Um comentário crítico do pensamento abismal (e não abissal) de Boaventura de Sousa Santos

Cello Latini Pfeil

Doutorando em Filosofia (PPGF/UFRJ)

07/04/2026 • Coluna ANPOF

Neste breve ensaio, pretendo tecer um comentário crítico sobre o “pensamento abissal” de Boaventura de Sousa Santos, que compreendo como abismal, e não abissal. Em 2007, Santos publicou o artigo “Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes” na revista Novos Estudos, no qual argumenta que a tradição ocidental moderna teria se estruturado por dicotomias, como abismos – Eu/Outro, humano/não-humano –, traçando uma “linha abissal invisível que separa o domínio do direito do domínio do não-direito” (Santos, 2007, p. 73). Humano de um lado e o não-humano/sub-humano de outro; homem de um lado e monstros do outro; o Novo Mundo e o Velho Mundo.

Abissal deriva terminologicamente de abyssus, em latim, e de ábyssos, em grego, que significa “sem fundo”. É um termo empregado na oceanografia para designar as planícies abissais, localizadas entre três e seis mil metros de profundidade desde a superfície. Para Arnold Mantyla e Joseph Reid (1983, p. 805), as águas abissais “não derivam de uma única origem, nem mesmo de um domínio abissal”[1]. Na abissalidade[2], não penetra luz solar. Fontes de luz geralmente dependem de bioluminescência, produzida por animais abissais, como Umbellula. É uma forma de iluminação não para se enxergar, mas para se defender, comunicar e atrair. Animais abissais, em sua maioria, não conseguem emergir à superfície do oceano sem perecer. Mantyla e Reid afirmam que é por diferenças de temperatura, e não de pressão, que esse trânsito do fundo à superfície é comprometido. Mas há exceções, a exemplo de peixes da família  Synaphobranchidae, que conseguem ir e vir. Embora etimologicamente remonte à ausência de fundo, as planícies abissais possuem um fundo, um solo lodoso, de textura suave, composto por matéria orgânica e inorgânica, elementos em vida e sem vida, gradualmente sedimentados, e em grande parte desconhecidos por nós.

O “pensamento abissal” de Boaventura de Sousa Santos (2007, p. 78) almejaria lançar luz às dicotomias existentes na modernidade, à “linha abissal global” que separa o mundo, como um desvelamento daquilo que organiza a violência. Santos denomina como “epistemologias abissais” aquelas que partem do Norte global e que se fundam sobre tais dicotomias. Caminhando para o fim de seu artigo, o autor sugere que necessitamos de “um novo pensamento, um pensamento pós-abissal” (Santos, 2007, p. 83), que seria, em sua concepção, crítico das metodologias do Norte.

Vejamos, agora, outra concepção de abissalidade.

J. Pugh e D. Chandler, em seu livro The World as Abyss: The Caribbean and Critical Thought in the Anthropocene, não se atêm a um discurso de reforma, reconstrução ou posterioridade do mundo moderno/colonial. Não pensam em termos de ‘pós-abissal’ nem ‘pós-humano’, mas mais-que-humano – não como mais-humano, mas como algo que excede a concepção mesma de humanidade. Distanciando-se do “desejo de refazer o humano e o mundo”[3], Pugh e Chandler (2023, p. 3) escrevem sobre dessedimentação. De uma maneira que parece remontar ao trabalho de Glissant (1997) sobre a sedimentação, sobre o abismo no qual não se pode traçar caminho de retorno, onde não há etimologia, nem se consegue encontrar as origens exatas, esse outro pensamento abissal – que entendo como de fato abissal – dessedimenta; mas não no sentido de “revelar ‘outra realidade’ sob ou alheia a esse mundo, mas expor esse mundo enquanto produto do contínuo trabalho da violência colonial”[4] (Pugh; Chandler, 2023, p. 24). Pugh e Chandler (2023, p. 27) se referem a uma dessedimentação radical no pensamento abissal, no sentido de que “a abordagem abissal dessedimenta a contingência do ‘mundo’ como diferenciado através do segmentado espaço-tempo”[5].

Nas planícies abissais, há uma preservação que se transforma. Aquilo que percorre o trajeto da superfície até o solo não permanece intacto, mas passa a compor, caso realize a travessia, o solo abissal. É interessante que, em grego antigo, a pronúncia de ábyssos ( ?βυσσος) se assemelha a “avisos”. Avisar e mostrar remetem ao duplo sentido de monstros: do latim, monstrare e monere. Em mapas medievais, marcava-se Hic Sunt Dracones em territórios desconhecidos, para avisar que lá, onde não se sabia o que encontrar, havia monstros, dragões. Anunciava-se a abissalidade, marcando-a como monstruosa.

A abismalidade referida por Santos contém em si uma relação contrastiva que deve ser, sim, considerada. No entanto, algo parece se perder: não há margem independente da outra que a observa. O abismo se erige por contraste. Embora etimologicamente próximos, o abismo e o abissal se distinguem, na medida em que a abismalidade marca a modernidade, e inclusive o “esquema geral do pensamento pós-abissal” de Santos, de modo sintomático: o Iluminismo da modernidade contrasta com a impenetrabilidade de luz na zona abissal – considerando, ainda, que a luz produzida por seres abissais possui funções de atração e defesa, mais do que de iluminação; a rigidez das categorias identitárias modernas/coloniais contrasta com a umidade e maleabilidade do lodoso solo abissal – se a abissalidade fosse seca e rígida como as superfícies abismais identificadas por Santos, o mundo colapsaria e não haveria movimento, tal como ocorreria se as placas tectônicas fossem rígidas como as dobradiças de uma porta.

