Filosofia DEF: "A mudança urgente não é apenas arquitetônica, mas sobretudo epistemológica e política" - entrevista com Ana Cândida

Ana Cândida

Doutoranda Filosofia (UFPI)

Elivanda Oliveira

Profa. Dra. IFPI

23/03/2026 • Entrevistas

A filosofia no Brasil vem passando por grandes transformações. Há a exigência de que a academia acolha outras epistemologias, vozes, problemáticas e representações de mundo que foram relegadas pelo cânone filosófico e que não faziam parte do currículo com o qual as estudantes e os estudantes brasileiros entravam em contato ao longo de sua formação. É nesse contexto que temas como filosofia da deficiência, capacitismo, raça, gênero, filosofia indígena, filosofia africana e a história das mulheres na filosofia inauguram outras facetas do ensinar e aprender a filosofar.

A convite da Anpof, a professora Dra. Elivanda de Oliveira Silva (IFPI) realizou  entrevista com Ana Cândida Nunes Carvalho, mestra e doutoranda em filosofia pela UFPI. Ana Cândida também é psicóloga, mulher autista, fotógrafa e artista visual. Cândida pesquisa sobre estética da existência a partir das filosofias de Michel Foucault e Merleau-Ponty, e é integrante do grupo de trabalho filosofia DEF da Anpof.

A conversa com Elivanda de Oliveira Silva, que também pesquisa filosofia política com ênfase no pensamento de Hannah Arendt, Lélia Gonzalez e Nancy Fraser, revela que a filosofia, ao estar atenta às mudanças de cada época, deixa de ser um saber distante da cidade e do cotidiano dos viventes. Assim, imprime sua marca na própria luta de cada pessoa em busca do direito de pensar, ser e existir.

A entrevistada, a partir de uma consciência política e intelectual ativa, confronta a universidade, docentes de filosofia, estudantes com e sem deficiência, pesquisadoras e pesquisadores a navegar em águas disruptivas dos padrões hegemônicos de construção das ciências e saber filosófico.

Trajetória e Identidade

Elivanda Oliveira: A sua experiência como mulher com deficiência direcionou a sua escolha pela filosofia e os temas que você decidiu pesquisar?

Ana Cândida: O meu diagnóstico de autismo veio tardiamente, em 2013, quando eu tinha trinta anos. Ainda que não tenha conseguido mitigar os danos decorrentes de um período grande sem o cuidado/apoio necessário para atender às demandas sociais, o diagnóstico conseguiu trazer uma perspectiva positiva à minha história acadêmica. Um lugar de fala problematiza o discurso hegemônico, instituindo a posição que desejamos tomar diante dos conceitos e possibilidades de interpretação de saberes. O entrelaçamento do autismo e da fenomenologia merleau-pontiana ampliou a minha perspectiva de mundo vivido, colocando-me numa posição de criadora. É justamente através das manifestações criativas que podemos acessar caminhos diversos ao da moldura hegemônica de normalidade, tão celebrada socialmente. Romper essas engrenagens exige acessar subjetivações plurais, revisitar crenças e abrir novos horizontes de interpretação do mundo.

No cenário brasileiro, como você percebe a intersecção entre gênero e deficiência dentro das faculdades de filosofia?

A filosofia acadêmica no Brasil ainda é fortemente marcada por um ideal de sujeito universal que é, implicitamente, masculino e permeada por pessoas sem deficiência. Mulheres com deficiência enfrentam uma barreira maximizada. Se o machismo estrutural já questiona a autoridade intelectual feminina, o capacitismo questiona a própria viabilidade da presença de mulheres com deficiência no espaço acadêmico. No contexto das Universidades, isso se manifesta na falta de bibliografia que entrecruze essas temáticas e na escassez de um corpo acadêmico que ocupe esse lugar de fala e trabalho docente a partir de uma perspectiva interseccional.

Quais foram as principais barreiras (físicas, arquitetônica, comunicacionais, atitudinais, pedagógicas) que você encontrou ao longo da sua formação acadêmica?

