Sobre a hipermetropia da filosofia brasileira

Flávio Rocha de Deus

Doutorando em Filosofia (UFOP)

20/04/2026 • Coluna ANPOF

“Por que vocês precisam buscar referências nos Estados Unidos? O Brasil tem Lélia Gonzalez” a provocação de Angela Davis, ao destacar a potência de uma intelectual brasileira, aponta não apenas para a riqueza das reflexões que emergem de nossa realidade, mas também para um vício de olhar: enxergamos com clareza o que está além-fronteiras, enquanto nossas próprias contribuições nos parecem turvas, como se faltasse a elas o rigor ou a profundidade das tradições hegemônicas. Neste ínterim, talvez o problema da filosofia brasileira seja uma questão de hipermetropia.

A hipermetropia, o oposto da miopia, é uma condição ocular caracterizada pela dificuldade de enxergar as coisas próximas com nitidez, conseguindo obter foco apenas nas imagens distantes. No campo da filosofia, podemos pensar essa metáfora como uma inclinação sistemática em valorizar o que está distante (cronológica, geográfica ou culturalmente) enquanto deixamos de reconhecer o que está ao nosso redor.

Apesar dos avanços das últimas duas décadas na ampliação e multiplicação de acadêmicos, grupos de pesquisas e linhas institucionais direcionadas ao estudo da filosofia nacional, temos que reconhecer que, ordinariamente, isto se destaca por ser a exceção. Há um elefante branco na sala de nossa comunidade: nós não nos lemos. É óbvio que a pesquisa acadêmica de qualidade exige acesso e análise de uma base sólida e diversificada de referenciais teóricos. Todavia, devemos admitir que há algo de cômico, e até constrangedor, no fato de encontrarmos facilmente pessoas dentro da mesma instituição, estudando temas correlatos, por vezes o mesmo objeto, e ainda assim nunca terem lido o trabalho um do outro.

A título de exemplo, em 2023, durante um breve diálogo com dois colegas na cantina da universidade, que listavam suas leituras, fontes e referências de pesquisa, indaguei: “Já leu o trabalho de nossa colega X?” Diante de suas respostas, tive a incrível descoberta de que foi mais fácil para eles encontrarem referenciais teóricos, meramente introdutórios, no oeste dos Estados Unidos e no norte da França do que na sala de aula do pavilhão ao lado.

Esta ocorrência não é uma exceção, é sintoma de uma prática acadêmica em que o olhar está essencialmente dedicado às paisagens de fora. E não falo apenas de referências estrangeiras, mas de uma espécie de hierarquia do olhar que organiza o campo filosófico no Brasil: o que está longe nos parece mais legítimo, mais elaborado, mais digno de atenção. O que está perto demais é tido como rascunho, como esforço preliminar, como algo que “ainda não chegou lá”. Já me deparei com colegas que após concluir todo o trabalho com versões traduzidas, reescrevem cada citação com a versão estrangeira para dar maior legitimidade e chances de aprovação. Como se os adereços de distância valessem mais que o conteúdo.

A metáfora da hipermetropia me parece ser bem assertiva, pois o problema, ao que tudo indica, não está na incapacidade de produzir, mas na dificuldade de reconhecer produção. Não se trata de escassez, mas de uma deficiência de olhar. E isso, sim, gera um bloqueio real na vida intelectual brasileira: a sensação de que se está sempre começando, sempre aquém, sempre na dependência de outra tradição para se autorizar a pensar.

Esse problema de reconhecimento, embora atual, tem raízes mais antigas. Como recentemente demonstrou John Aquino em seu texto “A historiografia da desqualificação da filosofia brasileira”, publicado na Coluna ANPOF em agosto de 2024, a narrativa de que o Brasil seria incapaz de produzir filosofia consolidou-se como um senso comum historiográfico desde o século XIX, com Tobias Barreto e Sílvio Romero. Este último defendia que nossas ideias não possuíam “seriação”, ou seja, não evoluíam organicamente, como “galhos de uma árvore”, mas eram meras importações desconexas da Europa. Aquino ressalta que, para Romero, essa suposta “inaptidão para o pensamento rigoroso” estava ligada a preconceitos raciais, já que o filósofo via na mestiçagem uma degeneração do espírito filosófico. A desqualificação tornou-se uma tradição auto reproduzida e como também nos aponta Aquino, “a maioria de nós acredita nela, e a continuamos até os dias atuais", seja pela negligência aos autores nacionais, seja pela internalização de que somos “no máximo professores de filosofia”.[1]

De igual forma, Roberto Gomes, em sua Crítica da razão tupiniquim (1977), já apontava para um mal-estar profundo na maneira como o pensamento filosófico se desenvolvia no Brasil. Ele observava que muitos dos nossos esforços teóricos se davam por imitação das grandes tradições estrangeiras, sem reflexão crítica sobre nossos próprios conflitos culturais, sociais e históricos. Essa Razão tupiniquim, como ele ironicamente chamava, não era uma filosofia menor por ser brasileira, mas tornava-se menor à medida que se recusava a pensar desde si mesma; ou seja, tornava-se caricata por seu desejo de reconhecimento externo, assim, “uma filosofia brasileira só terá condições de originalidade e existência quando se descobrir no Brasil. Estar no Brasil para poder ser brasileira. E isto não tem ocorrido. Desde sempre nosso pensar tem sido estranho, providenciado no estrangeiro”[2].