Talvez uma metáfora seja cabível. Imaginemos que tentamos desenhar um abismo. Traçamos, primeiro, suas bordas – a “linha abissal (abismal) invisível” – e, então, traçamos sua profundidade desde as margens, com linhas verticais que seguem até o solo abissal. Qualquer tentativa de desenhá-lo nos revelará que somente é possível pensar abismalmente ocupando uma posição bastante elevada em relação ao abismo. Vendo-o de cima, e não desde o solo. Grosfoguel (2016, p. 28), em seu conhecido texto A estrutura do conhecimento nas univerisades ocidentalizadas, escreveu que, a partir da conquista e do extermínio, a modernidade criou sujeitos que se consideravam capazes de produzir um conhecimento verdadeiro e neutro, “equivalente à visão do ‘olho de Deus’”.

A dessedimentação radical do pensamento abissal tem a ver com a recusa da temporalidade linear, mas não só. Temporalidades abissais, segundo Stacy Alaimo (2025), são insondáveis e incomparáveis, mas isso não é considerado algo negativo, nem contém traços de inferioridade. A vida no solo profundo é amplamente desconhecida pelos habitantes da superfície; talvez justamente por isso seja considerada, por quem a avalia desde a beira do abismo, como monstruosa. Ao contrário de insistir em uma ‘contemporaneização’ da diferença, como pensa Santos (2007, p. 85) a partir da “co-presença radical”, na abissalidade não se deseja assimilar-se ao humano, mas afirma-se mais-que-humano (Pugh; Chandler, 2023); não se pode medir sua profundidade, pois é mais-que-profundo. Não se pode reduzir o abissal ao confim do abismo; fazê-lo seria observá-lo desde a superfície, de maneira verticalizada, que não concebe a mais-que-profundidade, mas somente a profundidade, passível de mensuração.

A poesia travesti de Claudia Rodríguez nos ensina lições interessantes sobre intraduzibilidade e incomensurabilidade, que se aproximam, a meu ver, da abissalidade. Daquilo que não se deseja traduzível. Daquilo cuja intraduzibilidade é condição de possibilidade, e não ruptura comunicacional. Conceber os abismos como linhas invisíveis é levar em consideração somente aquilo que se exprime nos campos hegemônicos da produção de conhecimento. Sugerir uma posterioridade abissal significa tomar o abismo como ponto de partida, tal como “um ponto de vista que não assume a si mesmo como ponto de vista” (Grosfoguel, 2016, p. 30).

Finalizo esse ensaio retomando a afirmação inicial de que a análise sociológica de Santos é abismal, e não abissal; não descentraliza o sujeito nem antes nem durante suas observações da violência colonial e suas colonialidades. Supõe uma perspectiva desde cima, observando as linhas abissais invisíveis – que não são invisíveis de modo algum. A abissalidade, por outro lado, recusa esse sujeito não apenas em discurso – o que se considera discurso, afinal? –, como em ato, pela errância, pelo “fracasso para qualquer modelo”[6] (Rodríguez, 2024, p.  73), por monstruosidades auto-reivindicadas: “Sou um monstro, senhores, sobretudo quando me seduzem e me fazem rir, porque de tanta fome de amor tendo a comê-los”[7] (Rodríguez, 2024, p. 73).


Bibliografia

ALAIMO, Stacy. The Abyss Stares Back: Encounters With Deep-Sea Life. Minneapolis: University of Minnesita Press, 2025.

GLISSANT, Édouard. Poetics of Relation. Michigan: University of Michigan, 1997.

GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n.1, 2016, pp. 25-49.

MANTYLA, Arnold W.; REID, Joseph. Abyssal characteristics of the World Ocean waters. Deep-Sea Research, v. 30, n. 8, pp. 805-833, 1983.

PUGH, J.; CHANDLER, D.  The World as Abyss: The Caribbean and Critical Thought in the Anthropocene. London: University of Westminster Press, 2023.

RODRÍGUEZ, Claudia. Cuerpos para odiar. Editorial Barret, 2024.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos, n. 79, 2007, pp. 79-94.


Notas

[1] Versão original: “the abyssal waters do not derive from a single source, or even from the abyssal domains”.

[2] Iniciei esse estudo sobre abissalidade após um diálogo com Prof. Dr. Sayak Valencia em dezembro de 2025, durante o XII Congresso Brasileiro da Trans-Homocultura na Universidade de Brasília. Valencia sugeriu o termo “desacordos abissais” após minha exposição do conceito de “desacordos mais-que-profundos”, que desenvolvo em minha tese. A concepção de abissalidade que trago no presente ensaio deriva desse diálogo.

[3] Versão original: “the lure of remaking the human and the world”.

[4] Versão original: “reveal ‘another reality’ beneath or other to this world but exposes this world as the product of the ongoing work of colonial violence”.

[5] Versão original: “The abyssal approach desediments the givenness of the ‘world’ as differentiated across segmented space-time”.

[6] Versão original: “fracaso para cualquier modelo”.

[7] Versão original: “Soy un monstruo, señores, sobre todo cuando me seducen y me hacen reír, porque de tanta hambre de amor tiendo a comérmelos”


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

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