A Filosofia em interface com a Saúde

28/07/2025 • Entrevistas

Em maio de 2024, a Anpof aprovou a criação de mais um Grupo de Trabalho: o de Filosofia da Saúde. O GT, que reúne 18 pesquisadores e pesquisadoras de todo o país, teve o seu primeiro encontro presencial durante o XX Anpof, em Recife. Nesta entrevista, a coordenadora profa. Dra. Viviane Cândido (Unifesp) e professor Dr. Roberto Franzini Tibaldeo (PUCPR), compartilham um pouco do histórico do grupo e das atividades que vem realizando.

Cândido e Franzini comentam, aqui, sobre a necessidade de haver um grupo que estivesse voltado à especificidade de uma Filosofia que se colocasse em interface com a Saúde, entendendo que não pode haver um reducionismo nem ao saber biomédico, nem ao saber filosófico. Eles comentam sobre a necessária inter e transdisciplinaridade dos campos de estudo e também entre os profissionais da saúde e pesquisadores de Filosofia.

Nesta entrevista, ainda defendem como o conhecimento se dá pela experiência e refletem como o GT atua ainda pela abertura da Filosofia para outros campos de estudo. Atuando pelo maior engajamento filosófico com questões da atualidade, o GT tem como objetivo se tornar ponto de referência para acadêmicos e acadêmicas profissionais cujas pesquisas enfocam questões “de fronteira”, que escapam à tradicional diferenciação e fragmentação disciplinar. Atualmente o grupo prepara o seu primeiro congresso: A nossa paixão pelo futuro – Filosofia, Educação, Saúde e Sustentabilidade, nos dias 27 a 29 de agosto, em Curitiba.

Como surgiu o Grupo de Trabalho Filosofia da Saúde?

Viviane Cândido: Nosso GT surgiu de práticas formativas em Saúde, no âmbito da Escola Paulista de Medicina – EPM/UNIFESP. Inicialmente, por meio do meu exercício de docência, que buscava fundamentar as unidades curriculares de Filosofia e Bioética, nos cursos de Biomedicina e Enfermagem, depois, como um grupo de estudos voltado a temas relacionados à saúde, fundamentados em conceitos filosóficos, com a intenção de preparar uma equipe de profissionais da saúde e filósofas para participarem das aulas da disciplina Introdução às Práticas Médicas, para estudantes do primeiro ano do Curso de Medicina, quando nos dedicamos ao estudo do livro O médico, o doente e o filósofo, da filósofa e bioeticista Jacqueline Lagrée. Da continuidade desses estudos nasceu, em 2018, o Grupo de Estudos e Pesquisa em Filosofia da Saúde (GEFS) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), vinculado ao CNPq, que cunhou o termo Filosofia da Saúde - entendendo que há uma especificidade intrínseca àquela Filosofia que se coloque em interface com a Saúde - dedicando-se ao aprofundamento desta especificidade e à realização de pesquisas e cursos. No miniencontro 40 anos da Anpof, realizado em outubro de 2023, em Fortaleza, eu e a doutoranda e integrante do GEFS, Isabela Alline Oliveira, apresentamos trabalhos e promovemos discussões com os grupos de Ensino em Filosofia, acerca de uma Filosofia da Saúde. A entusiasmada recepção e discussão do tema levou à proposição da formação de um GT na Anpof.

Propusemos o Grupo de Trabalho Filosofia da Saúde, reunindo professores, pesquisadores, pós-graduandos e profissionais de diferentes regiões do país, incluindo filósofos e profissionais de outras áreas da saúde, integrantes do GEFS, com o objetivo de investigar, numa perspectiva inter/transdisciplinar, a relação entre filosofia e saúde, abordando aspectos epistemológicos, éticos e políticos relativos às Ciências da Saúde, à Medicina como ciência e à promoção do bem-estar e do cuidado. Seus integrantes se conheceram em encontros da Anpof e se nuclearam em torno do tema comum às suas práticas no âmbito da PUCPR; PUCSP; UnB; UNIFESP; UFES; UFVJM; USP; UFPI e UFSM.