Todo autista irá apresentar demandas diferenciadas diante das contingências cotidianas. A mera possibilidade de encaixar pessoas neurodivergentes num "invólucro" que institui parâmetros de conduta é, por si só, inerentemente problemático. A maquinaria acadêmica imprime sobre os estudantes marcas que respingam sobre suas vidas como tinta indelével. Tomando fôlego frequente, é possível respirar. Contudo, pessoas autistas, muitas vezes, requerem substratos comportamentais mais encorpados e apoio substancial dos setores educacionais, até mesmo para atender aos prazos impostos. Há uma prevalência de apego aos hiperfocos de interesse, que incide intimamente num quadro de rigidez cognitiva comumente percebida em autistas. Deve ser comum perceber temas recorrentes nas pesquisas de alunos autista, sobretudo quando dizem respeito aos seus assuntos preferidos.

2. Produção intelectual e epistemologia

Existe uma "epistemologia da deficiência" sendo construída no Brasil? E como essa área do saber desafia os conceitos tradicionais de "sujeito", "razão" e "autonomia" da filosofia ocidental?

A epistemologia da deficiência denuncia, sobretudo, que o sujeito, como é concebido pela maquinaria social da modernidade, está atrelado à funcionalidade.  Sua roupagem vem em caracteres de universalidade: sem ranhuras. Um sujeito encarnado, no entanto, advindo da epistemologia da deficiência, traz um corpo não hegemônico para o epicentro das discussões, enviesando a noção de presença e a percepção de pluralidades, que transcendem a razão lógica.

A criação do Grupo de Trabalho em Filosofia da Deficiência, na Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, representa um marco histórico e teórico para o cenário intelectual brasileiro. Não se trata apenas de abrir espaço para um tema emergente, mas de uma intervenção política e epistemológica que desafia as bases do pensamento ocidental tradicional. A fundamentação ética e política gerada no GT pode (e deve) servir de base para a defesa de direitos e para o combate ao capacitismo institucional. É importante ressaltar que a pós-graduação, com sua estrutura baseada em prazos rígidos, produtivismo e uma sociabilidade, muitas vezes excludente, opera sob uma lógica de "funcionalidade", que raramente acolhe o processamento cognitivo de pessoas neurodivergentes, por exemplo. Encontrar um espaço de acolhimento e parceria intelectual, abre a oportunidade de ampliar saberes fora do eixo de ideias fixadas no padrão corpo-mente normativo, funcionando como rede de apoio indispensável, até mesmo para provocar o rompimento de uma "epistemologia do mascaramento", ainda comum entre discentes neurodivergentes, buscando forçosa adaptação acadêmica, que gera esgotamento perene, para performar neurotipicidade.

Como o seu trabalho dialoga com outras correntes, como o feminismo, a estética, a fenomenologia ou a ética do cuidado?

Toda a minha produção acadêmica nasce de uma percepção do “si mesmo”, como parte estrutural de um hiperfoco em autismo, que exige conhecimento a partir dos sentidos, extrapolando as fronteiras do belo e do funcional. Oferece, portanto, suporte simbólico para que outros sujeitos possam emergir existencialmente. A premissa central das minhas pesquisas seria investigar as subjetivações estéticas de uma artista autista (uso minhas próprias composições criativas), através das lentes teóricas de Merleau-Ponty e Foucault, propondo um desafio aos dispositivos de assujeitamento, para construir novas vias para o mundo vivido. A própria experiência de ser no mundo da artista autista, no caso, é ato de resistência contra a trama de poder, que apregoa regras de normalização de corporalidades e corrobora para a manutenção de entraves, que empurram autistas às franjas sociais. Crio mundos outros (através de fotografias artísticas de miniaturas) para tentar desarticular a maquinaria de controle e alçar voos mais diversos.

3. Impacto Político-social e representatividade

Como a produção filosófica sobre deficiência pode influenciar políticas públicas e a luta por direitos no Brasil?

