Transmasculinidades, corpo e poder: contribuições da teoria queer e dos estudos de gênero

Luiz Fernando Prado Uchôa

Mestrando em Comunicação Social na UNIP e Bacharel e licenciado em Filosofia pela UPM; integrante do GT Filosofia e Gênero da Anpof

06/04/2026 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Filosofia e Gênero da Anpof

Nas últimas décadas, os debates sobre gênero e sexualidade foram profundamente transformados pela emergência dos estudos feministas, pela teoria queer[1] e pelas reivindicações políticas dos movimentos trans. Essas transformações produziram novas formas de compreender as relações entre corpo, identidade, sexualidade e poder. A partir dessas mudanças, categorias tradicionais que organizavam os estudos sobre gênero passaram a ser questionadas, especialmente aquelas que pressupunham uma correspondência natural entre sexo biológico, identidade de gênero e orientação afetiva[2]-sexual. Esse deslocamento teórico abriu espaço para reflexões críticas sobre a forma como as sociedades modernas produziram normas que regulam os corpos e definem quais identidades são consideradas legítimas ou desviantes dentro das estruturas sociais.

Nesse contexto, as transmasculinidades[3] surgem como um campo de investigação particularmente relevante. O termo refere-se às experiências de pessoas designadas mulheres ao nascer que constroem identidades masculinas ou masculinidades dissidentes. Essas experiências revelam que a masculinidade não é uma característica exclusiva de corpos considerados biologicamente masculinos, mas uma construção social e histórica que pode ser vivenciada de diferentes maneiras. A análise dessas experiências amplia a compreensão das múltiplas expressões de gênero e mostra que as categorias binárias são construções históricas e políticas.

Diante desse cenário, emerge um problema filosófico central: compreender o gênero para além das concepções essencialistas que o vinculam ao sexo atribuído ao nascimento. As experiências transmasculinas mostram que o gênero é produzido por práticas sociais, discursos normativos e relações de poder, permitindo questionar o sistema binário de gênero e entender o corpo como um espaço político de disputas por identidade, reconhecimento e autonomia.

Este artigo tem como objetivo discutir as transmasculinidades a partir das contribuições teóricas de Butler, Foucault, Preciado, Halberstam e Bourcier. Esses autores oferecem instrumentos analíticos importantes para compreender como o gênero é produzido socialmente e como as identidades dissidentes desafiam as normas dominantes que estruturam as sociedades contemporâneas.

A noção de performatividade desenvolvida por Judith Butler é central nos estudos de gênero ao questionar a ideia de que o gênero seja uma expressão natural do sexo biológico. Para a autora, o gênero é produzido por práticas sociais repetidas — gestos, comportamentos e formas de expressão — que, ao se reiterarem, criam a aparência de uma identidade estável.

Entretanto, essa estabilidade é sempre precária e pode ser transformada. A performatividade do gênero evidencia que as identidades são produzidas dentro de estruturas normativas que orientam as práticas sociais. Nesse sentido, o gênero emerge como resultado da repetição de normas culturais que regulam os corpos e produzem expectativas sobre como homens e mulheres devem se comportar.

As experiências transmasculinas revelam esse caráter performativo do gênero ao demonstrar que a masculinidade pode ser construída em corpos historicamente associados ao feminino. Ao produzir masculinidades dissidentes, sujeitos transmasculinos tornam visível o caráter cultural e histórico das normas de gênero.

A relação entre poder, corpo e produção das subjetividades constitui um dos eixos centrais da obra de Michel Foucault. Em suas análises sobre as transformações das sociedades modernas, o autor demonstra que o poder não se manifesta apenas por meio da repressão, mas também através de mecanismos produtivos que organizam a vida social.

Foucault identifica o surgimento de uma forma de poder voltada para a gestão da vida das populações, que ele denomina biopoder[4]. Esse tipo de poder opera por meio da regulação de processos biológicos como natalidade, mortalidade, saúde e sexualidade. Nesse contexto, o corpo torna-se um espaço privilegiado de intervenção política.

Instituições como medicina, escola, sistema jurídico e família produzem discursos que regulam os corpos e definem normas de normalidade, consolidando no campo do gênero um modelo baseado na correspondência entre sexo biológico, identidade de gênero e heterossexualidade, reforçando padrões sociais hegemônicos e limitando o reconhecimento de identidades.

As reflexões de Paul B. Preciado ampliam esse debate ao analisar o papel das tecnologias contemporâneas na produção das identidades de gênero. Segundo o autor, vivemos em um regime farmacopornográfico[5] no qual hormônios, medicamentos, cirurgias e dispositivos midiáticos participam diretamente da construção das subjetividades.

Nesse contexto, o corpo torna-se um espaço de intervenção tecnológica. As experiências transmasculinas demonstram como essas tecnologias podem ser apropriadas para produzir novas formas de existência. Terapias hormonais e procedimentos biomédicos tornam-se instrumentos que permitem transformar o corpo e produzir novas formas de masculinidade.