Depois da aprovação do GT, vocês tiveram o seu primeiro encontro presencial durante o XX Encontro Anpof. Como foi a experiência desse primeiro encontro e lançamento do GT?

Viviane Cândido: No XX Encontro Anpof, em Recife, fizemos a reunião de lançamento do GT e, nesta ocasião, trouxe o histórico que deu origem ao GT, a partir da minha experiência e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Filosofia da Saúde – GEFS - UNIFESP/CNPq. Destaquei o que o GEFS estava entregando como um legado, a partir do seu trabalho e aprendizado, para o GT na Anpof, responsável pela consolidação de uma Filosofia da Saúde:

- o encontro de profissionais e saberes, filósofos(as) e profissionais de saúde se mostrou imprescindível para a especificidade dessa filosofia, tratando-se de um saber a ser construído em diálogo;

- o conhecimento se dá pela experiência, do que decorre que a busca por fundamentos em ciências da saúde necessita considerar a prática dos profissionais desta área – assistência e cuidado – condição para uma filosofia da saúde na e para a saúde, do que decorre, inclusive, a necessidade dos(as) filósofos(as) terem alguma atuação prática em saúde, além da atuação na formação dos seus profissionais;

- a necessidade da busca por um não reducionismo – nem ao saber biomédico, nem ao saber filosófico; nem à ciência, nem à prática dos profissionais;

- o encontro da Ciência e da Realidade – uma filosofia da vida e do vivente, que considere os grandes temas da vida como a condição humana, a dor, o sofrimento e a morte, além de uma biologia filosófica;

- a necessária inter/transdisciplinaridade como única forma de atingir a complexidade do real;

- a ampliação do olhar para a Bioética, tanto no sentido do seu lugar como parte da filosofia quanto na consideração de uma Bioética como ciência para a sobrevivência, como propôs Van Rensselaer Potter.

Em seguida, o professor Roberto Franzini Tibaldeo (PUCPR), vice coordenador do GT, falou das perspectivas de continuidade da reflexão acerca da especificidade de uma Filosofia da Saúde, agora no âmbito da Anpof.

O grupo nasce com quase vinte integrantes; pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do país e com trajetórias acadêmicas, diversas, dentro da Filosofia. Como o GT trabalha, atualmente, e quais as atividades em andamento?

Roberto Franzini: O GT se reúne mensalmente, em ambiente virtual, na segunda sexta-feira de cada mês. Em 20 de setembro do ano passado, o Prof. Dr. Philippe Claude Thierry Lacour (UnB) coordenou um encontro com a filósofa Cèline Lèfeve no qual abordou-se a relação entre filosofia e saúde com o intento de mapear questões, conceitos, abordagens e perspectivas, tanto do ponto de vista teórico como daquele prático. Entre os objetivos desses encontros mensais está contribuir não apenas para a troca recíproca entre os membros do GT, mas também para uma definição do que significa Filosofia da Saúde.

Viviane Cândido: Recentemente, o grupo discutiu o artigo Curar a Morte? de Jacqueline Lagrée, publicado pela PoliÉtica – Revista de Ética e Filosofia Política, que publicou três volumes do Dossiê Filosofia e Saúde, frutos das duas Jornadas Internacionais de Filosofia da Saúde, promovidas pelo GEFS – UNIFESP/CNPq.

Roberto Franzini: Neste momento, o GT está envolvido com a realização do seu primeiro Congresso A nossa paixão pelo futuro – Filosofia, Educação, Saúde e Sustentabilidade, sob a coordenação do Prof. Dr. Roberto Franzini Tibaldeo (PUCPR), nos dias 27 a 29 de agosto, em Curitiba. Por meio de eventos, publicações e pesquisas, o GT pretende criar um espaço de reflexão inter/transdisciplinar que contribua para o desenvolvimento teórico e prático de uma filosofia da saúde, fortalecendo sua especificidade. Por fim, a ambição do GT é o de se tornar ponto de referência para acadêmicos e acadêmicas profissionais cujas pesquisas enfocam questões “de fronteira” as quais escapam à tradicional diferenciação e fragmentação disciplinar.

