Viver é fácil de olhos fechados
Roberto Horácio de Sá Pereira
Professor de Filosofia da UFRJ
21/07/2026
Especial Lançamentos de livros - XXI Encontro Anpof

de Ernesto Perini-Santos
Editora UFMG, 2025 | 127 páginas
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Há algo de singular no clima intelectual que hoje domina parte da filosofia universitária brasileira. Nunca o rigor conceitual despertou tamanha suspeita. Aquilo que durante séculos constituiu a ambição distintiva da filosofia — a busca de categorias capazes de transcender circunstâncias particulares — passou a ser frequentemente interpretado como um dispositivo de colonialidade do saber, mediante o qual a experiência histórica do Ocidente teria sido elevada à condição de universal. Não surpreende, por isso, que a tradição analítica se tenha convertido no alvo preferencial dessa crítica. Sua precisão conceitual é reduzida a formalismo; sua abstração, confundida com indiferença à história; seu universalismo, denunciado como simples máscara de relações de dominação. Em seu lugar, propõe-se uma filosofia que renuncie às questões comuns da condição humana para circunscrever-se ao horizonte de identidades, territórios e tradições locais.
Viver é fácil de olhos fechados, de Ernesto Perini-Santos, constitui, por si só, uma resposta eloquente a tais suspeitas. Reunindo recursos da epistemologia analítica, da filosofia da mente e das ciências cognitivas — crença, confiança, testemunho, padrões de avaliação, cognição motivada — e colocando-os em permanente interlocução com a psicologia cognitiva, a teoria da evolução, a antropologia, a sociologia e a ciência política, Perini-Santos elabora uma gramática conceitual da desinformação incomparavelmente mais precisa do que boa parte do vocabulário hoje corrente na análise política. Categorias tão onipresentes quanto "populismo" ou "terrorismo", frequentemente empregadas com escasso rendimento analítico, cedem lugar a um instrumental conceitual capaz de discriminar mecanismos, distinguir fenômenos e reconstruir suas conexões internas. Nada há aqui de erudição ornamental. O rigor conceitual restitui à desinformação sua gramática própria e, com ela, a inteligibilidade de fenômenos que o debate público costuma dissolver em rótulos tão sonoros quanto vazios.
O verdadeiro horizonte do livro, contudo, não é a política atual. Esta constitui apenas o ponto de partida de uma investigação cujo alcance é incomparavelmente mais amplo. A partir de uma conjuntura histórica determinada, Perini-Santos reconduz o leitor a uma questão clássica da filosofia: como pode existir um mundo comum quando o conhecimento é produzido coletivamente e distribuído de forma tão radicalmente assimétrica? A resposta organiza-se em torno da confiança doxástica. Longe de designar uma simples disposição subjetiva, ela constitui a condição epistemológica da vida social. É dela que depende a circulação do conhecimento; é sua dissolução que torna inteligível não apenas a expansão da desinformação, mas a fragilização das próprias condições de possibilidade da esfera pública.
A abertura do livro é reveladora de seu método. Quem espera encontrar uma discussão imediata sobre fake news, negacionismo científico ou teorias da conspiração talvez estranhe o fato de Perini-Santos começar por um capítulo de epistemologia analítica. O estranhamento, entretanto, constitui parte da própria lição do livro. Antes de diagnosticar a crise da informação, é preciso compreender as condições que tornam possível o conhecimento. Daí o retorno aos conceitos clássicos da epistemologia — crença, verdade, justificação, testemunho e confiança. Longe de representar uma digressão, esse percurso fornece a gramática conceitual sem a qual os fenômenos analisados nas páginas seguintes permaneceriam filosoficamente opacos.
O capítulo começa por restituir às crenças sua dimensão normativa. Crer não consiste apenas em ocupar um estado doxástico, mas em pretender representar corretamente a realidade, submetendo-se, por isso, às exigências da verdade e da justificação epistêmica. Essa reconstrução prepara uma das teses centrais da obra: o erro deixa de ser concebido como simples manifestação de irracionalidade individual para revelar o conflito entre exigências normativas igualmente constitutivas da vida social.
Essa reconstrução conduz ao verdadeiro argumento do capítulo. O conhecimento não é uma conquista individual, mas uma realização coletiva, inseparável da divisão social do trabalho cognitivo. Em sociedades complexas, quase tudo o que sabemos repousa sobre o testemunho alheio e sobre instituições cuja autoridade aceitamos por deferência epistêmica. A confiança doxástica deixa, assim, de designar uma mera disposição psicológica para converter-se numa condição epistemológica da própria vida social. Confiar, contudo, nunca é simplesmente acreditar: é equilibrar abertura ao testemunho e permanente vigilância crítica. Desse ponto em diante, a interrogação que governa toda a obra já está posta: como pode subsistir uma sociedade fundada na confiança doxástica quando as instituições encarregadas de produzir e validar o conhecimento deixam de inspirar confiança?
