que se chama de exclusão inclusiva: é tornando democrática o acesso às redes que ensinamos aos tecnoviventes a desejarem um mundo do impossível; os conversíveis, as roupas descartáveis, a comida instagramável, o lifting facial, o abdômen trincado etc. Todas as pessoas com seus panópticos móveis em suas mãos — comprados em parcelas —, tendo variados aplicativos instalados cadastrados em seus cartões de crédito comedores de tempo, são capazes de vigiar a si, os outros, e com orgulho, mostram-se enquanto um suposto plenamente humano. No entanto, como um bom ideal regulatório, ou como uma foto que aguarda curtidas, este pertencimento nunca se finda: somos pessoas viciadas em um modo de vida que nunca nos satisfaz, e esta é a grande sacada do poder.

Neste cenário high tech, para tramar algum fim-início a nossa conversa, podemos dizer que algumas invenções tecnológicas mudaram tanto o curso da humanidade como a possibilitaram ser o que é: o telescópio, os automóveis, as estradas, o látex, o petróleo, o plástico, o celular, a internet, a heterossexualidade etc. Sabotar tais técnicas, implica, eu diria, hackear, a partir de sua interioridade, as próprias lógicas que as constitui. Neste sentido, este texto apossa-se desta escritura em seu alto grau metalinguístico e infeccioso: mesmo fazendo uso das redes cibernéticas para que esta tecnologia textual circule, espero que esta escrita seja capaz de provocar alguma possibilidade de bagunça à própria cibertecnologia que possibilita este olho que tudo vê. Seja a tecnologia móvel ou a tecnologia heterossexual.


Referências

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. 24° ed. Rio de Janeiro, civilização brasileira, 2023.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. 42° ed. Petrópolis, Vozes, 2014.

___________.  A verdade e as formas jurídicas. Trad. Eduardo jardim e Roberto machado. Rio de Janeiro, Nau, 2013.

PRECIADO, Paul. Manifesto contrassexual: práticas de subversão da identidade sexual. Trad. Maria Paula Gurgel. Rio de janeiro, Zahar, 2022.

___________. Dysphoria Mundi: o som do mundo desmoronando. Trad. Eliane Aguiar. Rio de Janeiro, Zahar, 2023.

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX in Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Org e trad. Tomaz Tadeu. 2°ed. Minas Gerais, autêntica, 2025.


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