O GT tem, já em seu nascimento, a característica de ser interdisciplinar. Como vocês pensam a abertura da Filosofia para outros campos de estudo e de práticas e o impacto disso para a nossa área? Acreditam que isso pode refletir em um alargamento do cânone filosófico?

Roberto Franzni: Essa abertura da filosofia para outras áreas de estudo é algo que caracteriza essencialmente a filosofia enquanto atividade reflexiva. Nesse respeito, não tem nenhuma atividade humana que não seja, afinal, filosófica ou filosoficamente relevante. E vice-versa tem sempre algo de filosoficamente interessante em cada atividade humana. Nesse respeito, a referida abertura da filosofia não tem apenas um sentido “aplicativo” ou instrumental, mas sim essencial para o pensar e o agir humano. Mais do que um alargamento do cânone filosófico, aqui se trata de “revolucioná-lo” conforme o sentido científico originário de “revolução” (Kuhn), ou seja, de mudança paradigmática capaz de ir para além de uma “filosofia” ao substantivo, pois na verdade essa última depende e está enraizada no “filosofar” como verbo, ou seja, como atividade de investigação. É com isso em mente que escolhemos os filósofos e as filósofas do nosso “Panteão” ou da nossa constelação norteadora. São pensadores e pensadoras que direta ou indiretamente contribuem para a renovação do olhar filosófico, assim como para um maior engajamento filosófico em questões da atualidade (e no nosso caso relativas ao âmbito da saúde).

Viviane Cândido: Podemos mencionar, entre outros e outras, Franz Rosenzweig, Hans Jonas, Blaise Pascal, Martin Buber, Michel de Montaigne, Friedrich Nietzsche, Walter Benjamin, além da referida Jacqueline Lagrée.

Roberto Franzini: Interessante é que, ao abordar questões relacionadas com a saúde (vida, morte, espiritualidade, doença, vulnerabilidade, salvação, bem-estar, relações etc.), todos e todas desenvolvem, ao mesmo tempo, reflexões acerca do que significa filosofar. O objeto estudado não pode ser separado do sujeito investigante e da metodologia de investigação.

Recentemente, discutimos em nossos meios a saúde mental em nossa área. O GT tem se dedicado a pensar este tema?

Viviane Cândido: No momento, ainda não temos uma atuação como Grupo de Trabalho no campo da Saúde Mental. No âmbito do Instituto de Estudos Avançados e Convergentes – IEAC/UNIFESP, participo do Observatório de Saúde Mental (OSMU), coordenado pela Profa. Dra. Taiza Stumpp, que tem como objetivo atuar, em parceria com a sociedade, na discussão, coleta, pesquisa, organização, tratamento e difusão/disseminação de conhecimento e informações sobre Saúde Mental, relacionando-os com aspectos socioculturais locais, nacionais e internacionais. Pretende-se trabalhar na prática a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, e extensão, discutindo e divulgando conhecimentos relacionados à saúde mental, ao neurodesenvolvimento e à diversidade, atuando em parceria com a sociedade; acompanhar e contribuir com a formulação de políticas públicas relacionadas à saúde mental; discutir a diversidade de forma participativa e inclusiva por meio de abordagem interdisciplinar sob a perspectiva da Filosofia da Saúde, da psicanálise e da biologia; promover debates sobre saúde mental considerando os aspectos socioeconômicos, culturais, de gênero, de orientação sexual e de cor; apoiar e promover iniciativas de educação e disseminação de informação nos temas relacionados ao Observatório, para sensibilização, informação e mobilização da sociedade em geral por meio de projetos de extensão e incentivar a discussão, nas comunidades dos profissionais da saúde e da educação sobre diversidade e saúde mental, bem como sobre sua relação com aspectos socioculturais. No momento, os participantes, são docentes e estudantes da Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), docentes da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/UNIFESP), da UNICAMP e da UFCat e não acadêmicos, sempre direcionados pela constante interação universidade-sociedade.