Se o primeiro capítulo estabelece as condições epistemológicas do conhecimento, o segundo introduz a tensão que organiza toda a explicação subsequente. Enquanto bens epistêmicos (Tyler Burge), as crenças têm por finalidade representar corretamente a realidade; enquanto bens sociais, preservam os vínculos de coordenação e pertencimento indispensáveis à vida coletiva. Apoiando-se na psicologia cognitiva, na antropologia e na teoria da evolução, Perini-Santos mostra que essas duas dimensões da vida cognitiva nem sempre convergem. A desinformação deixa, assim, de figurar como simples déficit epistêmico para revelar o conflito entre dois valores igualmente constitutivos da existência humana: a verdade e o pertencimento.
As duas seções seguintes exploram essa tensão sob perspectivas complementares. A análise das crenças religiosas mostra que determinadas convicções desempenham, antes de tudo, uma função de integração social; a teoria da cognição protetora da identidade, desenvolvida por Dan Kahan, esclarece por que elas sobrevivem mesmo ao confronto com evidências contundentes. O pertencimento passa, então, a prevalecer sobre a justificação. O negacionismo deixa de aparecer como simples deficiência cognitiva para revelar sua verdadeira lógica: certas crenças persistem não apesar de sua fragilidade epistêmica, mas precisamente porque sua renúncia implicaria a perda dos vínculos sociais que lhes conferem sentido.
É somente no terceiro capítulo que se compreende a economia interna do livro. A longa incursão pela epistemologia não constituía uma digressão, mas a condição mesma da inteligibilidade do fenômeno investigado. As fake news, o negacionismo científico e as teorias da conspiração deixam então de figurar como episódios dispersos da vida política contemporânea para revelar uma unidade mais profunda: todas exprimem, sob formas distintas, o conflito entre a racionalidade epistêmica e as exigências do pertencimento social.
É aqui que a originalidade da análise de Perini-Santos se revela em toda a sua força. As fake news deixam de interessar apenas como falsificações deliberadas para aparecerem como signos de pertencimento; o negacionismo científico perde a aparência de simples ignorância e revela-se um simulacro de racionalidade voltado a corroer a autoridade das instituições epistêmicas; as teorias da conspiração, por fim, oferecem a moldura narrativa que torna essa rejeição intelectualmente aceitável. O que aproxima fenômenos tão diversos não é seu conteúdo, mas a lógica que os governa: pouco a pouco, o valor social das crenças emancipa-se de seu valor epistêmico. A desinformação deixa, então, de ser uma patologia da cognição individual para revelar uma crise muito mais profunda: a dissolução da confiança doxástica.
O quarto capítulo amplia novamente o horizonte da investigação. Depois de reconstruir a lógica interna da desinformação, Perini-Santos procura compreender as condições históricas que lhe permitiram adquirir a centralidade política que hoje possui. A internet desempenha papel decisivo, mas apenas ao preço de abandonar todo determinismo tecnológico. O espaço digital não explica a crise da confiança; apenas lhe fornece um novo meio de propagação. O que realmente interessa ao autor é a convergência de transformações cognitivas, econômicas e institucionais que alteraram o próprio ambiente epistêmico das sociedades contemporâneas. A abundância de informação, a velocidade de sua circulação, a opacidade crescente das fontes e a competição permanente pela atenção modificaram não apenas a maneira como as notícias circulam, mas os próprios critérios pelos quais aprendemos a reconhecer quem merece — ou não — nossa confiança.
A análise culmina numa verdadeira economia política da desinformação. A lógica dos algoritmos, a desregulação do mercado informacional e a drástica redução dos custos de publicação recompõem os incentivos que governam a circulação pública das ideias: passam a favorecer conteúdos capazes de capturar atenção e consolidar identidades coletivas, muito mais do que aqueles comprometidos com a verdade. É nesse horizonte que Perini-Santos situa sua interpretação da convergência entre diferentes modalidades de desinformação e a extrema-direita contemporânea. Longe de anteceder a investigação, ela emerge como sua conclusão lógica.
A conclusão abandona o terreno relativamente seguro da análise para enfrentar as dificuldades filosóficas abertas pelo próprio argumento. Se o conhecimento depende de uma divisão radical do trabalho cognitivo, que lugar ainda resta para o velho ideal iluminista de pensar por si mesmo? Perini-Santos evita com igual firmeza o populismo epistemológico e a sacralização tecnocrática do saber. A confiança — eis a última lição do livro — não nasce da autoridade; nasce da credibilidade.
Ao final da leitura, a desinformação revela-se apenas a face mais visível de uma crise muito mais profunda. Se a democracia constitucional depende de uma delicada rede de confiança doxástica e epistêmica — e de uma divisão social do trabalho cognitivo que nenhum indivíduo é capaz de substituir —, o que resta quando essa confiança começa a desaparecer? Perini-Santos prefere não converter seu diagnóstico em profecia. Talvez tenha razão. Mas a lógica de sua própria análise parece conduzir a uma hipótese mais inquietante: a de que o colapso da gramática da confiança possa anunciar não apenas uma crise política, mas o advento gradual de uma verdadeira distopia social.