O que me fascina em Roberto Gomes é justamente a maneira como ele nos liberta da ansiedade por imitação. Sua Crítica da razão tupiniquim não é um manifesto por uma “filosofia brasileira” nos moldes europeus, até porque, até a nossa revolta contra a Europa ainda tem traços europeus. Em vez de exigir que criemos um “idealismo tropical” ou um “existencialismo caboclo”, Gomes propõe algo mais radical: uma filosofia livre, polissêmica, que não se envergonhe de suas fissuras nem de suas influências dispersas. Ele nos mostra que não precisamos da obsessão por uma identidade filosófica rigidamente delimitada, e, nesse escopo, nos revela que nosso problema talvez não seja falta de originalidade, mas simplesmente a incapacidade de olhar para o que está próximo com a mesma seriedade dedicada ao distante.

Jerônimo Erig Weiller, em seu texto “Precisamos de uma filosofia brasileira?” (2025), ecoa essa despretensão de modo provocativo. Ao questionar se devemos almejar um “movimento filosófico nacional” nos moldes do pragmatismo americano ou do idealismo alemão, ele argumenta que a busca por tal rótulo pode ser contraproducente: “Se um filósofo começar a escrever já pensando em defender uma tese só por ser típica do movimento nacional, sem questionar sua adequação, aumentam as chances de ele fazer má filosofia”. De igual forma, Weiller também nos lembra que a Austrália, sem nenhuma escola famosa, produz filosofia de altíssima qualidade justamente por não se prender a dogmatismos geográficos.[3] Por que, então, insistimos em medir nosso valor pela capacidade de reproduzir formatos alheios?

Se não nos lemos, no entanto, uma questão permanece em aberto: quem, afinal, autoriza o nosso pensamento? Se a validação continua vindo de fora, talvez não estejamos apenas diante de um problema de reconhecimento, mas de uma dependência mais profunda, quase imperceptível, que estrutura o próprio modo como pensamos e escrevemos.

Essa dependência não se manifesta apenas na preferência por autores estrangeiros, mas pode operar de forma ainda mais sutil, inclusive no interior de discursos que se pretendem críticos e emancipatórios. Como observa Vladimir Safatle, há momentos em que o próprio vocabulário da crítica é reorganizado a partir de centros hegemônicos, como se existisse um “programa” teórico a ser aplicado indistintamente a realidades distintas, algo próximo de um “FMI universitário”. Nesses casos, não apenas importamos referências, mas também modos de problematização, critérios de relevância e até as formas legítimas de enunciação do pensamento. O resultado é uma espécie de dependência de segunda ordem: não apenas olhamos para fora em busca de validação, mas passamos a pensar segundo esquemas previamente autorizados por instâncias externas, muitas vezes sem perceber o quanto isso estreita nossa própria capacidade de formular problemas a partir de nossas experiências concretas.[4]

Se há algo a ser aprendido é que a filosofia brasileira precisa de olhos que a enxerguem. Olhos capazes de ver, nas ideias que brotam aqui, não uma “versão pobre” do pensamento alheio, mas um diálogo vivo com as contradições que nos moldam. Neste contexto, talvez o nosso caminho não seja o de forjar um “movimento”, mas o de cultivar uma pluralidade de vozes, tão diversas quanto o país que as abriga. E, nesse sentido, Roberto Gomes estava certo: a verdadeira filosofia brasileira só surgirá quando estivermos dispostos a estar no Brasil, sem a ânsia de parecermos europeus/estadunidenses ou com culpa por não sermos.


Notas

[1] Cf. AQUINO, John Karley de Sousa. A historiografia da desqualificação da filosofia brasileira. Coluna ANPOF, 09 ago. 2024.

[2] GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. São Paulo: FTD, 1994, p. 23.

[3] WEILLER, Jerônimo Erig. Precisamos de uma filosofia brasileira? Coluna ANPOF, 22 jul. 2025.

[4] SAFATLE, Vladimir. O grande FMI universitário: como o colonialismo domina os estudos decoloniais. Piauí, Edição 232, janeiro de 2026.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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