Por outro lado, essas mesmas tecnologias também podem ser apropriadas pelos sujeitos como estratégias de construção de identidade, afirmação de direitos e fortalecimento da autonomia sobre o próprio corpo. Nesse sentido, elas possibilitam que indivíduos e grupos utilizem recursos disponíveis – sejam eles médicos, sociais, educativos ou culturais – para produzir novas formas de existência, pertencimento e reconhecimento. Assim, observa-se uma relação complexa e dinâmica, na qual as tecnologias corporais não se limitam apenas à regulação institucional, mas também podem abrir caminhos para processos de emancipação, autodeterminação e ampliação das possibilidades de vivência e expressão dos corpos na sociedade.

Jack Halberstam propõe a ideia de que a masculinidade não pertence exclusivamente aos homens cisgêneros[6]. Ao analisar diferentes formas de masculinidade presentes em contextos sociais diversos, o autor demonstra que existem múltiplas masculinidades que não correspondem aos modelos hegemônicos associados ao patriarcado.

As transmasculinidades representam masculinidades dissidentes que desafiam normas de gênero, ampliando as formas de expressão da masculinidade e questionando sua associação tradicional com poder e dominação.

O desenvolvimento da teoria queer questiona as categorias fixas de gênero e sexualidade e, conforme destaca Sam Bourcier, evidencia o potencial político das identidades dissidentes. Nesse sentido, a política queer ultrapassa a busca por reconhecimento institucional ao criticar as normas que estruturam o sistema de gênero e sexualidade, abrindo espaço para novas formas de existência e expressão identitária.

As transmasculinidades ocupam um lugar importante nesse debate porque desafiam diretamente a associação historicamente construída entre masculinidade e o corpo masculino designado no nascimento. Ao evidenciarem que a masculinidade pode ser vivida e construída por sujeitos que não foram socialmente reconhecidos como homens ao nascer, as transmasculinidades questionam normas rígidas de gênero e ampliam as possibilidades de compreensão sobre identidade, corpo e expressão de gênero. Esse debate também revela como as experiências transmasculinas atravessam diferentes dimensões sociais, como acesso a direitos, reconhecimento institucional, saúde e cidadania. Dessa forma, as transmasculinidades contribuem para tensionar padrões normativos e promover reflexões mais amplas sobre diversidade, autonomia corporal e pluralidade das vivências de gênero na sociedade contemporânea.

A análise das transmasculinidades mostra que o gênero não é uma realidade fixa ou natural, mas uma construção social e histórica produzida por práticas culturais, discursos e relações de poder. As contribuições de Judith Butler, Michel Foucault, Paul B. Preciado, Jack Halberstam e Sam Bourcier ajudam a compreender como dispositivos de poder e tecnologias atravessam os corpos, produzindo identidades e subjetividades.

Ao mesmo tempo, essas experiências evidenciam que os corpos também podem funcionar como espaços de resistência e reinvenção. Nesse sentido, as transmasculinidades ampliam os debates sobre identidade, corpo e poder, contribuindo para perspectivas teóricas mais plurais, inclusivas e críticas nos estudos contemporâneos de gênero e sexualidade, política, cultura e subjetividade.


Referências

BOURCIER, Sam. Queer zones. Paris: Amsterdam, 2015.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

HALBERSTAM, Jack. Female masculinity. Durham: Duke University Press, 2008.

PRECIADO, Paul B. Testo Junkie. São Paulo: N 1 Edições, 2018.


[1] É uma abordagem crítica que questiona as normas sociais que regulam gênero, sexualidade e identidade, problematizando a ideia de categorias fixas e naturais. Inspirada em autores como Judith Butler e Michel Foucault, essa perspectiva analisa como as identidades são construídas por discursos e relações de poder. Assim, busca evidenciar a diversidade das experiências de gênero e sexualidade, desafiando a lógica binária e cisheteronormativa.

[2] Orientação afetiva-sexual refere-se ao padrão de atração afetiva, emocional e/ou sexual que uma pessoa pode desenvolver por outras. Diferencia-se da identidade de gênero e do sexo biológico, pois diz respeito especificamente ao direcionamento do desejo e dos vínculos afetivos. 

[3] Referem-se às diversas experiências de pessoas designadas como do sexo feminino no nascimento que se identificam e/ou expressam masculinidades. O conceito destaca a pluralidade das identidades e vivências transmasculinas, reconhecendo que a masculinidade pode ser construída e performada em diferentes corpos. Assim, evidencia o caráter social e histórico do gênero, questionando a associação naturalizada entre sexo biológico e identidade de gênero.

[4] É um conceito desenvolvido por Michel Foucault para explicar as formas pelas quais o poder moderno atua na gestão da vida e dos corpos das populações. Esse poder se exerce por meio de instituições e saberes que regulam aspectos como saúde, sexualidade e reprodução. Assim, o biopoder produz normas que definem quais corpos e comportamentos são considerados legítimos ou desviantes na sociedade.

[5] O regime farmacopornográfico, conceito de Paul B. Preciado, descreve um sistema em que indústrias farmacêuticas e midiáticas produzem e regulam corpos, gêneros e sexualidades por meio de tecnologias biomédicas e dispositivos culturais.

[6] São indivíduos designados do sexo masculino ao nascer cuja identidade de gênero corresponde a esse sexo atribuído.


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