A filosofia tradicional muitas vezes engendra noções de justiça dentro dos parâmetros da igualdade de oportunidades para sujeitos funcionais. A produção filosófica da deficiência introduz a justiça como reconhecimento, desafiando a ideia de que o Estado só deve ajudar quem "produz". Ela propõe que o cuidado é um direito humano e um dever público. Ao teorizar que a deficiência não está no corpo, mas nas barreiras da sociedade (o Modelo Social), a filosofia inspira leis como a própria Lei Brasileira de Inclusão. Se a deficiência é uma relação social, o Estado não deve apenas oferecer "tratamento médico", mas sim remover barreiras arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais.

Mitigar barreiras de acesso à academia, através de medidas paliativas, é uma necessidade, atualmente. Contudo, pessoas com deficiência vivenciam entraves em diversas esferas, que não findam com medida paliativas e cotas, infelizmente. O próprio discurso filosófico deve municiar o corpo acadêmico de falas e atitudes que rompam arestas e camadas discriminatórias e capacitistas, inclusive de processamento cognitivo. A mudança urgente não é apenas arquitetônica, mas sobretudo epistemológica e política.

O que você quer dizer quando afirma que “a filosofia inspira leis como a própria Lei Brasileira de inclusão”? Poderia explicar melhor?

Vou exemplificar: no artigo segundo da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), há o seguinte texto: “Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”. Define-se, portanto, a pessoa com deficiência não por seu diagnóstico, mas através dos entraves diários que obstaculizariam sua participação social plena. A Lei deixa de olhar “um paciente” e passa a encarar a “barreira’’. A filosofia clássica associava "dignidade" à "autonomia plena" (fazer tudo sozinho). A Ética do Cuidado e a Epistemologia da Deficiência (conforme citei anteriormente) propõem que a dignidade reside na capacidade/possibilidade de fazer escolhas, mesmo sob necessidade de apoio/suporte. Na “Abordagem das Capacidades”, de Amartya Sen, a premissa fundamental se apoia na ideia de que a igualdade não é dar o mesmo a todos, mas garantir as condições para que cada um aja, com liberdade, exercendo “autoria de si”. Quando afirmo que a filosofia fundamenta leis como a LBI (Lei Brasileira de Inclusão - Lei 13.146/2015), quero dizer que, antes de um texto se tornar jurídico, ele precisa de uma revolução no pensamento. Leis não surgem no vácuo; elas são a cristalização de debates éticos e ontológicos sobre o que significa ser humano e o que é uma sociedade justa.

O que as instituições de ensino e os departamentos de filosofia precisam mudar urgentemente para acolher de fato as mulheres com deficiência?

Como mulher autista fica difícil vislumbrar acesso a alguns setores acadêmicos, que vão desde palestras (que atendem horários, locais e conceitos filosóficos inacessíveis), até modalidades como mestrado ou doutorado sanduíche. Não há previsão de acompanhante durante o período disponibilizado para permanência em outras localidades, dentro do escopo de acesso à bolsa de estudos. E se escutassem autistas de fato, saberiam que quando saem à francesa de uma instituição de ensino, convidados ao ostracismo involuntário, simplesmente por não conseguirem acompanhar o ritmo das turmas, lançando gritos para dentro de si, enquanto a alma transborda; ou quando sofrem descasos ou intimidações, mesmo sob pedidos velados de ajuda... há uma ânsia enorme por conhecimento e qualidade de vida.

Qual mensagem você daria para as jovens estudantes com deficiência que sentem que a Universidade e a filosofia não são espaços para elas?

Precisamos resistir! A universidade e a filosofia não são espaços prontos, de encaixe certeiro; são territórios em disputa, que precisam ser transformados por presenças plurais. Muitas estudantes sentem que "não pertencem" à universidade, porque precisam de apoio/suporte, de um tempo mais robusto para conclusão de atividades, ou de tecnologias assistivas. Mas a realidade é que ninguém na universidade é autônomo de fato. O professor precisa de livros, o pesquisador precisa de fomento, a instituição precisa de energia elétrica. A diferença é que a dependência delas é invisibilizada pela norma. Exigir acessibilidade é um ato político que ensina à universidade que a vida é feita de cuidado mútuo. O sentimento de "não pertencer" é uma ferramenta do capacitismo para nos manter apartadas, relegadas às franjas sociais. Então, busque a rede! Existem outras mulheres, outras pesquisadoras e outras filósofas abrindo essas portas agora!